De volta o lar

De Redação Estadão | 29 de janeiro de 2020 | 07:00

Aos 32 anos, o ator, cantor e apresentador Tiago Abravanel está de casa nova. Ele se mudou faz pouco tempo para uma cobertura no Brooklin, na zona sul de São Paulo, onde vive com o marido, o produtor Fernando Poli. Os dois não se conheceram no SBT, como chegou-se a noticiar. Foi amor de carnaval, esclarece Tiago, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em sua sala decorada com uma pequena parte da sua grande coleção de bonecos – e da qual se tem uma bela vista para a cidade. Já profissionalmente falando, a nova casa nem é tão nova assim.

Após 6 anos na Globo, ele retornou ao SBT, emissora do avô Silvio Santos, no ano passado, onde apresentou o reality gastronômico Famílias Frente a Frente. Mas, além da vocação artística, Tiago parece ter herdado de Silvio o tino empresarial. Dono de uma produtora e da própria grife de pijamas, a T_Jama, ele acaba de se tornar sócio da empresa Nanica, especializada em torta banoffee que faz sucesso na internet. E, enquanto estuda outros projetos na TV e no teatro, Tiago se prepara para estrear seu bloco no carnaval de São Paulo, que comandará de cima de um trio elétrico. À reportagem, ele falou de sua volta ao SBT, do avô Silvio Santos, que fará 90 anos em dezembro, e da recente repercussão envolvendo seu relacionamento com Fernando.

Quais são seus projetos para o carnaval?

Meu carnaval nos últimos quatro anos foi ao lado (do pessoal) da Gambiarra. Mas, neste ano, a gente resolveu seguir cada um o seu caminho. Então, estou tendo pela primeira vez o desafio de levar o bloco para a rua sozinho. Vai ser o Bloco do Abrava, que sai no dia 15 de fevereiro, da Marquês de São Vicente, na Barra Funda, com algumas participações especiais. No dia 31 de janeiro, tem um esquenta, que é uma festa que sempre faço antes do carnaval. A gente vai ter Sidney Magal no esquenta. Estou muito feliz, porque o Magal é um cara que sempre admirei, homenageei no Show dos Famosos. No bloco, vamos ter o Molejo, o Make U Sweat. E ainda a DJ Lily Scott.

Você fez Famílias Frente a Frente no SBT até dezembro. Vai ter outra temporada?

Não tem 2ª temporada prevista. O projeto deu supercerto: arriscar esse meu lado de comunicador, que eu já tinha andado um pouco através do Popstar, na Globo. Obviamente, tem a questão da comida ali presente, mas meu grande objetivo era falar sobre as relações familiares, sobre o quanto a união dentro da família faz a diferença, tanto positivamente quanto negativamente. Espero que tenhamos uma 2ª temporada, e agora esperar novos projetos que eu gostaria de galgar para o meu lado comunicador. Tenho muita vontade de fazer alguma coisa com plateia.

E você está negociando isso?

Oficialmente, não tem nada negociado com a emissora, nem um projeto formatado ainda. Estou escrevendo muita coisa. Tenho projetos antigos que estou tirando da gaveta e tentando repaginar. Muitas novidades vão vir para este ano e estou a fim de botar a cara para bater.

Fale sobre sua volta ao SBT. Foi uma decisão sua ou um pedido do seu avô, o Silvio?

Na verdade, a volta ao SBT não foi calculada. Eu estava com meu contrato com a Globo e comecei a pesquisar projetos que eu poderia levar para a emissora. Alguns até começaram a ser encaminhados, mas acabaram não dando certo. Mas eu sempre com a postura de correr atrás daquilo que eu gostaria. Nesse processo, procurando produtoras, encontrei a Endemol. Aí eles me apresentaram vários formatos e eu conheci o Famílias Frente a Frente, e enxerguei nele potencial de algo totalmente diferente do que as pessoas poderiam imaginar que eu fizesse. Talvez por eu ser cantor, ser ator, as pessoas imaginassem que eu fizesse um talk-show, ou um show de talentos – e não descarto essa possibilidade. Quando olhei aquele formato, falei: não teria outro lugar para eu apresentar um projeto como esse se não fosse o SBT.

Você ainda estava na Globo?

Eu ainda estava lá. E, para não ser antiético com a casa em que eu estava, cheguei para eles e falei: estou com objetivo de alcançar outros projetos, então prefiro me desligar antes de o meu contrato acabar. Meu contrato só acabaria em abril de 2019. Encerrei o contrato no final de dezembro e comecei o ano já pensando no projeto do Famílias. A minha produtora, a Abrava, e a Endemol correram atrás de tudo para viabilizá-lo, e meu avô e a emissora disponibilizaram o horário para a gente poder exibir esse programa.

Mas, na época em que você retornou ao SBT, chegou-se a falar que seu avô tinha pedido para você voltar?

Não, nunca teve isso. Acho que meu avô sempre foi muito sensato no sentido de a gente correr atrás daquilo que a gente quisesse. Obviamente que ele aconselha. Mas, apesar de não demonstrar tanto, ele sempre foi muito orgulhoso por ver as minhas escolhas, o meu reconhecimento pelo meu trabalho. Então, independentemente de onde eu estivesse, acho que ele me apoiaria.

Ser comunicador tem influência de seu avô de alguma forma?

Acho que inevitavelmente. Qualquer comunicador no Brasil, de alguma forma, consegue ter o Silvio Santos como referência. Afinal de contas, é o maior comunicador do nosso País. Mas, na verdade, sempre tive receio de encontrar com esse meu lado, justamente por medo de comparação, até o dia em que comecei a fazer meus shows em eventos, apresentar eventos. Falei: por que não se tenho minha personalidade, se tenho meu jeito de me comunicar? Nunca vou ser o Silvio Santos, nem tenho essa pretensão, mas quero poder aprender e um dia ser tão reconhecido quanto ele com meu trabalho.

