Atriz britânica Tilda Swinton ganha retrospectiva no MIS

De Redação Estadão | 3 de março de 2020 | 07:05

O MIS comemora o Dia Internacional da Mulher, domingo, 8, por antecipação: dá início, nesta terça-feira, 8, à mostra em homenagem à atriz britânica Tilda Swinton, que completa 60 anos em 2020. A retrospectiva, com ingressos gratuitos, vai até o dia 8 e traz uma série de filmes para lá de interessantes nos quais a atriz participa, da estreia no perturbador Caravaggio (1986), de Derek Jarman, ao seu conhecido papel em Orlando, de Sally Potter, tirado do livro de Virginia Woolf (1882-1941).

Este último foi o filme que deu fama internacional a Tilda. No Brasil, ficou com o título Orlando, a Mulher Imortal, que já entrega o conteúdo proposto pelo gênio de Virginia Woolf. A história ganha tom fantástico com a ordem da rainha Elizabeth I para que o jovem nobre Orlando não envelheça. Não só ele acata a determinação real como se transforma em mulher mais adiante. A história vale-se do visual andrógino que ficaria associado à figura de Tilda Swinton. Foi enorme sucesso no circuito cult mundial e ajudou a popularizar a obra literária de Woolf, que não é exatamente uma escritora fácil. Mas, de qualquer forma, este é seu livro mais linear, apesar da trama fantástica.

A retrospectiva traz esses filmes mais recuados no tempo, mas também os mais recentes, como Suspiria – A Dança do Medo (2018) e Mortos Não Morrem, de Jim Jarmusch (2019). Suspiria, do italiano Luca Guadagnino, é um remake do famoso terror de Dario Argento. Inclina-se um pouco para o lado trash, mas, em todo caso, explora a famosa ‘androginia’ de Tilda, fazendo-a desempenhar o papel duplo de Dr. Klemperer e Madame Blanc.

Com Luca Guadagnino ela havia feito também Um Sonho de Amor (2009), em que interpreta Emma, emigrada russa na Itália e mãe de família madura que se envolve num escândalo ao se apaixonar pelo amigo de um dos filhos. Toda gama da interpretação artística passa pela atuação de Tilda, da paixão ao desejo, do sofrimento à culpa.

Em Os Mortos Não Morrem, comédia-terror de Jarmusch, Tilda convive com um elenco estrelado – Adam Driver, Bill Murray, Selena Gomez, Steve Buscemi e Chloë Sevigny. Faz a excêntrica agente funerária Zelda, numa crítica do diretor à sociedade de consumo, para ele povoada por mortos-vivos que arrastam os pés atrás de gadgets eletrônicos, alguma rede de Wi-Fi disponível ou guloseimas calóricas. Este filme, o mais recente de Jarmusch, é uma das grandes atrações da retrospectiva. Passa na sexta-feira, às 15h e repete no domingo às 18h.

Também com Jarmusch, Tilda atuou em Amantes Eternos (2013), uma revisão do cinema de gênero que reinventa o filme de vampiros. Tom Hiddleston e Tilda fazem Adão e Eva, os vampiros primordiais que se reencontram depois de longa separação. Cronista dos outsiders da América (e do mundo), Jarmusch põe seus vampiros a dissertar sobre o vazio da vida contemporânea. O casal se revê numa Tânger banhada por aura romântica e sabe que o tempo passado pode ser recuperado (pela memória), mas não revivido. Ainda mais quando uma terceira pessoa se interpõe entre os dois. É um filme diferente, estimulante, que expressa o desalento de Jarmusch diante da modernidade e até certo decadentismo (não confundir com decadência). Merece revisão.

Aproveitando o gancho da vitória de Parasita no Oscar, a mostra programa um título anterior do cineasta coreano Bong Joon-ho, com Tilda no elenco: Expresso do Amanhã (2013). Tilda é Mason, tripulante desse trem que corre loucamente através do planeta depois que ele se tornou inabitável pelas mudanças climáticas.

