Cientista nega ter indicado vermífugo para qualquer caso

De Redação Estadão | 5 de novembro de 2020 | 07:00

Principal autora do estudo sobre o uso do vermífugo nitazoxanida contra a covid-19, a médica Patrícia Rocco afirma que não houve intenção de politizar o tema e ressalta que a divulgação dos resultados, feita em cerimônia no Palácio do Planalto no último dia 19, não quis incentivar o uso indiscriminado do remédio, mas, sim, compartilhar dados úteis para futuras pesquisas. “Jamais sugeri o uso da nitazoxanida em qualquer paciente ou em qualquer fase da covid-19. Entretanto, é importante fomentar a discussão na comunidade científica nacional e internacional”, afirmou, em entrevista por e-mail ao Estadão.

O estudo, financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), foi alvo de críticas de outros cientistas. Nas redes sociais, muitos médicos e cientistas se dividiram quanto à participação de Patrícia no estudo e na cerimônia do governo federal por conta do seu histórico respeitado na comunidade científica.

Pesquisadora renomada na área de doenças respiratórias, ela é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Laboratório de Investigação Pulmonar do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) da instituição. É uma das cinco mulheres a ocupar uma das cem cadeiras da Academia Nacional de Medicina (ANM) e membro titular também da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Ao Estadão, Patrícia afirma que o desenho do estudo não sofreu interferência do governo e que os resultados de redução de carga viral e melhora dos sintomas depois de sete dias são importantes.

Em nota, o Ministério da Ciência disse que a nitazoxanida se mostrou “promissora” e que a função da pasta é “produzir conhecimento científico”, mas ressaltou que cabe ao Ministério da Saúde e aos médicos definirem se o medicamento deve ser prescrito ou não.

A senhora acha que a nitazoxanida tem um potencial benefício clínico no tratamento da covid?

Há vários artigos que já demonstraram que a redução da carga viral está associada à diminuição da transmissibilidade do vírus assim como o agravamento da doença. O conhecimento científico é uma construção e cada publicação tem a sua contribuição específica. É importante salientar que, se fôssemos testar uma nova molécula (remédio não existente no mercado), exclusiva para tratar a covid-19, levaríamos anos (mínimo de cinco anos) de pesquisa. Devido à pandemia e ao conhecimento de alta tecnologia, pudemos trabalhar de forma estratégica com a análise de reposicionamento de fármacos, reduzindo assim vários anos de pesquisa. No estudo que coordenamos com o antiviral nitazoxanida, observamos que, após cinco dias de tratamento, houve redução da carga viral, sendo que 30% dos pacientes deste grupo apresentaram teste negativo para SARS-CoV-2. Após sete dias do término do tratamento, 78% dos pacientes tornaram-se assintomáticos.
Ademais, o antiviral nitazoxanida mostrou ser seguro e de baixo custo. A nitazoxanida tem potencial benefício clínico no tratamento da covid-19, entretanto, caberá ao médico definir a conduta de cada paciente.

O resultado após sete dias é robusto, mesmo considerando limitações como o número pequeno de sintomas monitorados (febre, tosse seca e fadiga), o fato de apenas pacientes que não tinham sintomas no quinto dia seguirem contatados e a ausência de monitoramento por período prolongado de toda a amostra?

Como relatado no artigo, os dados mostram que houve aumento do número de pacientes assintomáticos quando comparados aos não tratados (placebo) após sete dias do final do tratamento. Isso é uma realidade e precisa ser informada, como relatado no próprio artigo. Todas as limitações foram descritas no artigo.

A nitazoxanida deveria já ser indicada para tratar a covid?

A covid-19 é uma doença com comprometimento orgânico múltiplo e uma patogênese extremamente complexa. O estudo foi realizado na fase precoce da doença, quando os pacientes apresentavam sintomas durante um a três dias. Os dados científicos obtidos com o estudo restringem-se à análise do uso da medicação na fase precoce da covid. Diversos medicamentos vêm sendo utilizados de forma empírica, o que não é salutar.

O artigo já foi submetido para publicação em periódico científico? Há previsão de data?

Sim, o artigo já foi submetido para a publicação em periódico científico internacional. Não temos como precisar a data da publicação. O nome do periódico segue em sigilo.

O ministro Marcos Pontes chegou a afirmar que “podemos dizer que temos um remédio para o tratamento inicial da covid-19” e que isso “ajuda a mudar o cenário da pandemia” no País. A senhora concorda?

Esse foi o primeiro estudo multicêntrico, randomizado, duplo cego, placebo controlado, em 1.575 voluntários, realizado em um tempo recorde. O governo não interferiu no desenho do estudo e não quis politizar esse tema. Jamais sugeri o uso da nitazoxanida em qualquer paciente ou em qualquer fase da covid-19. Entretanto, é importante fomentar a discussão na comunidade científica nacional e internacional. A ciência não pode omitir dados durante uma pandemia e todo conhecimento precisa ser revelado. O que revelamos é que a nitazoxanida mostrou redução da carga viral, aumento do número de pacientes testados negativos, melhora tardia dos sintomas, além de ser segura, de baixo custo e poder ser utilizada no domicílio, não necessitando de admissão hospitalar.

O seu grupo de pesquisa pretende continuar os estudos com a nitazoxanida?

Nosso grupo estuda também os efeitos do antiviral nitazoxanida em 500 pacientes em fase mais avançada da doença (com pneumonia) e admitidos no hospital. O recrutamento dos pacientes voluntários foi finalizado e o banco de dados com os resultados está sendo analisado pelo estatístico.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fabiana Cambricoli
Estadao Conteudo
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