'AmarElo – É Tudo Pra Ontem' vai além de um simples registro documental

De Redação Estadão | 9 de dezembro de 2020 | 07:30

Quando Emicida lançou o disco AmarElo, há pouco mais de um ano, ele não poderia imaginar no que o mundo viraria em 2020: mas o afeto oferecido por um dos melhores projetos da música brasileira no ano passado cai como uma luva no ano em que artistas não puderam fazer shows e juntar gente em frente aos palcos. Mas, ainda antes da pandemia forçar o isolamento social, Emicida subiu no palco do Teatro Municipal de São Paulo para duas sessões de lançamento do AmarElo, no dia 27 de novembro de 2019. Esse show é agora a espinha dorsal do filme AmarElo – É Tudo Pra Ontem, já disponível na Netflix e a estreia de Fred Ouro Preto na direção de um longa.

O filme conta a história da gravação do disco – com momentos marcantes, como uma homenagem a Wilson das Neves em que Emicida compõe uma canção sobre uma base que o mestre da bateria havia lhe enviado antes de morrer, o contato com Fernanda Montenegro, Zeca Pagodinho e Marcos Valle, o encontro com a nova geração da música brasileira, nomes como Jé Santiago, Pabllo Vittar e Majur. O filme também é a história do show. “O Municipal ficou pequeno”, já havia dito Emicida na época, e toda a emoção, simbólica e palpável, é registrada no documentário.

Mas AmarElo – É Tudo Pra Ontem vai além ao trazer, com ilustrações, canções e uma narração do próprio cantor e compositor, uma história do Brasil e da música brasileira, interconectando o samba, o modernismo e o movimento negro numa reflexão iluminadora não apenas sobre a formação da identidade de um artista (e de um grupo que o circunda), mas também sobre o que se entende por Brasil nos últimos 100 anos. Nesse sentido, o filme esfumaça barreiras comerciais e se torna muito mais do que um documentário musical da Netflix, muitas vezes associados demais aos seus artistas e produtores, a ponto de se tornarem chapa-branca.

“Nós, do lado de cá, orbitamos esse tema (dos movimentos sociais, negros e culturais do Brasil) de perspectivas diferentes”, conta Emicida ao Estadão. “Tem quem observa toda a história com sensibilidade maior para a participação feminina, outros irmãos gostam de procurar a pluralidade dos posicionamentos políticos. Temos um grupo de estudos para entender o Brasil.

Particularmente, eu e o Evandro (Fióti, irmão e sócio) organizamos um tripé: uma arte que se pretende moderna, a intersecção entre arte e política que não é uma característica contemporânea e que nasce de movimentações pretas, de pessoas que se propõem a pensar o País e sugerir caminhos; e o samba, o centro gravitacional de tudo que consideramos positivo no Brasil. Tudo que a gente acha que deu certo tem uma influência do samba.”

Ele conta que, para fazer justiça a toda pesquisa dedicada ao projeto (que tem Toni C como roteirista e Felipe Choco como pesquisador), seria necessário uma série de TV. E não faltaria material também: boa parte das imagens do filme reúne gravações e fotos de um Emicida muito jovem, começando a trabalhar, vendendo mixtapes a R$ 2 pelo centro de São Paulo. Aqui, entra Bruno Pompeo, seu amigo dessa época, que captou diversas dessas imagens, incluindo uma cena muito marcante encaixada no final do filme, e contar mais é spoiler.

“A imagem no final foi captada por um amigo nosso, o Bruno Pompeo, o cara que comprou a primeira copiadora da Laboratório Fantasma (a gravadora e empresa de Emicida e Fióti)”, lembra Emicida. “Ele passou no cartão dele, me levou até Santo André para buscar. O único projeto que ele não acompanhou conosco foi o AmarElo, porque ele estava com outras responsabilidades. Há uns dois meses, me lembrei dessa imagem, e liguei para ele. Ele separou as fitas e mandou.”

Pompeo morreu após uma parada cardíaca fulminante há cerca de 20 dias, aos 42 anos. “Foi especial finalizar o filme com uma imagem dele. É um ciclo que se encerra.” Emicida conta ainda, como uma boa lembrança, que ele trabalhava com o amigo em um projeto de punk rock, que deve se materializar em algum ponto no futuro.

O filme ainda traz uma parceria inédita entre Emicida e Gilberto Gil, que declama um texto de Ailton Krenak na música É Tudo pra Ontem. “O Gil é uma entidade”, reverencia. A música será lançada nos próximos dias.

Desde 2009 parceiro de Emicida em clipes e outras produções, o diretor Fred Ouro Preto lança agora seu primeiro longa-metragem na direção. Ele conta que o filme começou a ser pensado em junho de 2019, mas ainda sem um embrião principal, e ao longo dos meses eles foram costurando as linhas do projeto. Quando Emicida acertou o show no Municipal, Fred e sua equipe foram chamados para registrar o evento, e a semana anterior de preparação e ensaios. Ali, ele gravou uma entrevista com o cantor, e foi essa entrevista que estruturou o roteiro do filme.

“Depois do show, o Emicida e o Toni passaram meses no roteiro, mas sabemos que documentário, uma vez que começa a montar, muda tudo, muda ordens, coisas aumentam e vão surgindo”, diz Fred. Outro recurso utilizado pelo filme é o de animações (por Felipe Macedo) e ilustrações (Alexandre de Maio), que ajudam a reconstituir eventos históricos.

A pós-produção ocorreu praticamente toda de maneira remota, e o diretor chegou a enviar para Emicida uma câmera MiniDV, para ele filmar sua rotina de maneira amadora, durante a pandemia.

Mas e depois de álbum, documentário, séries de podcasts, vídeos no YouTube, conteúdo escrito, o AmarElo está dado por encerrado? “Ainda tem coisa”, garante Emicida. “Este ano, foi o que menos escrevi música na vida, mas viajando aqui, estou pensando em escrever um livro. Me aguarde que voltarei.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Guilherme Sobota
Estadao Conteudo
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