'Curb' traz sincronia entre ficção e realidade

De Redação Estadão | 22 de março de 2020 | 07:00

Pode ter sido coincidência, mas é pouco provável: uma cena descrita na reportagem de capa da revista americana GQ com Larry David, em fevereiro, acabou se infiltrando em Curb Your Enthusiasm. Segura a Onda na HBO Brasil, a série passa na virada do domingo para a segunda-feira no canal, fica no streaming, e tem sua 10ª temporada se encerrando neste domingo, 22.

Na entrevista da GQ, assim como na série, Larry David está em um estabelecimento e o seu café esfria. Ao chamar o garçom, ele pergunta: “Para esquentar isso aqui um pouquinho, você teria que inventar algo novo, certo?”. Quando o atendente diz que há soluções mais práticas, ele discorda e pede para colocar no micro-ondas. Diante da negativa, diz que tudo bem, “pode esquecer” – num misto de contrariado e resignado, uma expressão eternizada por ele na TV nos 20 anos em que a série está no ar (com hiatos entre temporadas).

Esse tipo de coincidência (ou intersecção) entre a vida real e a ficção é o motor de Curb desde o início dos anos 2000, mas, com o avanço da internet e o ambiente de discussão ampliado pelas redes sociais, esse limite ganha novos ares a cada nova empreitada de David, o célebre criador de Seinfeld ao lado de Jerry.

Nesta 10ª temporada, três anos depois da 9ª, diversas subtramas fazem os episódios de em média 40 minutos avançarem, mas o que cola tudo isso junto – além do ritmo dos diálogos apenas parcialmente roteirizados, com amplo espaço para a improvisação, marca registrada da série – é a empreitada do personagem Larry David em construir um café em Los Angeles, como forma de vingança a Mocha Joe, outro personagem conhecido de temporadas anteriores. “É uma loja de despeito (spite store)”, diz. Mocha Joe foi quem lhe serviu o café frio, é claro.

Para esclarecer aos espectadores de primeira viagem: em Curb, Larry David interpreta o personagem Larry David, e essa sincronicidade entre a realidade (do ator, criador e produtor executivo) e a ficção (do neurótico e hilário setentão da telinha) cria um produto único na televisão americana.

No início desta temporada, David tentou emplacar uma trama sobre o #MeToo (em que diversos de seus colegas de profissão caíram, alguns mais e outros menos), e algumas piadas parecem anacrônicas ou mesmo absurdas: mas é adjacente ao humor de David não ser ofensivo a troco de nada, e quase sempre ao contrário. A ideia é mostrar a situação com uma visão incomum, produzindo assim o efeito do humor. É uma estratégia muito mais inteligente, e engraçada, do que tentar transformar o insulto em arte, empreitada fracassada de muitos dos comediantes brasileiros mais conhecidos.

De volta a Curb: outras tramas envolvem uma suspeita de câncer, um aplicativo estilo Uber em que a pessoa substitui empregados como porteiros e donos de banca de jornal temporariamente para que a pessoa vá ao banheiro, um casamento no México, muitas mentiras, jogos de golfe e mesas em restaurantes.

David não faz isso sozinho. Desde o início, Jeff Schaffer é seu parceiro de histórias e direção. Cheryl Hines também está lá desde sempre, agora como a ex-mulher, e dirigindo alguns episódios. Mas o principal parceiro, pelo menos na tela, é Jeff Garlin, ator e comediante que na série faz o papel do empresário de Larry, Jeff Greene. Em seu especial na Netflix do final de 2019, Our Man In Chicago, Garlin abre dizendo: “Olha, eu sou um cara de sucesso, sou conhecido, etc, mas não existe um dia na minha vida em que alguém não chegue para mim e pergunte como está Larry David”. Só pelas interações entre eles, 20 anos de um entrosamento televisivo sem igual, Curb vale a pena.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Guilherme Sobota
Estadao Conteudo
Copyright © 2020 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.

Deixe um comentário