É importante se descolar dessa figura tão poderosa, não?

É, e é muito louco, porque passei por alguns desafios de descolar de imagem. Por exemplo, quando comecei a fazer teatro, eu era o filho da Cintia (Abravanel, filha mais velha de Silvio), que era produtora. Existia a visão do meio artístico que eu era o filho da Cintia. Depois que conquistei meu espaço, fiz o Tim Maia. “Ah o Tiago só faz o cara que imita o Tim Maia, então ele só vai cantar música do Tim Maia.”

É que o musical do Tim Maia foi muito forte para sua carreira.

Acho que é justamente por isso. Todas essas comparações ou paralelos são colocados porque faço com muita intensidade. Então, ter o Tim Maia como um grande acontecimento na minha carreira me tornou uma pessoa conhecida pelo teatro. Isso é maravilhoso. Mas se eu não tivesse discernimento e consciência de que é um trabalho, eu ia viver a minha vida inteira à custa de um artista que eu não sou.

Silvio Santos vai fazer 90 anos. Vocês estão falando em sucessão? E você está sendo pensado dentro dessa sucessão?

A gente não fala justamente porque a gente sabe o quanto o meu avô gosta de estar aqui, o quanto ele ama fazer isso. Então, falar sobre isso parece tipo: “Vai chegar uma hora que você está indo embora, tá, senhor?”. Não é legal, por mais que todo mundo saiba, isso não é uma coisa que a gente quer pensar. Não sei o que passa na cabeça dele, e ao mesmo tempo, a minha vida e a minha carreira foram tão trilhadas e trabalhadas para essa minha independência que não é algo que penso de fato. Se houver alguma ligação com essa questão de sucessão, que seja natural. Meu avô é um homem de quase 90 anos que trabalha muito ainda, e ama o que faz. Acho que ele só vai parar no dia em que a vida parar ele. E que assim seja.

Tiago Abravanel fala do retorno ao SBT, do avô Silvio Santos e do relacionamento com o produtor Fernando Poli

Como vocês lidam com polêmicas envolvendo seu avô, que foi acusado de racista, machista?

O que eu sinto e, inclusive, já falei isso para ele: todo mundo é responsável por aquilo que faz. Meu avô viveu numa época em que muitas coisas eram veladas, mas hoje o mundo mudou. E hoje a internet tem voz, todo mundo tem voz, inclusive para falar se achou alguma coisa errada. A gente tem de aprender a lidar com a situação. Nem sempre a gente concorda, nem sempre a gente discorda. O amor que sinto pelo meu avô é independente do que falam sobre ele, porque só quem está dentro de casa sabe o quanto ele é incrível, mas o tempo está passando, e às vezes ele está ficando sem filtro. Faço por onde eu posso. Às vezes, ele não entende: “O que eu fiz?”. Tem brincadeiras que ele faz hoje e fez em 1950, mas hoje é diferente, hoje você não pode mais brincar. E não pode mesmo, porque o mundo evoluiu.

Recentemente, a notícia de seu namoro com Fernando repercutiu na internet. Como foi ver seu relacionamento exposto?

Sempre fui muito reservado pessoalmente falando, mas nunca me escondi. Vamos fazer 5 anos juntos. Nunca falei disso porque achei que não precisava falar, afinal de contas, o pessoal é pessoal. Mas, enfim, saiu na mídia. Talvez seja novidade para quem não me conhece tanto. Quem me conhece, quem está perto de mim, com certeza, já viu o Fernando, que é uma pessoa incrível, que está dentro da minha família há muito tempo. Falaram: “Finalmente, o Tiago saiu do armário”. Nunca estive no armário, gente. Mas fico feliz por toda essa repercussão, que foi por conta de acasos da rede social, porque nossos amigos vazaram uma foto ou alguma coisa assim, e eles não fizeram nada de errado. Isso fez com que a gente recebesse muito carinho.

E tem cobrança para que você se engaje em causas LGBT, que levante alguma bandeira?

Sempre fui pró-movimento LGBT, independentemente de eu ter me assumido publicamente ou não: dentro do meu show, das minhas ações sociais, dos meus discursos em rede social. Obviamente, que eu mostrando que faço parte da classe, se é que a gente pode dizer assim, faz com que outras pessoas se identifiquem: “Olha o Tiago, a família dele é linda, em que todo mundo aceita todo mundo, e a minha família também pode me aceitar”. Acho que dessa forma, você mostrar que você também é, faz com que elas se identifiquem, se encorajem para não ter medo. A gente vive numa sociedade – não só no Brasil, mas no mundo – em que ainda existe muito preconceito. Mas quanto mais natural a gente for em relação a isso, mais normal as pessoas vão achar. O que para mim sempre foi normal, mas para algumas pessoas pode ser anormal. Quando meu sobrinho nasceu, o tio Fê já existia, e quando meu sobrinho cresceu, o tio Fê continuou existindo. E se eu perguntar para ele quem é o tio Fê: “É o namorado do tio Tiago”. E não tem nada de errado, não precisei explicar para ele. As pessoas ficam criando questões: “Isso não é natural da vida”. O que é natural da vida? Um prédio não é natural da vida. Você lidar com o preconceito assim na sua cara é horrível, mas a gente vai resistir e está tudo bem.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Adriana Del Ré
Estadao Conteudo
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