A força do passado constrói as dores atuais

De Redação Estadão | 3 de fevereiro de 2020 | 08:30

Universitário de 22 anos, Sylvain Murdoch está desaparecido. O público logo é informado de que a ação se passa no dia 6 de fevereiro de 1991, uma quarta-feira, dia de São Gastão. Um pouco mais e se descobre que o rapaz está morto. Suicídio. São pedaços de informação que a plateia recebe atentamente, montando o quebra-cabeça que é a peça Sede, em cartaz no Tucarena.

Trata-se do terceiro trabalho encenado no Brasil do libanês-canadense Wajdi Mouawad, depois de Incêndios e Céus. “Em todas, o passado tem ação decisiva no presente”, comenta Zé Henrique de Paula, que dirige o espetáculo, além de integrar o seleto grupo de três atores. Ele vive Boon, um antropólogo forense que é convocado para analisar dois corpos encontrados no fundo de um rio congelado, já em avançada decomposição. Um deles era o de Murdoch.

“É possível que ele tenha pisado de propósito no lado mais frágil do gelo, mas o que interessa é tentar entender o que se passa na cabeça dele, uma pessoa que se sente estranha e diferente”, observa Felipe de Carolis, intérprete de Murdoch e grande conhecedor do universo trágico criado por Mouawad – ele produziu e encenou Incêndios e Céus. “A depressão e o suicídio são grandes males modernos, especialmente entre os jovens. É preciso combatê-los – eu gostaria que, daqui a dez anos, o tema de Sede já fosse obsoleto.”

Em suas três peças, Wajdi Mouawad traça um perfil complexo do ser humano ao mapear seus sentimentos e pensamentos. Não com uma escrita que acompanha a rapidez dos tempos modernos influenciados pela internet, mas oferecendo desafios ao espectador, convidado a participar (e a desvendar) de um sofisticado jogo que avança e retorna no tempo. “Sede traz uma estrutura peculiar, pois se trata de um desafio dramatúrgico”, avalia Zé Henrique. “Cada cena é como uma peça solta lançada pelo autor e, se isso provoca estranheza no início, logo tudo se clareia quando a última peça é agregada.”

A dramaturgia é requintada por apresentar um jogo de palavras que, de tão poderosas, conseguem criar novos universos, sugerir imagens. “Esse é o trabalho mais metafórico de Mouawad, um verdadeiro desafio”, comenta o diretor. “Ele utiliza a mesma estrutura da tragédia clássica, em que um personagem carrega um passado e precisa fazer um acerto de contas, tem uma missão a cumprir.”

É o que se impõe Boon, ao fazer estranhas descobertas quando analisa os cadáveres dos dois jovens. Nesse momento, Sede revela seu caráter investigativo, com Boon fazendo a reconstituição dos fatos a partir de suas análises. No ventre da menina, por exemplo, há algo estranho, com forte carga negativa, que se assemelha a um polvo. Noruega é o nome dela, personagem interpretada por uma atriz em estado de graça, Maria Manoella.

Nada ali é gratuito – na mitologia nórdica, o polvo é a representação da fera. Noruega também é o país natal de Henrik Ibsen (1828-1906), dramaturgo que analisava temas da realidade a partir de questões dos antepassados, ferramenta também essencial no trabalho de Wadji Mouawad.
“Entrar nesse universo foi inicialmente muito difícil para mim”, conta Manoella. “Sou muito racional na execução de tarefas, só consegui avançar pelo meu lado mais sensorial – foi um entendimento físico, epitelial, que me permitiu ver a existência desse monstro dentro de mim.”

Conviver com o onirismo do texto permitiu à atriz encontrar, na realidade, reflexos da peça. “Vejo o polvo como a representação das atrocidades do dia a dia”, conta ela, argumento reforçado por Zé Henrique: “Para mim, vem a forte imagem das inúmeras pessoas que vemos diariamente morando nas ruas”.

O clima de fábula é reforçado pelas imagens projetadas no cenário, criação de Laerte Késsimos e que simula gelos quebradiços e um polvo em movimento. Também a trilha sonora, executada ao vivo, acentua o caráter onírico.

Em seu trabalho de ambientação com a dramaturgia, Manoella, que oferece um poderoso monólogo quase no fim do espetáculo, encontrou um curioso parentesco para Sede: o romance de formação O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, um dos grandes livros do século 20 graças à sua visão crua da adolescência e seus problemas. “Aqui e na peça, encontramos um jovem revoltado que faz um acerto de contas com o passado.”

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