Cardiologista brasileiro espera sua vez na fila da vacina em Londres

De Redação Estadão | 9 de dezembro de 2020 | 14:46

Um dia antes do anúncio de que o Reino Unido faria a vacinação em massa da população contra a covid-19 com o imunizante da farmacêutica Pfizer e da empresa de biotecnologia BioNTech, o cardiologista Ricardo Petraco, de 40 anos, recebeu um e-mail consultando se estaria interessado em ajudar no processo de vacinação “daqui a alguns dias”. Pensando que se tratava de uma formalidade, já que nenhum imunizante havia sido aprovado até então, aceitou.

Professor na Imperial College de Londres, ele, de 40 anos, pode ser um dos primeiros brasileiros a receber a vacina contra o novo coronavírus, mas ainda não sabe a data da imunização. Apenas que também vai participar do processo de vacinação dos ingleses, campanha que tem início nesta terça-feira, 8.

Segundo as autoridades britânicas, cerca de de 800 mil doses do imunizante já estarão disponíveis para a população nesta semana. Os testes apontaram uma eficácia de 95% da vacina. O cardiologista se formou em Medicina em Porto Alegre e foi para Londres em 2005. Lá, fez treinamento em cardiologia e PhD pela Imperial College.

Em entrevista ao Estadão, Petraco, que trabalha no Hammersmith Hospital – ligado à universidade -, falou sobre as diferenças entre o Reino Unido e o Brasil na condução da pandemia, os planos adiados de celebrar o aniversário na terra natal e o que acredita que será diferente no mundo pós-pandemia.

“A gente vai dar mais valor a coisas pequenas, como se reunir com amigos e jantar com a família. A economia moderna do Ocidente é baseada em supérfluos. Agora, que a gente não pode sair, sente falta de ver as pessoas, de dar um abraço. Talvez a felicidade não seja tão cara.”

Leia os principais trechos da entrevista:

Em qual momento o senhor percebeu que a situação da covid-19 tinha saído de controle?

Na verdade, a gente se deu conta muito cedo internamente. Era final de fevereiro quando a crise veio forte na Itália e alguns casos começaram a aparecer aqui. Como Londres é um hub internacional, não demoraria para surgir aqui. Alguns planos foram colocados em prática, procedimentos cardíacos eletivos foram cancelados, férias foram canceladas, o plantão era em dupla para que, se um ficasse doente, outro pudesse entrar. Não foi uma surpresa para nós, mas nenhum governo no mundo estava preparado para a crise. Não tinha equipamento de proteção, faltava tudo no começo. Em março, abril, maio, explodiu. Quando explodiu, a gente já estava esperando o caos. No Brasil, as pessoas não estavam prestando atenção. Eu conversava com colegas e falavam que parecia influenza (gripe comum). Teve questão de incredulidade, mas isso também nunca tinha acontecido antes na história moderna. É normal ter opiniões divergentes.

Como a rede de saúde se estruturou diante do alto número de casos e óbitos?

O trabalho foi de fazer com que a maioria dos leitos fossem direcionados para casos de covid. Teve o cancelamento de procedimentos eletivos, a exemplo daqueles de angiologia e colocação de stent, como eu faço. Mesmo com essa transformação, teve hospital daqui que não conseguiu se manter, com paciente com dificuldade de respirar, que deveria ter atendimento em UTI, em enfermaria. Quando teve o pico, a resposta do NHS (sistema nacional de saúde britânico) foi rápida.

Inicialmente, houve um momento de negação da gravidade da pandemia, inclusive de líderes, mas o quadro mudou no Reino Unido. O que foi crucial para essa mudança e quais poderiam ter sido as consequências caso as medidas para conter o vírus não tivessem sido adotadas?

A grande diferença no começo é que houve um desleixo, subvalorização do problema. Mas a grande diferença entre aqui e o Brasil é que teve uma reação rápida. Por causa do NHS, as informações sobre a gravidade dos casos e coleta de dados são centralizadas. O governo toma decisões políticas, mas é aconselhado por um grupo de especialistas independentes do governo. É um grupo altamente correto e idôneo. A origem do aconselhamento técnico é muito respeitada. No Brasil, não ocorreu isso. Cada pessoa que aparecia com uma opinião técnica era demitida. Teve pouca decisão baseada em conhecimento técnico. É um erro.

O Reino Unido já inicia a imunização esta semana. Como está a expectativa de quem será vacinado? E da população em geral?

Está todo mundo feliz e surpreso. Já existe um plano no hospital em que trabalho e as clínicas de vacinação vão começar a imunizar. Sou cardiologista, dei injeção intramuscular há anos e vou participar. Não existe uma data definida para cada pessoa que vai ser vacinada, mas sabemos que vamos começar a vacinar todo mundo. Vão dar prioridade para médicos e enfermeiros que trabalham em UTI. E nós também seremos vacinados, mas não tem um dia específico para isso.

Como foi ter recebido o comunicado sobre a imunização no hospital em que trabalha? É possível que esteja entre os primeiros brasileiros vacinados. Como se sente diante disso?

