A turma do zen

De Redação Estadão | 20 de abril de 2020 | 07:15

Respirar, a mais essencial das nossas funções. Está aí a pandemia de coronavírus nos provando mais uma vez este fato, por vezes esquecido no atropelo do dia a dia. Como o mundo parou, se dê a chance de experimentar algo novo. Esse é o convite que o ex-nadador Fernando Scherer faz diariamente aos seus seguidores quando entra ao vivo, às 9 horas, para a meditação no Instagram @xuxanatacao.

“Se eu conseguir introduzir esse hábito na vida das pessoas, fico feliz. Já estou há uns 15 dias fazendo as lives, e o retorno é muito bom. Mães que melhoraram com os filhos, que ficaram mais tranquilos. Pessoas que começaram a dormir bem, a resolver problemas com mais calma”, diz o medalhista de bronze na Olimpíada de Atlanta (1996) e na de Sydney (2000).

Nesta semana, Xuxa começou a fazer lives para crianças, às 19h30, às segundas, quartas e sextas-feiras. “É curtinha, com uns dez minutos; a criança já é aérea, vou usar mais o elemento terra”, explica o ex-nadador.

As filhas de Scherer também são iniciadas na prática de meditação. “A Brenda (de 7 anos) faz meditação direto comigo. Ela já chega e senta do meu lado na live da manhã, quando quer, e toda noite a gente faz juntos”, conta o ex-atleta. “A mais velha (Isabella, de 24 anos) faz no tempo dela. Isso é que nem exercício físico e uma boa alimentação – tem de ser de dentro para fora, não adianta forçar.”

Professora de ioga para crianças, Fernanda Poli entende bem isso. Miguel, de 6 anos, e Maitê, de 2, às vezes se animam quando veem a mãe nas posturas. “Eles praticam, mas não é uma regra. Encaram um pouco como exercício”, diz a professora, que dá dicas a famílias no Instagram @yoga.para.criancas. “Não acho que a criança que vai fazer ioga hoje vai ficar calma amanhã. O que quero é que ela se sinta bem e busque isso para, lá na frente, ser menos ansiosa.”

Tanto no Instagram quanto na aula de 25 minutos que publicou em seu canal do YouTube, Fernanda mostra posturas simples, cujos nomes traduzem o movimento executado, como borboleta e pinça. “A Hatha Yoga que eu dou não tem aquelas posturas de capa de revista. É bem tranquila, todos podem fazer.”

Para o psicólogo Danilo Lima Tebaldi, que atende crianças e adolescentes na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, meditação e ioga podem ajudar as famílias. “Os pais podem estimular os filhos a olharem para si e a refletirem o que podem aprender com este período complexo”, afirma Tebaldi. “Os pais também podem se beneficiar dessas práticas para cuidar de si.”

A pediatra Célia Bocci concorda com a busca por “equilíbrio e paz neste momento caótico”. “A gente não esperava viver isso. Você é testemunha da história, mas conviver com os sentimentos e encarar isso é difícil”, afirma a médica do Hospital Infantil Sabará. Célia indica, além de meditação e ioga, exercícios básicos de respiração, ensinados em aplicativos gratuitos como Insight Timer e Medite-se.

Até a Barbie, um símbolo pop, entrou no clima zen. O Instagram @barbie já teve lives nesta quarentena com meditação guiada pelo aplicativo Headspace. A versão iogue da boneca dobra os joelhos para cruzar as pernas na posição clássica da ioga. “No ato de meditar, a gente está paradinho ali, mas está trabalhando com a criança de uma maneira integral”, explica a pedagoga Cris Pitanga, que ensina ioga e meditação para crianças desde 1996. No Instagram @crispitangayogakids e no seu canal do YouTube, ela posta dicas para pais e educadores.

Na quarentena, publicou vídeos curtos com conceitos como a postura da montanha (“para se conectar com a força interior”) e o sopro ha (“para se libertar da raiva e do medo”). “Não queria ficar explicando muito. Queria uma prática que os pais pudessem fazer em casa. As crianças já estão cheias de atividades neste isolamento”, diz.

Sem imposição. A prática, no entanto, não pode ser mais uma obrigação, alerta a psicóloga Beatriz Borges Brambilla, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Têm crianças que vão se adaptar super bem, vão achar bacana. Para outras, mais coisas novas podem parecer tarefas”, ressalta. “A meditação não é boa para todo mundo. Acho muito complicado esse tipo de recomendação se não diz sobre o histórico da família. É importante que os pais valorizem o que já faziam antes do isolamento.”

Os filhos de Marcia Fortuna aprenderam a meditar no kung fu. Mateus, de 12 anos, e Letícia, de 8, praticam a arte marcial desde 2017. “Eles não têm o hábito, mas, quando estão agitados, a gente puxa a meditação”, diz a mãe. “A Letícia para e medita mais. O Mateus está na fase de videogame.” Marcia conta que, para a filha, funciona como brincadeira. “Para ela, meditar é a questão da respiração.”

Focar no ato de respirar está entre os benefícios da prática. A professora Cris enumera alguns outros: “A criança vai aprender a relaxar o corpo, a acalmar a mente, a equilibrar as emoções”. Enquanto o mundo segue parado, faça você também uma pausa. Inspire, expire, tudo vai passar. Namastê.

Nathalia Molina
Estadao Conteudo
Copyright © 2020 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.

Deixe um comentário