'Deveríamos salvar a Lava Jato', diz arcebispo de Aparecida em celebração

De Redação Estadão | 12 de outubro de 2020 | 18:16

Durante a missa de celebração do dia de Nossa Senhora Aparecida, na manhã desta segunda-feira, 12, dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida, criticou o fim da Lava Jato, como declarado pelo Jair Bolsonaro na última semana. Para ele, falta diálogo e união para “salvar o futuro da humanidade”.

Em entrevista coletiva, após a missa, dom Orlando fez um apelo para a continuidade do combate à corrupção: “Está claríssimo que a impunidade está voltando e nós deveríamos salvar a Lava Jato, porque ali estamos vencendo o dragão da corrupção, que não deve voltar”.

A citação ao “dragão” da corrupção já havia aparecido no sermão de dom Orlando, durante a celebração solene. “Há dragões, dragões bravos, que querem matar a vida, mas Maria vence com a força da palavra. E nós também iremos vencer esses dragões. E um que está voltando, muito feio, se chama impunidade, com isso a corrupção vai continuar e não teremos vida econômica suficiente”, disse o arcebispo, durante a missa.

No ano passado, também na celebração de 12 de outubro em Aparecida, o arcebispo havia adotado um tom parecido. “Aquele dragão, que ainda continua, estão sendo facilitados agora os caminhos do dragão da corrupção, que tira o pão da nossa boca e aumenta as desigualdades sociais, que a mãe não pode ficar alegre com filhos desempregados, com filhos sofrendo uma violência injusta, com filhos e filhas não tendo nem como sobreviver cada dia, talvez até a cada minuto da vida. Dragão é o que não falta, mas a fé vence”, disse o arcebispo há um ano.

O tom de crítica social de dom Orlando permaneceu em todo o discurso da homilia desta segunda-feira. Em determinado momento, fez uma metáfora com o vinho. “Nós hoje podemos dizer, dai-nos o vinho da vida familiar, dai-nos o vinho da esperança, dai-nos o vinho do emprego, dai-nos o vinho do diálogo. Com tantas diferenças, só o diálogo salvará o futuro da humanidade.” E continuou: “Se a gente se revestir da palavra, apóstolo Paulo diz assim: na cintura vamos usar a veste da verdade, não de fake news, não de mentiras; a couraça é a nossa justiça, para ver menos desigualdades sociais”, fechando o sermão da missa principal.

Ao definir fake news, o religioso disse: “o pai da mentira vocês sabem quem é. Não é Deus. O pai de mentira é o maligno”.

Após a missa, questionado por jornalistas se a mensagem seria um recado ao presidente Bolsonaro e aos seus defensores, dom Orlando respondeu que a fala provém do próprio evangelho, que “nós precisamos nos desarmar de tudo, porque nós estamos muitas vezes com o espírito muito armado também. A gente quer desarmar para viver uma vida de paz, de fraternidade e não de ódio”.

O arcebispo citou ainda que papa Francisco fala muito que os governos deveriam gastar mais em questões sociais e menos com armamentos. Além disso, a Igreja pediu também mais fidelidade do presidente quanto ao desmatamento na Amazônia. “É preciso urgentemente solucionar essas questões até para o bem da economia do Brasil, porque muitas pessoas estão deixando de investir aqui”.

Gerson Monteiro, especial para o Estadão
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