A reação, no começo, não foi de surpresa. Recebi o e-mail um dia antes do anúncio do governo, falando do processo de vacinação “daqui a alguns dias” e perguntando se eu queria ajudar. Mas não tinha nenhuma vacina aprovada. Achei que era um dos e-mails falando que tinha sido aprovado, mas acho que pediram para os hospitais começarem a se organizar. Na história moderna, é a vacina mais esperada. Todo mundo está entusiasmado. Quando chegar a minha vez, vou tirar foto, com certeza. Como médicos, somos testemunhas da evolução da Medicina, e, desta vez, não vamos ser só testemunhas, mas fazer parte desse tratamento como pacientes.

Quais semelhanças e diferenças tem notado entre Reino Unido e Brasil em relação à forma de conduzir a pandemia?

São diferenças centralizadas, por recomendações distintas, dos pontos de vista sociais e geográficos. Uma coisa é pedir para uma família da Inglaterra se isolar por três meses em casa. Outra coisa é pedir para pessoas que vivem em uma comunidade, com oito pessoas em casa, para se isolar. O brasileiro é um povo mais alegre, mais extrovertido. No pico da crise, o Rio estava com praias totalmente lotadas. Tem um comportamento que faz com que o Brasil não tenha saído da primeira onda. E não ajuda em nada o governo dar exemplo do contrário. O (presidente Jair) Bolsonaro sem máscara, o foco errado em relação à cloroquina (remédio cujo uso foi defendido pelo governo federal contra a covid, apesar da falta de evidências científicas), não só errado do ponto de vista científico, mas focar em algo que não funciona. O governo central contradizendo e criticando Estados. E também fizeram lockdown muito cedo no Brasil. A Inglaterra fez quando o vírus estava circulante. Se faz muito cedo, como fez em muitos lugares, passa a não ter a eficácia esperada, as pessoas ficam cansadas.

O Reino Unido também conta com um sistema público de saúde, o NHS. Quais têm sido os impactos desse sistema para a população durante a pandemia e para este início de imunização? Como ele pode inspirar outros países, como o Brasil?

Usar o Reino Unido como exemplo é difícil, porque é único, universal, o que torna mais fácil a comunicação e a recomendação pública de medidas. Um país pequeno facilita. O Brasil é continental, com diferenças sociais e áreas geográficas de isolamento. Uma vacina da Pfizer, que depende de – 80 ºC de temperatura, se torna inviável para países com áreas remotas para o Brasil. Haverá outras opções de vacina e, mesmo que a vacina em si não seja tão eficaz, vai ter resultado. Se uma proporção grande da população for vacinada, vai ajudar a estancar a sangria.

Como tem sido a divulgação sobre a doença e a vacina no Reino Unido?

É um trabalho central, que coloca o NHS no controle de tudo, mesmo na distribuição dos kits de proteção. Assim, fica mais fácil de comunicar e impor normas, como não sair sem máscara. É um país pequeno, com comunicação centralizada e isso facilita a implantação de qualquer medida, seja social ou de vacina. Também é um povo racional e educado, que, em geral, respeita muito as instituições. O que o órgão daqui que corresponde à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprova e a tendência da população é de seguir as recomendações. No Brasil, ainda tem a falta de fé nos governos.

Quais são seus planos após tomar a vacina? Está longe de sua família? Como tem sido sua comunicação com parentes e amigos que vivem no Brasil?

Eu e minha família tínhamos planos de ir para o Brasil em abril deste ano. Fiz 40 anos no final do ano passado e queria fazer uma festa grande. Na verdade, tivemos sorte no verão daqui, quando abriu o lockdown, e fomos para Portugal. Mas sei que a questão não é só estar vacinado. Todos os países precisam vacinara. Não quero levar a doença para ninguém. Minha mãe tem 81 anos e está se cuidando. Praticamente todos os dias, uso o Facetime para ela ver os netos, os meus filhos Leonardo e Max, de 10 e 5 anos.

O que o senhor acredita que a pandemia e a longa espera pela vacina devem trazer de experiências positivas para a ciência e para a humanidade?

Primeiro, a gente vai dar mais valor a coisas pequenas, como se reunir com amigos e jantar com a família. A economia moderna do Ocidente é baseada em supérfluos. Agora, que a gente não pode sair, sente falta de ver as pessoas, de dar um abraço. Talvez, a felicidade não seja tão cara . Outro ponto é que o povo, em geral, acabou lendo e se instruindo sobre ciência: o que é pandemia, distribuição de mortes, aprendeu a analisar criticamente dados e a não seguir as fake news e falsos especialistas. A pandemia está sendo uma faculdade forçada para aprender a ler informação. Por último, vai existir uma grande mudança no comportamento em relação à higiene. As pessoas tinham o hábito de sair e ir trabalhar gripado, com coriza. Agora, vai ter de usar mais máscara. Se trabalhar em escritório e estiver gripado, trabalha de máscara ou trabalha em casa. A gente tem de se dar conta de que o comportamento humano de dar a mão é uma maneira de transmitir doença. A gente não pode fazer com que o mundo fique mais frio, mas precisa aprender a respeitar mais o poder da gripe, da tosse e do catarro. O distanciamento social é uma forma de impedir a transmissão.

Paula Felix
Estadao Conteudo
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