A Força das máquinas

De Redação Estadão | 15 de dezembro de 2019 | 14:33

Apesar das batalhas espaciais épicas e grandiloquentes, com direito a explosões barulhentas mesmo no vácuo, grande parte dos conflitos da saga Star Wars acabam sendo resolvidos não com uma frota de naves, nem mesmo com um bom duelo de sabres de luz, mas por meio da astúcia de meros robôs. Chamados de “droides”, essas criaturas mecânicas caricatas e vulneráveis tornaram-se uma marca registrada da franquia criada por George Lucas – “marca registrada” em mais de um sentido, já que um dos muitos aspectos que Star Wars revolucionou no cinema foi o merchandising.

Os estúdios acreditavam que a ópera espacial de George Lucas seria um fracasso. Apesar de seu filme anterior, Loucuras de Verão (1973), ter sido indicado para cinco categorias do Oscar e lucrado US$ 637 milhões, a ficção científica estava longe de ser um gênero confiável para se investir o dinheiro de um estúdio na época. Como as expectativas da 20th Century Fox eram baixas, eles aceitaram uma proposta de Lucas para que ele conservasse o lucro sobre o merchandising (como a venda de brinquedos, miniaturas e outros objetos promocionais inspirados na série). Não é necessário dizer que robôs fofinhos foram essenciais para que Star Wars tenha lucrado mais com merchandising (US$ 42 bilhões) do que com bilheteria (US$ 9 bilhões) em 42 anos.

Nada disso daria certo, é claro, se os droides não fossem tão carismáticos. O primeiro filme, Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977), trouxe os dois robôs que participariam de quase toda a saga e se tornariam símbolos da franquia: R2-D2 e C-3PO.

O design de R2-D2, criado pelo artista Ralph McQuarrie, foi inspirado pelos coloridos drones Huey, Dewey e Louie, do filme Corrida Silenciosa (1972), dirigido por Douglas Trumbull. Para rodar as cenas, foram construídos vários modelos diferentes, com tamanhos e funções distintas. Havia versões movidas por controle remoto, mas a maior parte das cenas foi gravada pelo ator inglês Kenny Baker, que, com 1,12 m de altura, cabia dentro da estrutura do R2-D2 e era responsável por fazê-lo acender e apagar luzes, girar a cabeça e se movimentar de acordo com o roteiro. Morto em 2015, no ano em que estreou Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força, Baker foi substituído pelo ator e marionetista Jimmy Vee, que tem a mesma altura de Baker, para os últimos dois filmes.

Já o androide dourado C-3PO, construído pelo jovem Anakin Skywalker e que se gaba de “ser fluente em mais de 6 milhões de formas de comunicação”, teve seu visual inspirado pelo robô do clássico filme Metrópolis (1927), dirigido pelo mestre do cinema expressionista alemão Fritz Lang, baseado em um livro de Thea Von Harbou. No romance, a criatura se chama Futura, e é um dos primeiros e mais importantes robôs da história da ficção científica – a própria palavra “robô” havia sido cunhada ainda naquela década, e usada pela primeira vez na peça A Fábrica de Robôs (1920), do escritor e dramaturgo checo Karel Capek.

Com a evolução da tecnologia de efeitos visuais, os filmes mais recentes passaram a utilizar cenas em computação gráfica (o exército de Droids de Batalha que combate a República nos episódios I a III são um exemplo), mas até hoje os diretores usam atores e efeitos práticos – tanto que o ator Anthony Daniels continua interpretando C-3PO. Da mesma forma, seria muito fácil fazer o droide rolante BB-8, da nova trilogia, em computação gráfica, mas o diretor J.J. Abrams quis manter a tradição de efeitos práticos na série. O artista da trilogia original, Ralph McQuarrie, já havia produzido na época um conceito de um robô que rolasse, mas a ideia não foi aproveitada na época. Agora, por meio de um mecanismo patenteado pela Disney, foi possível dar vida a BB-8 – que conseguiu a façanha de ser tão carismático quanto R2-D2 e C-3PO.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

André Cáceres
Estadao Conteudo
Copyright © 2019 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.