A voz de Fernanda Young

De Redação Estadão | 12 de setembro de 2020 | 07:13

No ano passado, Maria Ribeiro apresentou na Mostra seu documentário em parceria com Loiro Cunha, Outubro. Vale citar o poeta Nei Duclós: “Lento e bruto eu mudo/sei que vem outubro”. Maria, vestida de noiva, fazendo campanha na eleição presidencial de 2018. “Nesses últimos anos, a própria realidade brasileira me forçou a me converter nesse ser político. Briguei com muita gente, todas as pessoas. Não é nem uma questão de ideologia – é o choque entre barbárie e humanidade.” Maria guerreira – ela já estava cansada de tanta polêmica quando leu o livro de Fernanda Young, Pós-F. Ops! Tomou a decisão: “Sou atriz, vou expressar minha revolta através dela.”

E foi assim que começou a nascer o espetáculo Pós-F, que estreia neste sábado, 12, no Teatro Porto Seguro, que vende ingresso pelo seu site (www.teatroportoseguro.com.br). Será apresentado remotamente. Um monólogo de Maria baseado no texto de Fernanda Young e com direção de Mika Lins. “Sou um bicho de plateia, mas aqui estamos fazendo o possível em termos de isolamento da pandemia. Foi preciso encontrar esse lugar entre o teatro, o cinema e a TV.” Quatro câmeras. Um teatro vazio – “não consegui nem que minha amiga Martha Nowill estivesse na plateia”, lamenta Maria. Mas ela está cheia de entusiasmo com seu monólogo. Figurino simples (calça jeans) e, de cenário, somente os móbiles que a diretora criou, com ilustrações, entre outras, da própria Fernanda. “Ela era uma figura, a Fernanda. Já pensou uma garota de Niterói, família estruturada, convencional? Aos 11 anos, ela já expressava sua revolta raspando a cabeça.”

Fernanda era “barroca” – “tinha 40 tatuagens espalhadas pelo corpo e uma coragem imensa para dizer as coisas. A menina de Niterói desabrochou quando encontrou o Fernando Machado. Dizia que ele a ensinou a dar os pontos do bordado, olha que coisa linda. Inclusive, a gente pretende fazer lives após o espetáculo. Serão oito apresentações, durante quatro fins de semana, cada dia um convidado. Nesse primeiro dia, a live será com o Fernando.
Ninguém melhor que ele para iniciar esses debates”. E como tudo começou: “Li a Fernanda e percebi uma coisa muito forte. Tudo o que eu queria falar já estava ali. Fui atrás dela para adquirir os direitos e Fernanda disse que só topava se ela dirigisse. Mas mudou de ideia e propôs que chamássemos a Mika (Lins). Ela queria atuar. Nós duas íamos criar a personagem. Fernanda dizia que era assim mesmo. Cheia de contradições”. Ninguém ia estranhar de ver duas vozes, dois corpos vivenciando aqueles conflitos.

Maria conta: “Fernanda não cabia em nenhum nicho. Num país cada vez mais polarizado, a esquerda dizia que ela era de direita, e vice-versa. Ela tinha coragem de ser, de dizer. E Fernanda, que era tão libertária, também era completamente carola. Acendia velas para todos os santos”.

Reuniram-se as três, Mika, Fernanda e Maria, para criar o monólogo e conceituar o espetáculo. “Conversamos coisas de mulheres.” No limite, Fernanda desistiu e foi fazer outro espetáculo, que, olhem a coincidência, deveria ter estreado em 12 de setembro do ano passado, mas todo mundo sabe o que ocorreu. Fernanda tinha asma, morreu de parada respiratória em 25 de agosto. “Mas Pós-F tinha sido inscrito nas leis de patrocínio, a Porto Seguro topou e vamos estrear no mesmo teatro em que vi, no fim do ano passado, uma peça sobre o Moraes Moreira. Não tinha muita gente, mas era muito boa. Pensei comigo – ‘As pessoas nem sabem que gostam tanto do Moraes’. Penso agora a mesma coisa. Espero que as pessoas que gostavam da Fernanda vejam. Nem vão precisar sair de casa. E aí todo mundo vai ver que ela faz uma falta danada.”

Para Maria, o espetáculo “é uma coisa, assim, esquizofrênica, bem (Charlie) Kaufman”, referindo-se ao diretor americano que recebeu o Oscar de roteiro pelo cultuado Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry, de 2005. Maria faz uma comparação muito bonita. “Assim como Leila Diniz, Fernanda era daquelas mulheres que, apenas cumprindo sua psique, nos libertava de tudo que não era natural e, sim, convenção.” Elas representavam uma atitude pós-feminista, sem ligar se alguém ia achar correta ou não. “Acreditava numa libertação da mulher, mas sem excluir o homem, principalmente depois que se tornou mãe de um menino. E isso é necessário resgatar nesse momento de isolamento, em que tanta gente está trancada. Homens e mulheres estão tendo de se acertar dentro de casa. Estamos vivendo uma crise sem precedentes, e não estou falando só da crise sanitária. Olha o que está acontecendo com esse País.”

Por mais que o texto de Pós-F invista contra a sociedade patriarcal, os homens são bem-vindos – na plateia virtual e na própria equipe. O iluminador Caetano Vilela coassina o texto e a trilha. Rodrigo Gava é o produtor da live e da sonoplastia.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten
Estadao Conteudo
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