Carnaval, cenário fiscal e balanços empurram Ibovespa para baixo

De Redação Estadão | 12 de fevereiro de 2021 | 11:18

A pausa nos mercados internos e externos nos próximos dias por causa da folga de carnaval deixa os investidores mais recuados, o que pode tende a impedir o Ibovespa de eliminar a perda semanal que até o momento é de 1,59%. Resultados corporativos como os do Banco do Brasil e da Lojas Renner no quarto trimestre de 2020 também podem favorecer uma postura mais defensiva do mercado local, com exceção dos dados robustos da Usiminas. Esse conjunto de fatores empurra o Ibovespa para baixo, que ainda se soma à cautela fiscal interna e com o impasse em relação ao pacote fiscal nos Estados Unidos.

Para o estrategista-chefe da Davos Investimentos, Mauro Morelli, o desempenho negativo externo e o já registrado no Ibovespa futuro esta manhã reflete uma mistura de precaução por causa do feriado aqui, que vai até o fim da manhã de quarta-feira no Brasil, e também no exterior. “Na verdade, esse período já começou. Os mercados do sudoeste asiático e da China já estão fechados, o que diminui a liquidez mundial. Além disso, tem a memória do que aconteceu logo depois do carnaval de 2020, quando houve relatos de circulação do coronavírus no País”, avalia.

Às 11h, o Ibovespa cedia 0,79%, aos 118.362,60 pontos. Ontem, o índice à vista fechou em alta de 0,73%, aos 119.299,83 pontos.

“Lá fora, as bolsas tiveram ganhos fortes então devolvem um pouco e tem a cautela com os feriados. Não tem notícia nova. Aqui, tem a discussão dos problemas internos, que gera alguns ruídos. Além do mais, está chegando ao fim a janela de IPOs e de follow-on novas ofertas são denominadas subsequentes. O mercado parece estar digerindo o noticiário das ultimas semanas”, avalia Naio Ino, Responsável pela mesa de trading de equities da Western Asset, lembrando que por conta dos feriados a liquidez pode ser baixa.

Apesar de admitir a relevância da recriação do auxílio emergencial por questões sanitárias e humanitárias, Morelli observa que não se pode ficar alongando os problemas ligados ao fiscal. “Claro que a ajuda é importante, mas temos um questão fiscal preocupante, é o calcanhar de Aquiles do País. Precisa de equacionamento”, afirma.

Mesmo que o governo brasileiro venha reforçando o compromisso de honrar a responsabilidade das contas públicas, parece dado que haverá a recriação do auxílio emergencial, o que custará R$ 30 bilhões aos cofres públicos. Nesta manhã, o vice-presidente Hamilton Mourão reforçou o coro em defesa do benefício. “Ou faz empréstimo extraordinário orçamento de guerra ou corta orçamento”, sugeriu.

A ideia é que o auxílio emergencial seja destinado a 19 milhões de famílias que recebem o Bolsa Família e mais 11 milhões de informais e as contrapartidas fiscais devem vir de duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC). Devem ser concedidas quatro parcelas de R$ 250.

Ainda que não haja negociações com minério de ferro no mercado internacional, por causa do feriado do Ano Novo Lunar na China, o lucro líquido da Usiminas pode ser fonte de impulso das ações e de outras ligadas a commodities metálicas na B3.

O lucro da empresa subiu 6,13% no quarto trimestre ante igual período de 2019, a R$ 1,913 bilhão, e cresceu 8,66% em relação ao terceiro trimestre. No ano, o lucro líquido da companhia atingiu R$ 1,292 bilhão, o que representa avanço de 243% ante 2019. A dívida líquida consolidada da empresa em 31 de dezembro chegou a R$ 1,1 bilhão, inferior em 56,3% ante 30 de setembro, quando estava em R$ 2,5 bilhões. Os papéis da Usiminas subiam 2,48%, abrindo espaço para valorização de outras empresas do setor (CSN: 2,09%). Já Vale ON cedia 0,39%. Petrobras, por sua vez, tinha queda de 1,10%, enquanto o petróleo no exterior tinha sinais mistos: caía 0,05% (EUA) e subia 0,21% (Londres).

Já o lucro do Banco do Brasil cresceu 6,1%, a R$ 3,6 bilhões, na comparação com o terceiro trimestre do ano passado, porém foi insuficiente para evitar o recuo no acumulado no ano todo, de 22,2%, para R$ 13,8 bilhões, prejudicado pelos estragos causados pela pandemia de covid-19. Ações cediam 1,15%, puxando os papéis do setor financeiro da B3 para baixo.

Em teleconferência na manhã desta sexta, o presidente do BB, André Brandão, afirmou que a reorganização institucional, anunciada em sua gestão, não envolve somente o fechamento de agências, mas toda a infraestrutura física e reforçou que nenhum município brasileiro ficará desassistido. Ele disse que todo processo de parcerias e desinvestimentos continua no radar do banco.

No campo do consumo, o lucro da Lojas Renner atingiu R$ 354 milhões no quarto trimestre 2020, queda de 31% em relação ao registrado no mesmo período de 2019. O Ebitda Total Ajustado, por sua vez, totalizou R$ 616,7 milhões, 28,1% menor do que o de um ano atrás. Os papéis caíam 0,36%.

Ainda que tenha reforçado a fraqueza da atividade, o Índice de Atividade (IBC-Br) do Banco Central (BC), de certa forma, dentro do esperado, pode amenizar eventuais perdas do setor varejista e do próprio Ibovespa. Porém, segundo Morelli, pode ser insuficiente para apagar a ideia de retomada da alta da taxa Selic em breve. “Talvez não ocorra em março, mas pode acontecer em maio, pois temos uma inflação elevada”, avalia.

O investidor ainda avalia a informação de que o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central (BC) adiaram para 7 de junho a entrada em vigor da regulação sobre registro de recebíveis. A medida foi tomada porque uma das três credenciadoras no País declarou ainda não estar pronta para operar no prazo original.

Para o estrategista-chefe do Grupo Laatus, Jefferson Laatus, a notícia não deve ter influência nos mercados. “Dia hoje é dia de buscar proteção para o feriado”, reforça.

Maria Regina Silva
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