Divina lembrança

De Redação Estadão | 1 de março de 2020 | 08:00

“Fico admirada quando ouço alguém dizer que já está realizado na vida. Vou morrer sem realizar muita coisa que pretendo”, afirmou certa vez Elizeth Cardoso. Mas o que ela construiu é sólido o bastante para marcar o nome da intérprete como referência de bom gosto.

Incentivadora de jovens – foi a primeira a gravar uma música de Jards Macalé, por exemplo -, Elizeth participou do nascimento da bossa nova, esteve atenta aos compositores de morro e foi porta-voz da canção brasileira em shows no Japão.

Diversas iniciativas estão previstas para celebrar os 100 anos de nascimento de Elizeth, em 16 de julho. Shows, exposição, reedições de discos históricos, lançamento de gravação inédita e marca de cerveja já à venda devem relembrar a trajetória da cantora em 2020.

Neto de Elizeth, Paulo Cesar Valdez Junior é o responsável legal pela obra dela. Inspirado na ideia da cerveja que homenageia o humorista e músico Mussum, ele criou a cervejaria Água de Bamba, que distribui o rótulo Divina. A cantora ganhou o epíteto do amigo e pesquisador Haroldo Costa.

A bebida já é comercializada em alguns pontos do Rio. “A cerveja pode aproximá-la de um público que ainda não a conhece”, afirma Valdez, que conseguiu autorização para utilizar o sucesso Eu Bebo Sim na publicidade da cerveja. Ele conta que a gravadora Universal, detentora da maior parte do acervo de Elizeth, está aos poucos inserindo discos dela nas plataformas digitais. Valdez também planeja obter da TV Globo os videoclipes que a cantora fez para a emissora e colocá-los na internet.

Ele ainda articula uma exposição com o acervo deixado pela avó. O Flamengo o procurou para abrigar uma mostra sobre a cantora, que torcia para o time, na sede do clube carioca. Uma reunião com o neto e representantes da Universal, do Museu da Imagem e do Som e do Instituto Moreira Salles está prevista para chegar a um recorte curatorial. “Ela deixou muita coisa para o MIS e eu doei mais de duas mil fotos do arquivo dela para o IMS”, conta Valdez, que pretende trazer a exposição para São Paulo.

Uma gravação inédita em poder de Valdez também pode vir à luz. Um dos momentos marcantes da carreira da cantora foi a interpretação de Bachianas Brasileiras nº. 5, de Heitor Villa-Lobos, em concertos regidos pelo maestro Diogo Pacheco nos teatros municipais de Rio e São Paulo. No arquivo de Elizeth, ficaram áudios dos ensaios, que Valdez tem interesse em lançar.

Reconhecida pela técnica vocal, a cantora Mônica Salmaso também programou uma homenagem a Elizeth. Nos dias 19 e 20 de março, ela faz o show Senhora das Canções na Casa do Choro, no Rio.

“Elizeth tinha segurança e equilíbrio técnico da voz. Ouvi-la equivale a estudar canto”, afirma a cantora.

Luciana Rabello (cavaquinho) e Mauricio Carrilho (violão de 7 cordas), que a acompanham na apresentação, trabalharam com Elizeth.

O repertório escolhido para Senhora das Canções contempla clássicos e abre espaço para canções menos conhecidas. É o caso de A Mentira Acaba, composta por Rui de Almeida e Arnô Provenzano, uma das primeiras que Elizeth gravou, em um disco de 78 rotações lançado em 1950. Mônica diz que não descarta transformar o show, que pode ser apresentado em São Paulo, em disco.

Legado

Elizeth nasceu no Rio, perto do Morro da Mangueira. Na adolescência, foi funcionária de uma fábrica de sapólio e cabeleireira. Jacob do Bandolim a ouviu cantar e a encaminhou para um teste na Rádio Guanabara, onde se apresentou pela primeira vez em 1936. Trabalhou em outras emissoras e foi crooner de orquestra.

O sucesso chegou somente em 1950, ao gravar Canção de Amor, samba-canção de Chocolate e Elano de Paula.

Em Canção do Amor Demais (1958), Elizeth gravou músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Apesar da pouca repercussão quando lançado, o álbum entrou para a posteridade como o disco que inaugurou a bossa nova, com João Gilberto tocando violão em Chega de Saudade e Outra Vez.

É Luxo Só (Ary Barroso e Luis Peixoto), Barracão (Luis Antônio e Oldemar Magalhães) e Nossos Momentos (Luis Reis e Haroldo Barbosa) são algumas das músicas que marcaram a carreira de Elizeth.

Nos anos 1960, ela já estava estabelecida como grande intérprete. “Conviver com ela era um imenso prazer. Devo a ela minha carreira como produtor de discos e compositor”, afirma Hermínio Bello de Carvalho, que produziu diversos discos da cantora. Ele pretende relançar alguns destes trabalhos, incluindo Elizeth Sobe o Morro (1965), com músicas de Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho e do próprio Hermínio.

Também amigo de Elizeth, o pesquisador e jornalista Ricardo Cravo Albin afirma que a cantora nunca conseguiu a popularidade que merecia. “É algo que sempre me chamou atenção. A importância de Elizeth é muito maior do que a gente pode imaginar”, reflete Albin, que esteve perto da cantora até a morte dela, em 7 de maio de 1990, devido a um câncer de estômago.

Zuza Homem de Mello é outro especialista em música que conviveu com Elizeth. O jornalista e musicólogo foi técnico de som do Bossaudade, programa que a cantora apresentava na TV Record. “É a única cantora que compete com Elis Regina. Pode-se considerar Elizeth a melhor cantora brasileira de todos os tempos.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Renato Vieira
Estadao Conteudo
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