A criança vista pela literatura

De Redação Estadão | 9 de fevereiro de 2021 | 07:00

A literatura infantil e juvenil brasileira é reconhecida como uma das melhores do mundo, com três vencedores do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura para jovens e crianças: Lygia Bojunga em 1982, Ana Maria Machado em 2000 e o ilustrador Roger Mello em 2014. Se a produção criativa é muito conhecida, o mesmo não se pode dizer da pesquisa no País sobre tal estilo de escrita.

Daí a importância do lançamento de A Representação da Criança na Literatura Infantojuvenil, livro de estreia da pesquisadora Isabel Lopes Coelho, pela editora Perspectiva. A partir de três obras clássicas – Sans Famille, Pinóquio e Peter e Wendy -, ela investiga a construção da representação da criança ao longo dos séculos. E, ainda que nenhuma daquelas histórias seja brasileira, sua universalidade permite a inserção da criação nacional.

Com um texto claro e sem academicismo, Isabel utiliza como ponto de partida os conceitos metodológicos apresentados por Erich Auerbach em sua clássica obra Mimesis. Lá, o pesquisador alemão estabelece a representação da realidade nos textos da literatura ocidental, ou seja, ele mostra como fragmentos de uma obra (por exemplo, uma cena, um gesto ou mesmo um diálogo) podem ajudar a representar o todo. Assim, Isabel pinçou trechos significativos daquelas três obras para apresentar um amplo painel histórico da literatura com e para crianças.

São esses três recortes que permitem observar as diferentes formas como a literatura incorporou em sua narrativa a criança e o jovem como protagonista. Assim, a francesa Sans Familie, de Hector Malot (1830-1907), apresenta a criança abandonada, estigmatizada desde o nascimento, um fenômeno que marcou a Europa do século 19. Já As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi (1826-1890), muda o foco para a questão educacional e é um exemplo de obra que revolucionou a linguagem da época, final do século 19. E finalmente Peter e Wendy, de James Matthew Barrie (1860-1937), acena para a liberdade das crianças, que impõem seus desejos diante da crise de valores que marca os adultos, tema que vai influenciar a moderna literatura do século 20.

“A literatura infantojuvenil é tanto reflexo quanto produtora da imagem da infância”, escreve Isabel, que aponta detalhes que tornam únicas aquelas três obras. Rémi, por exemplo, protagonista de Sans Famille, é um herói emblemático da literatura engajada daquela época, a “criança-vítima”.

“Já Peter e Wendy é uma obra controversa que alçaria um olhar preciso ao seu tempo ao trazer conflitos de ordem estrutural (quem é o herói do romance?) e de público-alvo (para quem o romance se dirige?), elevando a literatura infantojuvenil a um alto grau de qualidade”, escreve Isabel, observando ainda que, “poderosos e inquietos, esses heróis, ainda hoje atuais, incomodam o adulto que subestima a criança por libertar o leitor de condutas sociais obrigatórias preconcebidas”.
A pesquisadora vê como possível também encontrar uma relação cultural forte entre personagens icônicos da literatura infantil brasileira com o desenvolvimento sociocultural do País. Um tema para outra pesquisa. Por e-mail, Isabel respondeu às seguintes questões.

Dos três heróis escolhidos (Remi, Pinóquio e Peter Pan), existe um que se destaca como mais transgressor? E o que isso acrescentou para a evolução da literatura infantojuvenil?

Difícil dizer, pois, para ser um transgressor, é preciso ter algum parâmetro de “normalidade” para que tais convenções sejam transgredidas. Neste sentido, de alguma maneira, as três personagens lutam contra situações predefinidas socialmente. Rémi não aceita sua condição social de garoto abandonado e luta por ascensão; Pinóquio sempre toma o caminho para realizar a sua satisfação pessoal, mesmo sendo advertido pelos adultos do contrário; Peter Pan renuncia à estabilidade de uma família classe média londrina para experimentar aventuras de vida ou morte em uma ilha distante. Mas vou arriscar a dizer que Pinóquio pode ser interpretado como um anti-herói e, por isso, talvez o mais transgressor dos três. Pinóquio só deixa de ser transgressor quando decide morrer, abandonar o corpo de madeira para se tornar um menino de verdade.

