'Ao longo desse ano, sonhei muito com o Boechat', conta Eduardo Barão

De Redação Estadão | 11 de fevereiro de 2020 | 12:46

O dia 11 de fevereiro de 2019 ficou marcado no jornalismo brasileiro pela perda de um de seus representantes mais queridos pelo público: Ricardo Boechat. O apresentador estava em um helicóptero que caiu em cima de um caminhão, próximo ao acesso à Rodovia Anhanguera, na chegada a São Paulo. O piloto Ronaldo Quattrucci também morreu no acidente.

A reportagem conversou com Eduardo Barão, amigo e colega do jornalista e um dos autores do livro “Eu Sou Ricardo Boechat”, também escrito por Pablo Fernandez.

“Ao longo desse período de um ano, eu sonho muito com ele, muito mesmo. E quase sempre, nos sonhos, ele aparece vivo. Como se tivesse sido uma pegadinha. A grande notícia que eu queria que ele tivesse dado é que não aconteceu o que aconteceu”, conta.

“Em vários momentos eu queria saber o que ele pensaria sobre aquele assunto. Porque nem sempre ele ia como todo mundo ia. Às vezes ele via coisas onde ninguém via”, reflete Barão, um ano após a morte do amigo.

Mesmo com a seriedade com a qual estava acostumado a apresentar o Jornal da Band, na TV, e a ser âncora da rádio Band News, no rádio, Boechat também é lembrado pelo bom humor de diversos momentos que foram ao ar.

Após um reportagem falando sobre calvície, por exemplo, reapareceu na tela com a careca encoberta por uma chamativa peruca, e prosseguiu o encerramento do telejornal normalmente.

Em outra ocasião, durante a repercussão da notícia de que Mia Farrow deu indícios que Frank Sinatra poderia ser pai de um de seus filhos, e, procurado, o rapaz informou que “qualquer um de olho azul nos Estados Unidos poderia ser filho de Frank Sinatra”, Boechat ligou no ar para sua mãe, dona Mercedes.

“Mãe, me diz uma coisa: eu posso ser filho do Frank Sinatra?”, questionou Boechat, aproveitando o fato de também ter olhos azuis. “Quem? Aquele mafioso?!”, respondeu a argentina, sem saber que os ouvintes também a escutavam. Desde então, sempre que ela precisava falar de assuntos mais reservados, perguntava ao filho se ele “estava gravando”.

Filho de um diplomata, Boechat nasceu em Buenos Aires, na Argentina, em 13 de julho de 1952, mas logo veio ao Brasil. Iniciou sua trajetória no extinto Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, e ao longo da carreira, trabalhou em jornais como o “Estado de S. Paulo”, “O Globo”, “O Dia” e a revista “Istoé” – chegou até mesmo a trabalhar com o colunista social Ibrahim Sued na década de 1970.

Seu rosto ficou conhecido nacionalmente na década de 1990, quando tinha uma coluna no “Bom Dia Brasil”, telejornal da TV Globo.

Em junho de 2001, porém, foi demitido após a revista Veja divulgar uma conversa entre Boechat e Paulo Marinho, assessor de Nelson Tanure, aliado da TIW, que à época brigava pelo controle de duas empresas de telefonia celula

Anos depois, em 2004, foi contratado pelo Grupo Bandeirantes, onde começou como comentarista nos telejornais da emissora. Em fevereiro de 2006, com a saída de Carlos Nascimento para o SBT, Ricardo Boechat foi escolhido para substituí-lo no “Jornal da Band”, ao lado de Joelmir Beting e Mariana Ferrão, posto que ocupou até o fim da vida.

O jornalista ganhou três prêmios Esso, o mais importante da área. O primeiro deles foi em 1989, pela “Agência Estado”, em uma reportagem sobre corrupção na Petrobras. Os demais foram em 1992, na categoria Informação Política, e em 2001, na categoria Informação Econômica.

Morte

“Lembro perfeitamente. Confesso para você que, até hoje, é algo que me toca muito. Ainda está muito claro na minha cabeça, não gosto de falar”, conta Barão sobre o dia 11 de fevereiro de 2019.

À época, ele apresentava o telejornal da Band News entre as 12h e as 14h, e deu a notícia de uma queda de helicóptero. “Quando chega a primeira informação, você não tem a menor ideia de quem está a bordo da aeronave”, conta.

“Passam alguns segundos e alguém entra no ponto eletrônico: ‘Barão, é para você sair do ar agora’. Eu estava no meio do jornal. Na minha cabeça veio algo com meus filhos. Sei lá, meu filho caiu e quebrou a mão, bateu a cabeça, alguém da escola ligou, algo assim”, relembra.

O jornalista recebeu, então, a notícia da morte de Boechat, na porta do estúdio. Pouco depois, mesmo com o choro, foi à rádio Band News onde participou da transmissão que anunciou a morte do apresentador na emissora em que trabalhava, ao lado de Sheila Magalhães, diretora, que deu a notícia, e Carla Bigato.

André Carlos Zorzi
Estadao Conteudo
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