Cineastas falam sobre fama de obra-prima que ainda marca 'Apocalipse Now'

De Redação Estadão | 24 de dezembro de 2019 | 07:30

O presente de Natal para os cinéfilos paulistanos em 1979 chegou no dia 24 de dezembro, há exatos 40 anos, quando estreou na cidade “Apocalipse Now”, o mais ousado e conturbado filme dirigido por Francis Ford Coppola. Com uma produção atribulada (um tufão destruiu todos os cenários, nas Filipinas, e um dos protagonistas, Martin Sheen, sofreu um ataque cardíaco), o longa consumiu US$ 30 milhões (uma fortuna, à época) e precisou de três anos para ser concluído. Coppola aplicou toda sua fortuna pessoal (US$ 18 milhões), sofreu problemas de saúde e fez diversas montagens do material bruto.

A recompensa, no entanto, veio naquele mesmo ano de 1979, quando o filme conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, empatado com “O Tambor”, do alemão Volker Schlondorff. E, com o tempo, “Apocalipse Now” ganhou a envergadura de uma obra-prima. Baseado em “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, o longa conta a viagem, em 1969, do capitão Willard pelo Vietnã em busca do coronel Kurtz, que enlouqueceu e agora comanda a própria tropa. Ponto de partida para Coppola expor a degradação moral que levou os EUA à derrota na Guerra do Vietnã.

“A trama aqui é apenas um pretexto para entrarmos no mundo da loucura que é uma guerra, ou que é a nossa própria cabeça”, atesta o cineasta Fernando Meirelles, comentando sobre o filme a convite do jornal O Estado de S. Paulo. “É um road-movie, ou um boat-movie, no qual o protagonista, Willard (Sheen) navega ou, às vezes, se deixa levar pela correnteza, em busca do Coronel Kurtz (Marlon Brando), para matá-lo. No percurso, Willard vai se deparando com inúmeros aspectos do que somos e vai entendendo que não somos uma coisa, mas inúmeras ao mesmo tempo, que somos um caminhão de conflitos e contradições a serem administrados.”

De fato, Kurtz é um personagem complexo, enigmático até, que ganha mais importância na interpretação de Brando. Sua primeira aparição logo se tornou clássica: ele surge deitado numa cama na penumbra, depois se senta, seu rosto misterioso quase que totalmente na escuridão, de quando em quando iluminado por um facho de luz. Na verdade, o ator engordara acima do esperado, deixando Coppola e a equipe técnica com um grande problema a resolver, corrigindo trabalhos de câmera e luz. Mas sua figura rotunda e misteriosa domina o filme.

“Ao chegar ao seu destino, Willard já não sabe mais se o Coronel Kurtz é um maluco ou alguém que simplesmente compreendeu tudo. ‘Assisti a uma lesma rastejar pela lâmina de uma navalha e sobreviver. Esse é meu sonho. Rastejar pela lâmina de uma navalha e sobreviver’, diz Kurtz. O próprio Willard já não sabe de que lado da sanidade está. ‘O horror… O horror…'”, continua Meirelles, citando as palavras ditas por Kurtz, personagem cuja lucidez e loucura apagam a linha tênue entre civilizado e selvagem. Palavras que também encerram o romance de Conrad e resumem a história colonial da África.

“O roteirista John Milius acertou ao partir de um libelo anticolonialista de 1902, a novela de Conrad, para propor seu comentário psicodélico sobre a Guerra do Vietnã, talvez a mais dolorosa ferida da consciência norte-americana contemporânea”, observa o escritor e roteirista Marçal Aquino. “Ofereceu matéria-prima para Coppola fazer o que fazem os gênios quando propiciam aos seus semelhantes a elevação de uma experiência estética, filosófica e existencial.”

Na época da estreia, Coppola sabia que não rodara mais um filme de guerra. “Eu poderia ter feito Os Canhões de Navarone, ou algo assim”, disse, em 1979. “Mas, conforme você vai viajando pelo rio, a história se torna menos importante: eu não queria um final tradicional. Por isso, tentei chegar mais perto de um mito. Pensei: o que eu tenho? Tenho um assassino que veio matar um rei. E o povo sabe que o rei deve ser morto. Eles precisam de um novo rei para que o arroz possa crescer e todos vivam em paz. A cena final, apenas um diálogo, resume tudo isso: o horror da guerra.”

Ao longo dos anos, crítica e público ajudaram a cristalizar a fama de obra-prima do filme, capaz de transmitir todo o caos (não apenas material, mas moral) de uma guerra – especialmente ao mostrar o que acontece quando uma nação se contamina pelo horror que ela própria pratica. O hino fúnebre de uma América que perde sua alma e razão nas selvas vietnamitas.

E Coppola conseguiu tal feito sem a fácil estetização da violência. Ainda que terrível e assustadora, a violência se traduz na tela em luz e som no campo de batalha, mas esses efeitos não convidam a um deleite estético. Pelo contrário, fazem o espectador sentir um arrepio na alma. Ajudam também a construir cenas que se tornaram clássicas na história do cinema.

Em “Apocalipse Now”, além do encerramento, em que a loucura toma a forma de Marlon Brando, praticamente nenhum espectador se esquece de outra cena, logo no início do filme. “Uma se sobrepõe às demais: aquela em que o esquadrão de helicópteros ataca uma aldeia vietnamita ao som da ‘A Cavalgada das Valquírias’, de Richard Wagner”, relata a cineasta Tata Amaral, ao Estado. “Robert Duvall está no comando das operações e decide pegar onda numa praia onde uma aldeia vietcongue resiste à ocupação norte-americana. Duval manda os helicópteros levantarem voo para atacá-la.”

Tata continua a puxar o fio da memória: “A descrição parece extraída de um gibi do Asterix, mas a situação não é divertida: em pleno voo, Duvall liga o som do alto-falante no talo e o direciona para o espaço. A música toca sobre o mar e orienta o balé dos helicópteros. Na aldeia, a vida segue cotidiana: crianças na escola, pescadores na praia, agricultores carregam alimentos. A Cavalgada das Valquírias se faz ouvir ao longe e avança em direção à praia. Alguém avisa a professora do perigo eminente. Todos começam a correr: pescadores retiram fuzis de terra e antiaéreos dos esconderijos”.

“O coronel Kilgore (Duvall) vive o pleno gozo exercendo o poder sem qualquer limite. ‘Adoro o cheiro de Napalm pela manhã’, comenta, sonhador. A vida nunca será melhor para ele, seu pesar é saber que um dia aquilo terá fim. Não creio que isso seja uma loucura de Kilgore, mas apenas um aspecto que está dentro de todos nós. Humanos. Esse filme ativa molas internas a cada cena, por isso é poderoso”, completa Meirelles. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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