Aquele tango em Paris que não acaba nunca

De Redação Estadão | 28 de dezembro de 2019 | 07:00

Já se passaram quase 50 anos desde que Marlon Brando e Maria Schneider dançaram aquele tango em Paris, em 1972, e até hoje há controvérsia sobre o que de verdade se passou no set do filme de Bernardo Bertolucci. Ele já era considerado um grande diretor e colhera grande sucesso, de público e crítica, com O Conformista, que adaptou do romance de Alberto Moravia e já tinha um primeiro tango – dançado por duas mulheres, Dominique Sanda e Stefania Sandrelli.

Último Tango em Paris está de volta à TV paga e é a atração da noite deste sábado, 28, às 22h, no Telecine Cult. Marlon Brando faz o norte-americano expatriado em Paris, quase um clichê da literatura e do cinema. Mas Bertolucci e o ator criaram o anticlichê, em parte favorecidos pelo diálogo adicional escrito por Agnès Varda. Paul/Brando vive uma crise existencial, provocada pelo suicídio da mulher. Tem um monólogo dilacerante ao lado do caixão, mas é Paris e o velho predador sai à caça de uma mulher. Encontra a jovem, interpretada por Maria Schneider. Ela aceita sua proposta de uma ligação sem vínculo, sexo pelo sexo. Só que as coisas não são tão simples. Quando os sentimentos começam a aflorar (nele), ela não está preparada para isso. Tem sua vida, um amante/namorado cineasta. Paul, num rompante de possessividade, a brutaliza. A cena da manteiga ficou famosa na época. No Brasil, o filme chegou a ser proibido pela censura da ditadura, que o considerou atentatório à família e à moral.

O mundo mudara muito, ao longo dos anos 1960 e 70. Mudanças comportamentais – sexo livre, pílula. O feminismo vinha aprofundando a discussão sobre a liberdade da mulher – liberdade de ser, de desfrutar do próprio corpo, livre da agressão do machismo.

A personagem de Maria representa algo novo, e controverso, na época. Ela é capaz de aguentar a violência do sexo anal imposto por Paul, mas não quer saber de seus sentimentos. Muito se falou dessa noiva mulher e do seu significado num mundo tradicionalmente controlado pelos homens. Há 47 anos, Brando estava em baixa na carreira. Dois filmes – o de Bertolucci e O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola – o colocaram no topo, novamente. Brando ganhou o Oscar por seu papel como Don Corleone.

Nesse quadro, ninguém ligou muito quando Maria começou a dizer que havia sofrido de verdade abuso sexual na famosa cena. Em nome da arte? Foram anos de protesto, de sofrimento. Ela morreu amargurada e ressentida. O #MeToo retomou seu discurso. Ampliou-o, deu-lhe credibilidade. Abuso, nunca mais. É sempre perturbador rever o filme. É grande, suntuosamente filmado e musicado (trilha de Gato Barbieri). Brando é magistral. E Maria – a beleza e arrogância da juventude não a tornam menos vulnerável. Mais que um filme, Último Tango é um ‘case’. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten
Estadao Conteudo
Copyright © 2019 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.