Al Pacino caça nazistas

De Redação Estadão | 21 de fevereiro de 2020 | 07:00

Prestes a completar 80 anos, em 25 de abril, Al Pacino não dá sinais de acomodação. Depois de estrear no streaming com o longa-metragem O Irlandês, em que se reuniu com o diretor Martin Scorsese e com Robert De Niro e Joe Pesci, ele agora estrela sua primeira série de televisão, Hunters, que vai ao ar nesta sexta-feira, 21, na Amazon Prime Video. Antes, ele só tinha feito para a televisão filmes como Você Não Conhece Jack e Phil Spector e a minissérie Angels in America, todos para a HBO.

“Para mim, é como um longa de dez horas de duração”, disse Pacino em entrevista durante evento da Television Critics Association, em Los Angeles, referindo-se a Hunters. “Foi uma experiência maravilhosa. É só um ambiente diferente”, completou o ator, que disse ter estranhado a mudança de diretores a cada episódio.

Em Hunters, que se passa nos Estados Unidos de 1977, Pacino interpreta Meyer Offerman, um sobrevivente do Holocausto que forma um grupo de caçadores de nazistas. Os seguidores de Hitler vivem infiltrados na sociedade americana e pretendem instaurar o Quarto Reich. Mas o personagem principal da história é o jovem Jonah Heidelbaum (Logan Lerman), um órfão criado pela avó Ruth (Jeannie Berlin) em uma casa simples em Nova York. Ela é morta num assalto suspeito e Jonah, agora sozinho no mundo, resolve investigar o caso.

Offerman conhecia Ruth e oferece ajuda. Assim o rapaz acaba se juntando ao grupo de caçadores de nazistas. Paralelamente, a agente do FBI Millie Morris (Jerrika Hinton) investiga a morte de uma cientista da Nasa, envenenada com gás em seu próprio chuveiro. Lena Olin é a Coronel, uma das líderes dos nazistas em território americano.

David Weil inspirou-se em algo bem pessoal para criar Hunters. Sua avó, sobrevivente do Holocausto, costumava contar a ele lembranças da guerra.

“Para um menino de 5, 6 anos de idade, aquelas histórias soavam como que saídas de quadrinhos, eram coisa de super-heróis, de bem contra o mal”, contou Weil. “Conforme eu cresci, comecei a ter dificuldades em lidar com o sentimento de direito de nascença. Qual era minha responsabilidade em dar continuidade à história dela? Tantos sobreviventes não estão mais conosco. Então a série é uma carta de amor para minha avó.”

Mas também é uma carta de amor pop, digamos assim. “Era uma busca por usar a capa do vigilante frente ao crescente antissemitismo, racismo e xenofobia no mundo. Um desejo de mostrar crimes secretos e verdades secretas. E a realização de um sonho de um menino judeu crescendo em Long Island que queria ver super-heróis que se parecessem com ele, que combatessem o mal que foi feito contra o povo judeu, que devolvesse o poder aos judeus.”

Conseguir Al Pacino para o papel de Offerman foi outro sonho realizado. Foram preciso quatro ou cinco reuniões antes que ele oficialmente topasse. Durante oito meses, os produtores e elenco viram dedicação total do veterano astro, que manteve o sotaque mesmo quando não estava sendo filmado e perguntou muito sobre detalhes, desde como Offerman se movia até o que gostava de comer.

Para Logan Lerman, contracenar com seu ator favorito foi surreal. “Antes mesmo de saber que ele ia fazer a série, eu estava revendo seus filmes, como Os Viciados e Um Dia de Cão”, contou Lerman.

Como não houve tempo para ensaios, Pacino propôs encontros nos fins de semana. “Havia uma certa eletricidade no ar que era diferente dos outros grupos de atores com quem trabalhei antes”, disse Lerman.
O veterano astro respondeu, em tom de brincadeira: “Então talvez eu não precise desses cachecóis”, referindo-se a seu acessório obrigatório. O ator disse que resolveu aceitar o projeto por causa de sua originalidade e excentricidade.

“Há muitos elementos que pegam você de surpresa, que são inacreditáveis. E você fica atento porque nunca sabe quando a piada vai aparecer, porque muitas vezes tem uma piada”, disse Pacino.

Weil, que é showrunner junto com Nikki Toscano, pesquisou um bocado para escrever a série. É verdade, por exemplo, que centenas de nazistas foram para os Estados Unidos – e na série eles querem trazer uma certa mercadoria vinda da América do Sul, que também abrigou diversos seguidores de Adolf Hitler. Também houve de verdade caçadores de nazistas como Simon Wiesenthal. Só que eles agiam dentro da lei.

Em Hunters, os caçadores usam métodos ilegais, em cenas de tom tarantinesco. “Essa é a parte ficcional, inventada, disse Weil.

Na série, Offerman diz a Jonah que o Talmud está errado. “Viver bem não é a melhor vingança. Sabe qual é a melhor vingança? Vingança.” Mas, em meio a cenas de morte espetaculares, de ar pulp, e recriações sóbrias no campo de concentração – curiosamente de coisas fictícias, como um jogo de xadrez humano -, há uma tentativa de discussão se a vingança é a melhor saída.

Weil, porém, não quis tornar os nazistas caricaturas. “Acho importante, para que isso nunca se repita, identificarmos que eles eram seres humanos”, disse.

Mesmo tendo escrito Hunters antes da marcha de nacionalistas brancos em Charlottesville em 2017, Weil vê particular ressonância da série no mundo de hoje.

“É uma alegoria e há paralelos com os anos 1930 na Europa, 1970 nos Estados Unidos e o que está acontecendo agora”, disse. “Estamos vivendo uma epidemia de antissemitismo, racismo, xenofobia. Então a série é um questionamento: O que você faz? Se você caça monstros, corre o risco de se tornar um monstro também? Acho que é uma coisa que todos deveríamos nos perguntar.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Mariane Morisawa, especial para o Estado
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