Berlinale manteve vertente política

De Redação Estadão | 2 de março de 2020 | 07:29

É uma pena que, na Berlinale, ao contrário de Cannes, não haja uma segunda coletiva do júri, após a premiação, para discutir as escolhas dos jurados. É muito provável que a vitória do iraniano Mohammad Rasoulof, com There Is no Evil, deva-se a uma polarização que dividiu o júri. Ao apresentar o prêmio à melhor contribuição artística para o diretor de fotografia Jurgen Jurges, do filme russo “DAU. Natasha”, o presidente do júri, o ator Jeremy Irons, disse que era “quite extraordinary”. E Kleber Mendonça Filho, o diretor brasileiro de Aquarius e Bacurau, ao apresentar o Urso de Prata de melhor direção para o sul-coreano Hong Sang-soo, por The Woman Who Ran, acrescentou: “Grande Sangsoo”.

Grande mesmo

Para o crítico do jornal O Estado de S.Paulo, os melhores filmes da 70ª Berlinale foram o Tsai Ming-liang, de Rizi/Days, o Hong Sang-soo, a Eliza Hittman, que venceu o Grande Prêmio por Never, Rarely, Sometimes, e o iraniano. É a segunda vez, depois de Táxi, de Jafar Panahi, em 2015, que um diretor iraniano vence o Urso de Ouro sem poder receber o prêmio. Mohammad Rasoulof está confinado no Irã e não pode deixar o país. Seu produtor protestou contra o governo autoritário que limita a liberdade e considera a arte inimiga. Não foi a única manifestação no palco do Palast, no sábado à noite. A chilena Dominga Sotomayor, de Tarde Demais para Morrer Jovem, integrante do júri da nova seção Encounters, protestou contra a violência que o governo do Chile está usando contra manifestantes que só exigem respeito à sua dignidade.

Berlim sempre teve a fama de ser, sob a direção artística de Dieter Kosslick, o mais político dos festivais e havia a curiosidade de ver os novos rumos com a curadoria de Carlo Chatrian, ex-Locarno. Chatrian seguiu a vertente política. Repetidas vezes reafirmou que o cinema deve ser um espelho da realidade. Talvez tenha privilegiado autores mais radicais para compor sua competição, mas equilibrou-os com outros que sempre tiveram a simpatia de Kosslick – a inglesa Sally Potter, por exemplo. Os dois filmes mais políticos da Wettbewerb, a competição, saíram premiados. Irradiés, de Rithy Panh, venceu como melhor documentário. There Is no Evil ganhou o Urso principal, além do prêmio do júri ecumênico e o Guild Film Prize.

There Is no Evil conta quatro histórias ligadas aos temas da moralidade e da pena de morte. Numa delas, prisioneiros do Exército – soldados – discutem se devem seguir ordens e executar um prisioneiro, ou se devem seguir sua consciência e recusar-se. O que ocorre quando se tornam carrascos, literalmente, ou se recusam a matar, mesmo sob o manto da legalidade? As histórias todas, desenroladas em diferentes paisagens – cidade, montanhas, floresta -, são sóbrias e poderosas. Panh foi profundamente marcado pela experiência ditatorial do Khmer Vermelho em seu país, o Camboja. Não tem ilusões quanto ao gênero humano. “O homem é o que há de mais baixo na Terra” é uma frase do seu recitativo. Para demonstrá-lo, ele divide sua tela em três, vale-se do princípio da repetição e mostra imagens de arquivo que remetem ao uso do gás na 1ª Guerra, ao nazismo e ao Holocausto, à explosão atômica e aos efeitos da radiação em Hiroshima, na 2ª Guerra. Mas faz isso com refinamento estético, uma espécie de poema cinematográfico sobre o horror.

Também política, a norte-americana Eliza Hittman coloca o aborto no centro de Never, Rarely, Sometimes, Always, onde uma jovem deixa sua cidade no interior dos EUA para interromper a gestação em Nova York. Ao agradecer o Grande Prêmio do júri, Eliza contou que passou muito tempo entrevistando os profissionais do serviço de saúde que executam esse tipo de atendimento. Destacou o significado da saúde pública para os necessitados.

Hong Sang-soo filma conversas, como sempre, mas dessa vez os personagens bebem menos, ou não bebem, e ele com frequência usa a lente zoom para substituir o travelling. Uma cena de The Woman Who Ran é exemplar. O vizinho bate à porta. Vem pedir que a dona da casa e sua atendente não alimentem os gatos vadios que rondam o condomínio. Diz que os felinos assustam sua mulher. A atendente diz que vai continuar alimentando, e que os gatos merecem viver. Ele sobe o tom – mas é a minha mulher, e eles são bichos. Sim, são bichos mas precisam ser alimentados para viver. Parece nada – é tudo. Como no Tsai – o tempo é o grande personagem de Days, sobre a solidão de dois homens na cidade grande, e um deles é um prostituto. Com 19 filmes, entre longas e curtas, o Brasil teve apenas dois premiados. Caru Alves de Souza filma mulheres causando, jovens skatistas da periferia em Meu Nome É Bagdá, que venceu a mostra Generation 14PLus. O uruguaio Alex Piperno, com coprodução brasileira, abre uma ponte para a fantasia, mas sem perder pé da realidade em Chico Ventana También Quisiera Tener Un Submarino. Ganhou o prêmio dos leitores do Tagesspiegel. Houve muito o que apreciar na Berlinale de 2020.

Luiz Carlos Merten, enviado especial
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