Claire Adam volta à sua Trinidad para contar história de um pai obstinado

De Redação Estadão | 20 de fevereiro de 2021 | 07:28

A escritora Claire Adam perdeu um tempo tentando levar adiante um romance ambientado na Itália, onde tinha morado por um período, e outro em Londres, onde vivia, até se matricular em um mestrado de escrita criativa e ser confrontada por um professor. Afinal, por que ela não escrevia sobre Trinidad?

“Eu trabalhei tão duro para emigrar, não parecia fazer sentido voltar para lá, mesmo psicologicamente, para escrever sobre isso”, conta a escritora, que viveu na ilha caribenha do nascimento aos seus 18 anos.
Mas fazia sentido, sim – tanto que foi por causa de Menino de Ouro, que acaba de chegar às livrarias brasileiras, que sua carreira de escritora começou (e com elogios e traduções).

Seu romance de estreia é situado numa região pobre de Trinidad e acompanha uma família num momento extremo. Clyde e Joy têm dois filhos, gêmeos. Peter nasceu primeiro, é mais inteligente do que qualquer membro de sua família e do que a média em seu país – e, por isso, terá um futuro promissor longe dali. Paul nasceu de um parto complicado. Houve privação de oxigênio, e, já no hospital, a família ouviu algo que assumiu como certo: o garoto poderia ter, como sequela, um “retardo mental”. E assim os dois são criados até os 13. Com carinho, claro, mas com diferença.

Peter tem tudo. E, se conseguir a maior pontuação em um concurso, terá uma bolsa para estudar em qualquer universidade do mundo. O passaporte para sair da ilha, para ter o que seu pai não teve – e Clyde guarda todo o dinheiro da família para esse momento. Por insistência da mãe, que acredita que, ao lado de Peter, Paul poderia ter alguma chance, eles frequentam as mesmas escolas. Isso, a despeito da opinião do pai, para quem o filho “um pouco esquisito”, a quem sempre ameaça com a possibilidade de ser mandado para o hospício, poderia atrasar a realização do sonho da família – ou, do sonho dele. A vida segue seu curso até que um dia, após um assalto no qual os criminosos fazem os irmãos e a mãe de reféns enquanto buscavam exatamente por esse dinheiro, Paul some.

A história vira uma espécie de thriller, embora essa não tenha sido a intenção de Claire Adam – que nem gosta do gênero. Mas ela consegue envolver o leitor enquanto vai narrando o desafio que Paul e Clyde têm pela frente: a sobrevivência, o sonho. A história, aliás, é contada a partir do ponto de vista dos dois. Um livro sobre família e paternidade. Sobre a esperança de que a nova geração supere a anterior. Um livro sobre como as coisas podem dar errado quando não ouvimos o outro. E sobre escolhas impossíveis.

Família em ruína

Um pai diante de uma escolha impossível. Um homem que decide que ele tem que dar conta de tudo sozinho, e que acredita saber o que é melhor para todos. Esse é Clyde, um dos protagonistas de Menino de Ouro, livro que retrata uma família de Trinidad que sonha com um futuro melhor, mas que antes vai ter de superar as adversidades do presente: por que Paul, um dos filhos, desapareceu?, e se sua salvação significar o fim do sonho? Sobre o romance, a autora Claire Adam respondeu às seguintes perguntas por e-mail.

Por que você quis contar essa história e como surgiu essa ideia? E era para ser uma espécie de thriller desde o início?

A ideia da história surgiu de várias coisas. Primeiro, o pai, Clyde: ele chegou bem formado, punhos erguidos, pronto para lutar contra qualquer um que estivesse contra ele. Em segundo lugar, mais de 20 anos depois de deixar Trinidad, e depois de ver tantas outras pessoas deixarem Trinidad e lugares como Trinidad, eu ainda não conseguia explicar o que nos leva a emigrar com tanta força, a dar aquele enorme salto para o desconhecido. Claro, uma situação econômica específica pode ser sombria, mas o desejo parece ir mais fundo do que isso. Eu queria entender. Terceiro, meus irmãos e eu seguimos um caminho semelhante ao de Peter: estudamos muito para ganhar bolsas de estudo e ir para o exterior. Essas bolsas são uma parte fundamental de nossas vidas em Trinidad. Mesmo a pessoa mais pobre, a pessoa em circunstâncias mais humildes, tem uma chance real de oportunidade na vida por causa dessas bolsas. Eu não planejava escrever nada parecido com um thriller, não. Na verdade, eu odeio thrillers. Eu odeio como os personagens são descartáveis em thrillers: uma pessoa morta após a outra, e devemos achar que isso é prazeroso? Mas os capítulos de Paul no final se movem rapidamente e são bastante tensos, e há uma ameaça constante de violência, mas espero que o leitor esteja convencido da seriedade desses capítulos. Não são entretenimento, são um retrato sério de um menino em uma situação perigosa.

Sua história é sobre uma família que passa por uma situação extrema e tem que escolher entre dois filhos. Você tem filhos? Você conseguiu se ver na posição de Clyde? E Clyde nem sempre é um personagem fácil de gostar. Você ainda gosta do seu personagem e o respeita pela forma como ele lida com essa situação?

