A revolta dos excluídos marcou os melhores filmes

De Redação Estadão | 26 de dezembro de 2019 | 07:30

Terminou sendo a tendência do ano, esboçada em Cannes, confirmada em Veneza. Ao longo de 2019, e menos no Brasil, manifestantes foram às ruas protestar contra o estado do mundo. Desequilíbrio ambiental, desigualdade social. O cinema retratou o fenômeno. Bacurau, Les Misérables e Parasita, o vencedor da Palma de Ouro. Coringa, o antagonista de Batman, liberando a revolta surda que o transforma num incômodo que, finalmente, se revela uma liderança no mundo distópico. O Leão de Ouro.

No domingo, no caderno Aliás, do jornal O Estado de S. Paulo, pensadores refletiram sobre as mazelas sociais e políticas – sobre a distopia. O cinema fez isso o tempo todo no ano que se encerra. Nos blockbusters, Os Vingadores e a garota depositária da Força, a Rey de Star Wars Episódio IX, conseguiram reverter o quadro de horror e salvar a humanidade. Um sonho de cinema, numa temporada marcada pelo pesadelo. No Brasil e no mundo, houve sintonia.

Foi um ano difícil, em que a categoria foi criminalizada, num discurso marcado pelo achismo e pela falsidade ideológica. A categoria paga impostos que se transformam num fundo para o financiamento de filmes, mas o governo tentou, o tempo todo, indispor a sociedade com seus artistas, como se eles estivessem desviando dinheiro de educação, saúde, segurança para fazer suas obras pornográficas e ideologizadas. Quem diz isso é Luiz Carlos Barreto, cuja folha corrida de serviços prestados à cultura brasileira vem desde os anos 1950, no mínimo. Barretão atravessou os anos de chumbo da ditadura e nunca viu tanta dificuldade quanto agora, mas não desanima. “Quanto mais tentam destruí-lo, mais o cinema brasileiro resiste.”

Foi um ano de grandes filmes brasileiros, e o maior deles é Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. A cidade do sertão riscada do mapa e os sertanejos que pegam em armas contra os gringos que vieram – por quê? – eliminá-los. Nenhuma complacência com o outro, nenhuma vontade de entendimento.

Ficção e documentário deram conta da manipulação em processo. Petra Costa, com seu discurso em primeira pessoa – ela, filha e neta de grandes empreiteiros -, está no Oscar com seu longa, Democracia em Vertigem, que expõe as incongruências do processo de impeachment. Susana Lira, em A Torre das Donzelas, mostrou outro viés. Deu voz à ex-presidente Dilma Rousseff e às mulheres que estiveram presas com ela, durante a ditadura. Entende-se melhor a intransigência de Dilma em negociar.

Cristiano Burlan narra outro processo. Em Elegia de Um Crime, volta-se para outro episódio traumático da própria vida – depois de Mataram Meu Irmão – e recria o assassinato da mãe, persegue seu matador. É um filme duro, cruel, e regenerador. Expõe o feminicídio que faz das mulheres vítimas preferenciais do machismo. Não apenas elas. Gays e trans. A Rosa Azul de Novalis fez a suprema provocação do ano – no Brasil da religião ideologizada, o personagem de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, crendo-se a encarnação do poeta romântico alemão, busca a inatingível rosa azul e encontra uma entrada para o sagrado. Isso para não falar do que, nas periferias, está ocorrendo com jovens negros e pobres – No Coração do Mundo, de Gabriel Martins e Maurílio Martins (Temporada, de André Luiz Oliveira estreia só no que vem). Assim como o empoderamento marcou 2018, com a Mulher-Maravilha, houve em 2019 Pantera Negra e os prêmios para Spike Lee no Oscar.

Apesar dos números amplamente favoráveis aos filmes internacionais, foi um ano muito rico para o cinema brasileiro. O cinema de gênero marcou presença, a discussão sobre diversidade abarcou questões de gênero e raça. Do mundo vieram os fenômenos Coringa e Parasita. A questão não é mais se Joaquin Phoenix estará entre os indicados para o Oscar, mas se finalmente ganhará o prêmio. Só se der a louca na indústria seu Coringa não estará entre as cinco maiores interpretações do ano.
Da mesma forma, é fava contada que Parasita estará entre os indicados para filme internacional. A dúvida, em termos, é se Bong Joon-ho, como no Globo de Ouro, concorrerá a melhor diretor. Sorte dos dois, Todd Phillips e Joon-ho, que Les Misérables tenha ficado para 2020 no Brasil. A urgência de Ladj Ly teria atropelado ambos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten
Estadao Conteudo
Copyright © 2019 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.