Tilda, além do seu reconhecimento no universo cult do cinema, recebeu premiações especiais. Ganhou a Copa Volpi de melhor atriz no Festival de Veneza por sua interpretação de Isabella, em Edward II (1991), adaptação de Derek Jarman da peça clássica de Christopher Marlowe (1564-1593)). Com Jarman fez também o relativamente pouco visto Crepúsculo do Caos (1987), meditação sobre o declínio da Grã-Bretanha, que, na visão do diretor, perde sua alma durante o governo de Margareth Thatcher e suas reformas neoliberais. Um filme não narrativo, que aposta na linguagem poética. War Requiem (1989) é outro filme de Jarman com Tilda no elenco, uma radical reflexão sobre a tragédia da guerra, sem diálogos falados. Tilda faz o papel de uma enfermeira.

Em 2008 Tilda Swinton ganhou o Oscar de atriz coadjuvante em Conduta de Risco, de Tony Gilroy, com sua personagem Karen Crowder. O filme é uma variante do eterno tema norte-americano sobre a segunda chance. Clayton (George Clooney) é um advogado que assiste as maracutaias das grandes empresas, mas se sente mal com o trabalho. Tilda tem uma presença secundária porém marcante na trama.

Por seu trabalho como a mãe dilacerada de Precisamos Falar Sobre Kevin (2011) ela bem que merecia mais um Oscar em sua prateleira. Nem sequer foi indicada, uma injustiça que marcou a premiação daquele ano, 2012. Em compensação, ganhou uma fieira de outros prêmios importantes, entre os quais o Globo de Ouro e o Bafta, o “Oscar” britânico. Ela faz o papel de Eva Khatchadourian, mãe do mais do que problemático adolescente Kevin. Rara entrega de uma atriz, num papel visceral. À dor, Eva soma a angústia de não compreender o que aconteceu com seu filho. Fica a dúvida. Mesmo porque a estrutura do filme, proposta pela diretora Lynne Ramsay, é de molde a nada entregar de antemão. Para isso, faz um movimento bastante intrigante entre os tempos da narrativa, mesclando o passado e o presente de maneira bastante intensa. No presente, o que temos é uma pessoa, Eva, com a vida arruinada, sem que saibamos o porquê, em busca de reconstruí-la de alguma forma e descobrir as razões de sua desgraça. Tilda brilha.

Entre os diretores de prestígio com quem Tilda trabalhou estão os irmãos Coen. Programado pela mostra, Queime Depois de Ler (2008) é uma espécie de divertimento dos Coens depois do esforço enorme de adaptar Cormac McCarthy no oscarizado Onde os Fracos Não Têm Vez. Em Queime Depois de Ler, Tilda faz a esposa de um ex-agente da CIA demitido por alcoolismo. É uma comédia, cheia de trapalhadas ocorridas onde menos se espera, no núcleo da agência de inteligência da única superpotência mundial. No fundo, os Coens se colocam questões inquietantes, do tipo: o que aprendemos com os erros do nosso passado? Estamos prontos a repará-los? Como você pode adivinhar, as respostas a essas perguntas não são animadoras. Tilda contracena com grande elenco: John Malkovich, Brad Pitt, Frances McDormand, George Clooney. Está tão à vontade como nos papéis mais “profundos”.

Essa amostra do trabalho de Tilda Swinton revela uma atriz versátil, pródiga em nuances e muito inteligente. Não cabe em estereótipos como o da androginia e emprestou seu talento a papéis diversos, sempre dosando intensidade e introspecção. Com licenciatura em Ciências Políticas em Cambridge, tira de letra o entendimento de qualquer papel, complexo ou simples como o de um blockbuster. Vale a pena vê-la na tela grande.

SERVIÇO

MOSTRA TILDA SWINTON
MIS – MUSEU DA IMAGEM E DO SOM
AVENIDA EUROPA, 158, TEL. 2117-4777. AUDITÓRIO LABMIS E AUDITÓRIO MIS. ABRE 3ª (3). GRÁTIS. INGRESSOS DISTRIBUÍDOS 1 HORA ANTES NO MIS. ATÉ 8/3

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Zanin Oricchio
Estadao Conteudo
Copyright © 2020 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.

Deixe um comentário