Tenho filhos, mas não estava pensando em mim enquanto escrevia. Há uma certa sensação de liberdade no trabalho que o autor deve fazer, que é contar a história de outra pessoa. Não preciso me sentir culpada pelo que Clyde fez, ou defendê-lo, ou persuadi-lo a fazer algo diferente. Na verdade, tenho respeito por Clyde. Eu respeito todos eles. E sinto muito por eles também.

Parece-me que se houvesse mais diálogo entre as pessoas daquela família, a história seria diferente. Peter tenta discutir com o pai, mas ele não o escuta nem considera seus desejos e sugestões como uma opção. Ele também não está sempre aberto para o ponto de vista de Joy. A comunicação foi um problema para você aqui?

Talvez. Mas esse problema tem uma origem muito específica: Clyde se considera o homem da casa. Todas as decisões são tomadas por ele; toda a responsabilidade recai sobre ele. Não sei se é assim, culturalmente, no Brasil, mas isso era, e presumo que ainda seja, muito normal em Trinidad, como em muitos outros países. Um dos críticos do Reino Unido que escreveu sobre Menino de Ouro descreveu Clyde como “o patriarca, cujo orgulho irá queimar sua pequena família”.

De repente, Paul surge como narrador e então a história se aprofunda e ganha mais ternura. Você considerou escrever também a partir de Joy e Peter?

Na verdade, escrevi bastante do ponto de vista de Joy e Peter, mas no final achei que esses pedaços não faziam parte da história. Joy tem uma voz completamente diferente daquela com a qual Menino de Ouro é contada. Ela precisaria de um livro inteiro, todo contado na primeira pessoa, no dialeto de Trinidad, para conhecermos sua versão da história. Quanto a Peter, para mim, mesmo sendo irmão gêmeo de Paul, sempre houve um elemento de distanciamento. É como Clyde diz: é como se Peter já estivesse em outra ilha, mesmo quando é ainda uma criança vivendo com os pais. Além disso, Peter ganha a bolsa, ele sai de Trinidad, torna-se bem-sucedido – sua crise não vem enquanto ele está morando em Trinidad, ela chega mais tarde na vida. Você sabe, Peter vive seus últimos anos, seus 20, 30, 40 anos, como um gêmeo enlutado. É uma experiência muito particular, que precisa de um livro inteiro para dar a atenção que merece. O que estou dizendo é que teria adorado dar mais espaço a Joy e Peter, mas isso significaria escrever um livro diferente. No final das contas, senti que o coração deste livro em particular era sobre a luta entre Clyde e Paul.

Há violência externa no livro e medo, mas me parece que a questão central é a família. O papel que cada um desempenha na organização familiar, a busca por melhores condições do que as que nos foram dadas, a esperança de que a próxima geração supere nossas limitações financeiras e educacionais, a ideia de que os parentes devem permanecer juntos apesar da inveja, da ambição e da falta de afeto. Isso é também, e principalmente, uma reflexão e da paternidade. Clyde cuida de sua família com os recursos de que dispõe, de acordo com sua ideia rígida do que é certo e do que é errado. Quando ele é solicitado a fazer a escolha impossível, e enquanto ele lida com isso, devemos vê-lo como uma vítima do sistema? Ou como alguém que não conseguia ver que poderia haver outra saída se ele apenas pudesse ouvir os outros e se ele apenas tivesse pedido ajuda? O que você gostaria que esse pai soubesse antes de tomar sua decisão?

Agradeço por esta leitura cuidadosa e ponderada. Acho que você está certa ao dizer que o livro levanta questões sobre família, paternidade/maternidade e as esperanças e expectativas que uma geração tem para a próxima. Se Clyde é uma vítima do sistema ou se, em certa medida, causou isso a si mesmo por ser teimoso e orgulhoso? Acho que a resposta é as duas coisas. Mas ele também é obstinadamente determinado e, à sua maneira, altruísta; e Trinidad não é simplesmente um lugar terrível dominado pelo crime; é também solidário, amante da diversão e sociável, com muitas pessoas boas, gentis e generosas. Clyde não é apenas uma coisa, ele é muitas coisas. Trinidad não é uma coisa, Trinidad é muitas coisas. Não é essa terrível ambiguidade o que torna nossas vidas tão confusas? As coisas nunca são tão simples como gostaríamos que fossem.

Há uma frase que Paul repete: Lide com isso. O livro, no fim das contas, é sobre como lidamos com a vida e como vivemos com as consequências de nossas escolhas?

O que estava em minha mente quando escrevi os pensamentos de Paul nessas cenas era sua consciência de estar completamente sozinho. Ninguém estava vindo para ajudá-lo. A cavalaria não estava a caminho. Aquela frase repetida: Handle it, handle it, era como uma batida frenética em seus ouvidos, instruindo-o a recorrer a todos os seus recursos para se manter vivo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Maria Fernanda Rodrigues
Estadao Conteudo
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