Com Ângelo Gabriel, Santos revive expectativa por uma nova 'joia' na Vila

De Redação Estadão | 6 de novembro de 2020 | 06:30

Quando entrou em campo no segundo tempo da derrota do Santos para o Fluminense, no Maracanã, em 25 de outubro, o atacante Ângelo Gabriel Borges conseguiu duas façanhas importantes, uma ligada ao passado e a outra, ao futuro. O menino, então com 15 anos, 10 meses e 4 dias, se tornou o segundo jogador mais jovem a vestir a camisa do Santos em uma partida oficial do clube, superando Pelé e ficando atrás apenas de Coutinho. Ao mesmo tempo, o atacante olha para a frente ao acender as esperanças no clube sobre o surgimento de um novo grande jogador, que pode seguir os passos de Robinho, Neymar e Rodrygo.

Essa expectativa ficou clara quando o clube assinou um pré-contrato profissional com o jogador em 23 de outubro. Com o documento, o clube pretende se proteger do assédio do mercado que pode começar a ocorrer nos próximos meses. O acerto será formalizado quando ele completar 16 anos, em dezembro. A advogada Marisa Alisa explica que essa é a idade mínima para a assinatura de um vínculo profissional. “O pré-contrato é uma promessa e uma garantia do contrato principal e já estabelece as regras principais como multa e tempo de contrato”, diz a empresária do jogador.

A diretoria do Santos e os empresários não quiseram revelar detalhes, mas o Estadão apurou que são três anos de contrato com a possibilidade de renovação por mais dois anos. O acordo prevê gatilhos salariais para metas alcançadas, como a titularidade no time, artilharia e títulos conquistados. O estafe do jovem revela apenas que a multa rescisória está próxima aos valores do mercado. O atacante Rodrygo saiu por 50 milhões de euros (R$ 202 milhões na cotação da última quinta-feira) para o Real Madrid. Vinicius Junior deixou o Flamengo e também se transferiu para o time merengue por 45 milhões de euros.

SAMAMBAIA – O jogador usou as redes sociais para sua estreia, que aconteceu na semana do aniversário de 80 anos de Pelé, para celebrar a estreia no profissional. “Aos 14:06 minutos do segundo tempo, eu realizo o sonho de me tornar jogador profissional de futebol. No dia em que o Rei do Futebol foi homenageado e na semana do seu aniversário, eu, um simples garoto sonhador e humilde, que só queria brincar com a bola nas vielas e campos do simples bairro onde cresci (…). A favela venceu”, escreveu.

O Estadão perguntou para o pai do jogador, seu Elismar, a qual favela o menino se referia. O lugar se chama Samambaia, uma cidade-satélite de Brasília. O bairro foi criado em 1989 para abrigar famílias oriundas de invasões espalhadas no entorno da capital federal. Hoje, a renda familiar gira em torno de R$ 3 mil. “É como se fosse uma favela em São Paulo”, conta o pai, que é pecuarista. Ele viaja com frequência para a Bahia, onde a família mantém uma pequena propriedade rural. A mãe, dona Ideni, é dona de casa.

Com a ascensão de Ângelo, a família está no meio de uma mudança. Literalmente. Em fevereiro, pai, mãe e os três filhos se transferiram para Santos, perto do Canal 1. Dá para ir a pé até a Vila Belmiro. Antes, o craque da família morava com a avó também na cidade litorânea. “Decidi vir para Santos para ficar mais próximo do Ângelo e dar todo o suporte para ele”, diz o pai.

A casa é um sobrado, com quintal grande e churrasqueira no fundo. Parece ter sido reformada faz pouco tempo. É um lar de classe média, sem luxos. A sala de estar é decorada duas camisas de Ângelo, uma da seleção e outra do Santos. As duas com o número 11. Quando o Estadão chegou para a sessão de fotos, o adolescente estava dormindo na sala. Foi difícil acordá-lo.

SEMPRE PRECOCE – Em 22 de outubro, o atleta fez seu primeiro treino com o elenco profissional do Santos. Foi apenas mais uma etapa de uma série de feitos precoces. Ele chegou ao clube com 9 anos, em 2014, ainda em Brasília. Depois de se mudar para São Paulo, foi vice-campeão paulista sub-11 e no sub-13. Três anos depois, mesmo com 12, ele fez alguns jogos no sub-15.

Quanto chegou ao Campeonato Paulista sub-15, o canhoto driblador jogou 17 jogos, com cinco gols e seis assistências. Ele ficou fora de boa parte do campeonato, pois estava na seleção brasileira. O torneio era a Copa Santiago e novamente ele esteve entre os “grandões”. Com 15 anos, ele jogou o torneio sub-18. Foi titular, com um gol e quatro assistências. Já foram nove convocações para a seleção: oito no time sub-15 e uma vez no sub-17.

Fã de Pelé, Neymar e Robinho – exatamente nesta ordem -, a nova promessa da Vila Belmiro tem metas bem definidas para a sequência da carreira. O primeiro passo é conquistar espaço e ser titular do Santos. Depois, ele quer ser firmar, “fazer sua história”, como diz o pai. Um dos desafios da família é controlar a ansiedade. “Quando ele voltou do jogo no Maracanã, ele disse que estava feliz porque estava realizando um sonho”, conta o pai. “Depois, ele falou que um sonho vai puxando o outro”, completou.

Gonçalo Junior
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