'Caçadas de Pedrinho' fica mais 'suave' na adaptação de Mauricio de Sousa

De Redação Estadão | 7 de março de 2020 | 07:00

Quem leu Caçadas de Pedrinho de 1933 para cá deve se lembrar da cena em que as crianças finalmente conseguem domar a onça que tinha aparecido na mata do sítio. Ou não.

Tudo acontece e acaba mais ou menos assim. Pedrinho bate no peito com arrogância, nas palavras de Lobato, e convoca quem for corajoso a juntar-se a ele naquela caçada. O garoto leva a espingarda que ele mesmo fez. Narizinho escolhe uma faca de pão. Ao Visconde é dado um sabre. Emília acha mais eficaz levar um espeto de assar frango. Para o medroso Rabicó, Pedrinho dá arreios para ele puxar um canhãozinho caseiro. Bom, há algumas idas e vindas e, no confronto final com a tal onça tudo isso é usado com verdadeira fúria, também nas palavras do autor.

Pois o leitor que chegar ao clássico mais polêmico de Monteiro Lobato – pela questão ambiental, mas não só – agora, e escolher ler a adaptação feita por Regina Zilberman para a coleção da editora Girassol ilustrada por Mauricio de Sousa vai encontrar uma matança um pouco mais, digamos, suavizada.
Com a onça cega pela pólvora que Pedrinho joga de cima da árvore onde a turma se refugia, todos atendem a seu apelo e descem – e, juntos, dão “um jeito na fera”. Num piscar de olhos e sem violência, ela está “mortinha da silva”.

Uma das principais especialistas em literatura infantil do País, Regina Zilberman diz que a preocupação com o meio ambiente só surgiu na literatura depois da segunda metade do século 20 e que, portanto, se essa é uma questão urgente hoje, ela não era na época de Lobato.

“Mas não tem como alterar, eles vão continuar matando a onça”, resume a pesquisadora.

Ela conta que a editora optou por fazer algumas notas esclarecendo as diferenças de época – e isso está presente também na introdução de Mauricio de Sousa. Ele escreve sobre Lobato: “O leitor encontrará em suas obras, inclusive neste Caçadas de Pedrinho, passagens e citações a hábitos e costumes de um Brasil do começo do século 20. Hoje, claro, o mundo é diferente de 100 anos atrás. Naquela época, ninguém pensava (ainda) no desmatamento da Floresta Amazônica ou da Mata Atlântica, por exemplo. Por isso, para Pedrinho, caçar um rinoceronte ou uma onça era uma aventura incomparável, digna de um verdadeiro herói. Lobato nem sonhava que, no futuro, essa prática fosse ameaçar tantos animais de extinção”.

Não tem como alterar, mas – e sem correr o risco de cair no politicamente correto na opinião deles – tem como suavizar e amenizar. E essas são palavras usadas tanto por Regina, responsável pelo novo texto, quanto por Mauricio de Sousa em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. “A descrição da morte é forte, não no sentido de ser censurável, mas tem muita violência. Uma bate, a outra puxa. A meu ver não compromete o livro se aquilo for menos violento”, diz a pesquisadora. “Eu prefiro sempre a caçada suavizada”, comenta o quadrinista.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Maria Fernanda Rodrigues
Estadao Conteudo
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