Assédio na mira de livros infantis

De Redação Estadão | 7 de janeiro de 2020 | 07:10

Olívia é adolescente e vai sozinha de ônibus para a escola. Um dia, no caminho que faz a pé até o ponto, ela para por um instante para dar informações a um motorista. O homem abre a porta do carro, e a garota percebe que ele está sem a calça. Chocada, Olívia sai correndo. E se cala.

Leila, a baleia, adora vestir biquíni e nadar por aí com seus longos cabelos. Vira e mexe, encontra em suas andanças pelo mar seu vizinho Barão, o polvo. Ele lhe rouba um beijo, a segue, a incomoda. Sussurra frases em seu ouvido, lhe promete coisas, mexe na alça do seu top. Leila também se cala.

Olívia e baleia são, respectivamente, personagens de Minha Vida Não É Cor-de-Rosa, de Penélope Martins (Editora do Brasil), e Leila, de Tino Freitas e Thais Beltrame, livros que abordam o assédio, uma das muitas questões delicadas e difíceis de se tratar, em especial com crianças e adolescentes.

Em novembro, Minha Vida Não É Cor-de-Rosa conquistou o primeiro lugar na categoria juvenil do Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional, um dos mais prestigiados do País.

Nos dois casos, os autores acertam em cheio: conseguem tratar com leveza de um tema duro, respeitando o nível de compreensão do leitor para o qual se dirige. E vão além. Não tratam apenas de assédio – falam também de amizade e confiança. E podem abrir as portas para conversas em casa e onde mais se fizer necessário.

Em Minha Vida Não É Cor-de-Rosa, Penélope se debruça sobre questões comuns da adolescência – o primeiro beijo, o primeiro namorado, a briga com a melhor amiga -, sem perder de vista o contexto das redes sociais, e chega a temas mais espinhosos, como o assédio a meninas e meninos. O livro é indicado pela editora para leitores a partir dos 14 anos.

Na história, a personagem principal – cujo nome só é revelado no fim da história, porque pode ser Olívia, mas pode ser o de qualquer menina – mora com os pais, com quem tem uma boa relação. É independente, responsável e gosta de ouvir músicas “antigas”, como Caetano Veloso e Rita Lee. Mas, mesmo com toda abertura que tem em casa e com as amigas, não consegue contar para ninguém quando é vítima de assédio no meio da rua.

“É um livro absolutamente ficcional, mas, de um modo geral, é muito próximo da minha adolescência. Vivi duas situações de assédio quando era muito novinha. Eu tinha 11 anos, morava em um bairro distante, na periferia de São Bernardo, e ia para a escola de ônibus de linha”, conta Penélope. “Eu me senti culpada, envergonhada e, para a época, tive uma conversa ampla com meus pais. Minha família tinha uma certa liberdade para tratar de determinados assuntos, mas em outros aspectos não se afastava de uma família conservadora.”

No livro, Olívia também acaba conseguindo falar sobre o que viveu, o que alivia sua dor. E quando sofre uma segunda situação de assédio, consegue reagir e é acolhida.

Palavras e imagens. Indicado pela editora para leitores a partir de 8 anos, Leila é um livro ilustrado, desses em que imagens e texto se relacionam para contar a história. No projeto gráfico, Thais trabalha com a página dupla, tanto na horizontal quanto na vertical, como se não houvesse margem separando o lado esquerdo do direito.

Nas sucessivas abordagens do vizinho, Leila quer pedir socorro, mas não consegue. E certa hora, em que estão apenas os dois, Barão corta os cabelos que a baleia tanto amava. “Eu gosto assim, pequena”, ele diz. “Pequena, o que aconteceu aqui será nosso segredo! Não diga a ninguém!”

Leila mergulha então numa tristeza profunda e desiste de nadar. O luto e o resgate da baleia com a ajuda de amigos marinhos são narrados por meio de uma sequência de três páginas duplas verticais sem texto. Aqui, o leitor tem de girar o livro – da horizontal para a vertical – para fazer a leitura das imagens, e é esse movimento que dá profundidade ao mar, que faz o leitor sentir a queda e a tristeza profunda de Leila.

Ainda presa em uma profusão de sentimentos, a baleia encontra novamente Barão. E consegue falar tudo o que queria ter dito. É por meio da fala que Leila se liberta.

“O livro deixa clara a importância da voz. É preciso nos conhecermos, ouvirmos nossa própria voz”, diz Tino, que conta que a vontade de escrever sobre assédio surgiu após a visita a uma escola, em que teve a sensação de que uma das crianças sofria violência.

No livro, as ilustrações são como uma lente fotográfica, e Thais se aproveita de ângulos inusitados. Ora Leila nada no imenso mar, ora surge dentro do olho do Barão, pequena e frágil, ora o vizinho aparece imenso, ora vemos apenas um de seus tentáculos. É pelas imagens que descobrimos, por exemplo, o tamanho do Barão e como Leila se sente diminuída com a violência.

MINHA VIDA NÃO É COR-DE-ROSA
Autora: Penélope Martins
Editora: Editora do Brasil (136 págs.,R$ 50)

LEILA
Autores: Tino Freitas e Thais Beltrame
Editora: Abacatte (52 págs., R$ 44)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Bia Reis
Estadao Conteudo
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