A filha dos deuses

De Redação Estadão | 8 de março de 2020 | 08:40

É o quarto filme de Chiara Mastroianni com Christophe Honoré, após Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar, Canções de Amor e Bem-Amadas. Chama-se Quarto 212 e estreia dia 12 no Brasil. Chiara é uma personagem perfeita para uma entrevista neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Defende igualdade, paridade – inclusive salarial -, mas não é uma feminista radical, porque não acredita na exclusão. “Entendo perfeitamente a raiva das mulheres, porque às vezes também me sinto assim. Apoio o #MeToo e compreendo que nenhuma revolução, mesmo comportamental, se faz sem vítimas, mas não acredito que demonizar os homens seja a solução. É preciso trazê-los para o nosso movimento. E eu conheço homens que são mais feministas que muitas mulheres.
Existem mulheres machistas que perpetuam o modelo na criação dos filhos.”

A propósito, você talvez se surpreenda, mas Chiara critica a mãe, a mítica Catherine Deneuve, que, em janeiro de 2018, no auge das denúncias contra o produtor Harvey Weinstein nos EUA, assinou um manifesto de cem mulheres francesas publicado pelo jornal Le Monde. O documento ia contra o #MeToo, defendendo o direito de os homens “cantarem” as mulheres. “Não aprovei que ela tenha assinado aquilo. Acho que foi uma coisa sensacionalista, vulgar, uma tentativa de manipulação, desautorizando a campanha que estimula mulheres a romper o silêncio de vítimas de assédio ou abuso sexual. Sei que minha mãe não agiu de má-fé. É muito mais uma coisa geracional. Quando ela começou, no início dos (anos) 1960, esse era um comportamento normal, contra o qual as mulheres tinham de se defender. Era até considerado lisonjeiro, um cumprimento. Nenhum homem ia assediar uma mulher que não fosse considerada atraente.”

Mas isso acabou, segundo ela. “Isso se tornou intolerável. Não sou pela demonização dos homens, mas a verdade é que esse comportamento não cabe mais, mesmo num mundo em que as mulheres ainda precisam lutar por igualdade. Hoje, há muito mais consciência. O manifesto daquelas 100 mulheres alertava contra o novo puritanismo do politicamente correto. É muito mais que isso. Nós, mulheres, não podemos ser constrangidas, nem humilhadas. É muito mais que sexo. Não é não. O que induz esse comportamento machista é o poder, o dinheiro. Os homens têm de ser nossos aliados. Que tipo de homem tem medo de uma mulher empoderada?”

Filha de dois grandes do cinema, a bela da tarde Catherine e Marcello Mastroianni, Chiara é a primeira a admitir que começou muito crua. Com o tempo, adquiriu maturidade como atriz. “É a única vantagem de envelhecer”, brinca. Em Paris, de volta para o Brasil, após o Festival de Berlim, o repórter reviu um Luchino Visconti do fim dos anos 1950, Noites Brancas, adaptado de Dostoievski, com o jovem Marcello Mastroianni – antes de seu estouro em A Doce Vida, de Federico Fellini.

O jovem Marcello era um assombro de beleza. “Era, tanto ele como minha mãe. Mas meu pai nunca aceitou os rótulos. Homem bonito, Don Juan. E foi por isso que fez O Belo Antônio, sobre um homem impotente, que não consegue consumar o casamento. O filme foi perseguido pela censura na Itália, sofreu cortes, foi um escândalo.” Eis agora que a filha interpreta uma versão feminina de Don Juan. “Sou mais uma versão madura da garota – a mulher – da porta ao lado. Só Christophe (Honoré) para me colocar nesse papel. O curioso é que você acaba de dizer versão feminina de Don Juan. Na sociedade machista, a personagem é tão inconcebível que nem tem equivalente. Ninguém diz Dona Juana. É a salope (cadela). O que é apreciado no homem, é pejorativo para as mulheres.”

Christophe, Cristophe! Ele não apenas colocou Chiara nesse papel como fez do marido traído ninguém menos que o ex-marido da atriz, na realidade, Benjamin Biolay. Algum problema? “Ah, non, pas de tout. Benjamin é pai de minha filha Anna e, após o divórcio, em 2005, fizemos muita coisa juntos. Além de ator, ele compõe e canta. Temos uma parceria muito firme. Fizemos shows, turnês, temos discos gravados. O que mais gosto no filme é que Christophe deu a Benjamin um raro papel de homem doce. No Brasil, isso talvez não faça diferença, mas, na França, onde ele é muito conhecido, as pessoas descobriram um outro Benjamin, e acho que isso é maravilhoso.”

Os papéis, no filme, são autobiográficos? “O que você quer saber, se eu traía Benjamin? Não, nada de autobiográfico. Nunca fui professora universitária.” E ela ri, uma risada gostosa. Na ficção, o marido descobre o adultério, a mulher e ele discutem, ela vai para o hotel em frente ao apartamento e, durante uma noite que parece sem fim, é visitada pelos fantasmas do passado, inclusive a versão jovem do marido, Vincent Lacoste. O quarto 212 – o número refere-se ao artigo do Código Civil em que os cônjuges se prometem fidelidade, “Amar e respeitar para sempre” – é menos um espaço físico que uma viagem mental da protagonista. “Com certeza, e é por isso que após essa noite mágica, que é o título em inglês, sou uma mulher transformada. O filme termina em aberto, sem definir se o casal volta ou não, mas qualquer que seja a possibilidade, ambos mudaram. Meu reencontro com a versão jovem de Benjamin é decisivo, e não porque Vincent Lacoste seja bonito, mas porque traz de volta tudo o que me atraía nele, e que a gente termina por esquecer na convivência.”

Para terminar, um Dia da Mulher? “É bobagem, só serve para incentivar o consumo. Todo dia é dia da mulher, do homem e só vamos ter igualdade quando nos aceitarmos como somos. Há muita pressão sobre a mulher, mas sobre o homem, também. Independentemente de gênero, todo casal, todo par precisa se unir para carregar o fardo da existência.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten
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