Pinóquio seria, então, um personagem pertencente a uma geração que precisa lutar para dominar e tomar o lugar de outra?

A figura do Pinóquio é bastante controversa, mesmo na leitura crítica italiana. Ele pode ser lido como símbolo do bom x mau comportamento e, por isso, se tornar um exemplo educativo daquilo que não deve ser feito; ou, então, ser o oposto: uma espécie de sátira do rígido sistema educacional italiano da época. Exatamente por conta dessa característica dúbia que Pinóquio estabelece uma nova maneira de olhar para as novas gerações: como indivíduos atuantes, que têm suas paixões legítimas e que devem ser ouvidas pelos adultos.

É possível dizer que os três personagens falam ao leitor adulto, ou seja, à criança que existe em cada um?

Esse também é um tema muito interessante. Existem evidências textuais em As Aventuras de Peter Pan, por exemplo, que nos fazem crer que J. M. Barrie escreveu a obra se dirigindo a leitores adultos. Mas, ainda que possa existir essa questão em aberto, acredito que, quando revisitamos na idade adulta os textos clássicos ditos para a criança ou para a infância, com maturidade e vivência, percebemos de maneira mais clara o quão complexas são essas obras, o quanto elas trazem de humanismo, compaixão, sofrimento e dilemas morais e, até, psicanalíticos. Neste momento, nos perguntamos: “Mas isso foi escrito para uma criança?”. O que eu entendo que essas obras têm de belo é justamente a capacidade de lidar com assuntos de ordem tão profunda de uma maneira que atinja leitores de todas as idades.

Em geral, clássicos da ficção infantil trazem exemplos do que é bom e mau, certo e errado, e terminam com a mensagem de que é possível superar medos, traumas e diferenças. É possível dizer que, aos olhos de hoje, seriam uma espécie de exemplo de autoajuda infantil?

Pode-se dizer que a ficção infantil nasce com essa vocação de ensinar, com forte caráter educativo. Esse conceito pode ser “aplicado” nas obras de ficção em maior ou menor grau. E, dependendo do grau, a obra ganha aspectos mais literários, ou menos literários. Pela minha experiência, inclusive como editora (comandou o núcleo infantojuvenil da editora Cosac Naify), vejo que qualquer história pode ser contada, mesmo as edificantes e previsíveis. Pois, talvez o mais importante não seja exatamente o final da história, mas a jornada que o herói fez para chegar lá, que depende de um bom enredo, articulação precisa entre as personagens e uma grande dose de boa escrita.

Peter Pan já foi apontado como um bom exemplo de representações sexuais em literatura infantojuvenil. O que pensa sobre isso?

Peter Pan é de fato uma personagem que suscita discussões de ordem psicanalítica. Ainda que o meu campo de pesquisa seja a literatura, podemos nos beneficiar de algumas pesquisas sobre o tema. É sabido que Barrie lia Freud, e não é difícil encontrar no texto interações entre as personagens que carregam algumas características das neuroses descritas pelo pai da psicanálise. Temos, inclusive, um termo para descrever alguns comportamentos masculinos denominado de síndrome de Peter Pan. Vale, ainda, citar que Jacqueline Rose, na obra The Case of Peter Pan (1984), foi uma tentativa bem-sucedida de fazer essas conexões de maneira mais organizada, ainda que hoje a obra já tenha sido revisitada por outros pesquisadores que atualizaram algumas das interpretações de Rose. Assim, considero que Peter Pan é de fato uma personagem complexa, com muitas “portas abertas” para interpretações, inclusive as de ordem psicanalíticas. Cabe ao leitor criar a sua própria fantasia a partir daquilo que leu.

A REPRESENTAÇÃO DA CRIANÇA…
Autora: Isabel Lopes Coelho
Ed.: Perspectiva (208 págs., R$ 54,90 – e-book R$ 39,90)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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