Corregedoria da PM investiga assassinato de líder indígena no Pará

De Redação Estadão | 13 de fevereiro de 2021 | 21:09

Isack Tembé, de 24 anos, uma das lideranças do povo Tenetehara, foi morto a tiros em uma fazenda às margens da Terra Indígena do Alto Rio Guamá, município de Santa Luzia, no nordeste paraense. O crime ocorreu na noite de sexta-feira, 12. A Corregedoria da Polícia Militar (PM) instaurou inquérito para apurar a suposta ação de uma milícia rural na região, já que os suspeitos pelo crime são policiais militares.

Segundo testemunhas, Isack e outros indígenas estavam caçando em uma área de mata quando foram surpreendidos a tiros. Parte do grupo conseguiu correr e se esconder. Isack foi baleado e os próprios agentes de segurança levaram o corpo para a Unidade de Saúde de Capitão Poço, município vizinho, onde já chegou morto, de acordo com o prontuário médico entregue à família.

Somente após mais de duas horas a notícia sobre a morte de Isack chegou à aldeia. Walber Tembé, também liderança na Terra Indígena do Alto Rio Guamá, diz que tentou registrar um boletim de ocorrência na Delegacia de Polícia Civil da cidade, mas o prédio estava fechado. Ele aguardou até as 3h40 da madrugada e voltou para a comunidade sem fazer a comunicação da ocorrência.

Às 11h deste sábado, 13, o corpo de Isack foi levado para o Instituto Médico Legal de Castanhal, de onde foi liberado para sepultamento no final da tarde. O médico legista antecipou aos familiares que a vítima foi atingida por um disparo frontal de arma de fogo.

O Ministério Público Federal (MPF) foi informado do fato no final da manhã deste sábado e, por meio da unidade da instituição em Paragominas, abriu procedimento para cobrar a investigação do caso e acompanhá-la. O MPF está expedindo ofícios com solicitações urgentes de providências e de informações às Polícias Federal, Militar e Civil, e à Fundação Nacional do Índio (Funai), para que informem as circunstâncias da morte, o andamento dos procedimentos investigatórios instaurados, se houve a realização de perícia no local em que ocorreu o fato e se foi realizada a oitiva das pessoas presentes no local da ocorrência. O MPF também requisitou cópias dos documentos relativos ao caso e às respostas que serão fornecidas e o prazo para que as respostas sejam apresentadas é de três dias.

A Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), Comissão de Direitos Humanos da OAB-PA e Comissão Pastoral da Terra, protocolaram junto à Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) um ofício solicitando o envio de uma força-tarefa para a região onde ocorreu o assassinato.

Segundo o documento, há notícias de que o local do homicídio não foi preservado e que o corpo de Izack Tembé não havia sido periciado até o final da manhã deste sábado. A entidade também requer providências para garantir a segurança de possíveis testemunhas e familiares da vítima. “Existem relatos de que a área é dominada por grupos armados, milícias que ameaçam o povo Tembé, conflito que envolve a invasão do território indígena”, diz o coordenador da SDDH, Marco Apolo Santana Leão.

Segundo o promotor militar Armando Brasil, a Corregedoria da PM do Pará, irá instaurar inquérito para apurar o fato, uma vez que os militares supostamente estavam usando armas da corporação para fazer segurança particular da fazenda. “Seria uma espécie de milícia rural”, afirma.

Em nota, a Segup-PA, informa que Policiais Militares foram acionados para averiguar um suposto furto de gado em uma fazenda no município de Capitão Poço, localizado no nordeste do Estado, na noite de sexta-feira, 12, em uma área escura e de difícil acesso. Ao chegar ao local, teriam surpreendidos por disparos, agindo em legítima defesa. O grupo fugiu da área. No local, foi encontrado um gado desossado e um revólver calibre 38 ao lado de uma pessoa alvejada. A equipe conduziu o homem até uma unidade de saúde, que não resistiu ao ferimento. A Polícia Civil investiga o caso.

Danielle Ferreira, especial para o Estadão
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