Crime impacta saúde mental

De Redação Estadão | 1 de outubro de 2020 | 13:45

Há seis meses, o pesquisador Pedro Senger, de 25 anos, trabalha em casa por causa da pandemia de covid-19. Quando precisa ir presencialmente ao emprego sai de casa às 8h e caminha por 10 minutos. Neste horário, a encarregada de limpeza Vandersilva Simeão Pedro, de 54, está iniciando a terceira hora de trabalho. Para chegar às 6h ao serviço, ela passa por ruas escuras até chegar a um ponto de ônibus mais seguro. Isso, às 4h.

Segurança pública é competência dos governos estaduais, mas há políticas municipais que têm capacidade de prevenir o crime e aumentar a sensação de segurança dos moradores. Em São Paulo, ao menos duas delas são essenciais: iluminação pública e zeladoria.

Vandersilva sai com tanta antecedência de casa porque tem medo de esperar pelo ônibus no ponto mais próximo. Já foi assaltada ali, em 2015, e não se arrisca mais. Prefere caminhar por quase 1 km, passando por terrenos baldios, pontos de venda de drogas e trechos escuros.

Vivenciar traumas, como assaltos, pode desencadear uma série de doenças psíquicas. A lista inclui transtorno de ansiedade, crises de pânico ou depressão, como explica a psiquiatra Caroline Argento.

“É muito comum pacientes que passam por uma situação de violência entrarem em um quadro depressivo, no qual ficam com medo até de sair de casa. E isso repercute em várias situações, inclusive econômicas, pois essa pessoa não consegue trabalhar”, disse. Segundo Caroline, a saúde mental está diretamente relacionada ao acesso à segurança.

E o problema não decorre, necessariamente, da falta de policiamento. A 5 km da casa de Vandersilva, por exemplo, há um batalhão da Polícia Militar. Para a diretora executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, o que o bairro precisa é de espaços de convivência. “Isso significa investir em infraestrutura e zeladoria urbana, especialmente em regiões periféricas.”

Segundo a especialista, a iluminação pública, a poda de árvore e o recolhimento de lixo, por exemplo, geram um ambiente adequado às pessoas.

Em Higienópolis, onde mora Pedro, andar na rua de madrugada não é um problema. A 1 km de seu apartamento, na Avenida Angélica, há um batalhão da PM. E, mais que isso: todo o entorno é iluminado.

“É fundamental que o Estado garanta aos cidadãos a possibilidade de ir e vir com segurança, pois quando tiramos esse direito geramos situações de estresse que podem, sim, desencadear doenças”, diz Carolina.

Ter uma rotina de trabalho próxima à moradia é o conceito da “cidade de 15 minutos”, ilustrada nesta série de reportagens do Estadão a partir das histórias de Pedro e Vandersilva. Moradores da mesma cidade, eles têm realidades totalmente distintas.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informou que nos sete primeiros meses deste ano as regiões de Vandersilva e Pedro registraram quedas nos índices de roubo e furto, se comparados com o mesmo período do ano passado. Onde a encarregada de limpeza mora, os números caíram 8,2% e 43%, respectivamente. No caso do educador físico, 30% e 15%. Já o Departamento de Iluminação Pública (Ilume) informou que fez vistoria na Vila Missionária e substituiu as lâmpadas queimadas.

Pobreza

A região conhecida como cracolândia, na Luz, não é mais o único local de consumo da drogas no centro. A cerca de 300 metros do prédio onde mora Pedro, grupos de usuários costumam se reunir na Praça José Molina. Ali, há também moradores de rua.

De acordo com a Prefeitura, a cidade tinha 24.344 pessoas em situação de rua em 2019. Isso antes de a pandemia de covid-19 elevar o desemprego e, consequentemente, a pobreza. Parte dessa população mais vulnerável vive no centro, ocupando calçadas, viadutos ou marquises de prédios.

Quando caminha a pé até o trabalho, ou quando passeia pela Avenida Paulista, o pesquisador só usa o celular em situações de emergência. “Precisa tomar muito cuidado, até para evitar roubo. Nunca fui assaltado, mas diversos amigos já.”

A cautela tem justificativa. Segundo estudo realizado pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), a via foi a campeã em roubos de celular no Estado durante o primeiro semestre, com 215 casos.

Quem vencer as eleições em novembro não poderá ampliar o efetivo na Paulista, mas comandará a Guarda Civil Metropolitana. Criada em 1986 com 150 agentes, a GCM tem hoje 6 mil guardas, que andam armados e podem prender em flagrante. Especialistas lamentam que o órgão tenha perdido seu caráter comunitário.

“O armamento da GCM e a reprodução da lógica da Polícia Militar acabam piorando a sensação de segurança em bairros da periferia”, afirma o pesquisador Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da USP. “Há um grande problema em relação à violência policial, que se dá principalmente contra jovens, negros e moradores de bairros periféricos. E quando o Estado é visto como inimigo, o crime se fortalece, pois cria uma revolta naquelas pessoas.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Adriana Ferraz e Bianca Gomes, com colaboração de Brenda Zacharias e Marcelo Godoy
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