A morte de um corifeu

De Redação Estadão | 20 de dezembro de 2019 | 06:58

Morreu na quinta-feira, 19, aos 92 anos, no Real Hospital Português do Recife, o artista pernambucano Francisco Brennand. Ele estava internado havia dez dias por causa de uma infecção nas vias respiratórias. O velório foi realizado na Capela Imaculada Conceição, no interior da Oficina Cerâmica que leva seu nome, no Recife. Brennand foi um dos maiores pintores e escultores de Pernambucano e um intelectual de grande erudição, que também escrevia – aliás, antes de se tornar artista, editou e ilustrou um jornal estudantil ao lado do poeta, romancista e dramaturgo pernambucano Ariano Suassuna (1927-2014), integrando o Movimento Armorial na década de 1970.

Ceramista, desenhista, gravador e também tapeceiro, o recifense começou como artista nos anos 1940, dedicando-se inicialmente à pintura e, depois, à escultura por influência de Picasso e Miró. Entre 1958 e 1999, realizou painéis e murais de cerâmica no Brasil e nos EUA (é dele o painel que decora a parede lateral externa do edifício da Bacardi, no Biscayne Boulevard de Miami). Em 1971, criou a oficina que leva seu nome em uma antiga fábrica de cerâmica abandonada que pertencia à família, nas cercanias do Recife.

A oficina virou um lugar de peregrinação de turistas interessados em arte, algo como as construções de Gaudí em Barcelona, cidade que o artista conheceu nos anos 1950. As formas sinuosas de Gaudí e seu uso do trencadís, técnica decorativa catalã de mosaicos com fragmentos de cerâmica, deixaram forte impressão em Brennand, como é possível atestar na oficina instalada por ele no antigo engenho familiar São João da Várzea, subúrbio do Recife.

A exemplo de Gaudí, também Brennand pode ser classificado como um artista moderno ancorado na tradição antiga – e suas referências a deuses e figuras mitológicas comprovam essa inclinação para a ancestralidade, o gosto pelo arcaico. Essa reverência mítica está presente em esculturas como Pássaro Roca (1990), peça em cerâmica vitrificada instalada na plataforma central da Estação Trianon-Masp do metrô paulistano – esse mesmo pássaro é tema de diversas obras de sua oficina-ateliê no Recife, uma ave guardiã dos espaços que vigia a todos e mantém a ordem na visão cosmológica de Brennand.

A exemplo do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), sobre quem escreveu – ele era um refinado cinéfilo -, Brennand tinha pelos textos clássicos e pela arte dos antigos um respeito descomunal. Fez de suas esculturas totêmicas peças de resistência contra o triunfo da razão contemporânea, resgatando os mitos ancestrais para humanizar uma sociedade tecnológica que expurgou os deuses de seu convívio.

Quando pintava, seguia os primeiros mestres da moderna Escola de Paris (Matisse, Bonnard), por ter morado durante algum tempo (entre 1948 e 1951) na Europa. Foi nessa ocasião que descobriu a cerâmica como forma de arte, e não apenas utilitária, animado com as peças de Picasso e Miró. Isso o conduziu a uma temporada numa fábrica de majólicas de Deruta, província de Perúgia, na Itália, para aprender como queimar e esmaltar com base no preparo artesanal da faiança renascentista.

A exemplo dos renascentistas, Brennand trabalhou igualmente a sexualidade como fenômeno que extrapola o binário para cruzar gêneros (vegetais, inclusive). Suas figuras sensuais acentuam o protofeminismo já presente no Renascimento italiano, ao evocar a força de guerreiras e deusas, projetando na cerâmica o ideal do corpo feminino que tanto amou – naturalmente o da mulher nordestina. Como disse Ariano Suassuna, “nós, nordestinos, nos preocupamos em sermos fiéis à terra, aos mitos, às histórias, às formas e cores da região”.

Sendo regional, ele se tornou internacional, reconhecido em bienais como a de Veneza, em 1990, e objeto de retrospectivas (na Staatliche Kunsthalle de Berlim, em 1993, e na Pinacoteca de São Paulo, em 1998).

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Antonio Gonçalves Filho
Estadao Conteudo
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