"Dois irmãos" vai além da busca pelo pai

De Redação Estadão | 9 de março de 2020 | 09:00

Na Pixar, as histórias saem da cabeça dos artistas da casa e depois vão sendo moldadas pelas centenas de pessoas que trabalham numa produção. No caso de Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica, o diretor Dan Scanlon se inspirou em sua vida. “Meu pai morreu quando eu tinha um ano de idade, e meu irmão, três”, disse ele, na sede da Pixar, em Emeryville, arredores de São Francisco.

“Obviamente que sempre imaginei quem ele era e se eu era parecido com ele. Então a ideia para o filme surgiu dessa hipótese: e se eu tivesse a chance de conhecê-lo e passar um dia com ele, o que meu irmão e ele aprenderíamos sobre nós mesmos e sobre ele?”

O único jeito de isso acontecer seria com um pouco de mágica. “O que nos fez concluir que teria de ser uma fantasia. Mas era uma história tão pessoal que eu não queria que acontecesse em outra época”, disse Scanlon. E aí surgiu a vontade de usar elfos e unicórnios, mas numa cidade de hoje, parecida com as nossas.

Em Dois Irmãos, Ian (Tom Holland na versão original) é um adolescente elfo tímido e esquisito, sem amigos. Seu irmão Barley (voz de Chris Pratt) é o oposto: extrovertido e autoconfiante até em excesso e vidrado em fantasia. No dia em que Ian completa 16 anos, a mãe (voz de Julia Louis-Dreyfus) dá o presente que o pai, morto quando ele era bebê, lhe deixou. Trata-se de um cetro encantado, com uma pedra mágica, que permite justamente a volta do pai, mas somente por 24 horas.

O problema é que magia, quem diria, é mais difícil do que aparece nos filmes. O feitiço não funciona muito bem, e o resultado é daqueles que só o estúdio que fez um rato querer ser chef e nos levou ao interior da mente de uma menina pode criar. O pai fica incompleto, apenas um par de calças. Ian e Barley precisam correr contra o tempo para achar outra pedra mágica, completar o feitiço e conhecer o pai, que vai a reboque, apenas um par de calças puxado por uma coleira – mais Pixar, impossível. “Essa ideia de o pai ser apenas um par de calças surgiu logo no começo, e eu acho que tem mesmo essa coisa mais arriscada e esquisita que é um traço comum dos filmes da Pixar”, disse Scanlon.

Mas também, de certa forma, Ian e Barley estão à procura da magia perdida do mundo – há unicórnios, mas eles não são admirados, estão sempre revirando o lixo. “No mundo em que vivemos pode não haver unicórnios, elfos e centauros, mas há magia. Só que não prestamos atenção.”

Sendo algo tão próximo, o diretor admitiu que tentou afastar um pouco a história de Dois Irmãos da sua. “É compreensível porque é um assunto sensível para Dan. Mas às vezes tínhamos de perguntar coisas específicas para ele, como tinha se sentido em determinada situação, para que a história ganhasse mais peso emocional e verdade”, disse a produtora Kori Rae. No fim, ele se disse feliz com o resultado. “Amo os relacionamentos com as pessoas em que nos inspiramos, amo inclusive o mistério do meu pai e pensar sobre ele. Então só sinto alegria e uma grande emoção. Espero que outras pessoas sintam o mesmo.”

Mariane Morisawa
Estadao Conteudo
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