Doses de aventura

De Redação Estadão | 7 de março de 2020 | 07:50

Dos livros de Monteiro Lobato que tanto encantaram Mauricio de Sousa quando ele começou a ler, Caçadas de Pedrinho não é o preferido. O criador da Turma da Mônica gosta mais de Os Doze Trabalhos de Hércules. Mas a história que ele lança no dia 21, na Saraiva do Shopping Center Norte, em debate com Luiz Felipe Pondé, e que coloca seus personagens dentro do Sítio do Picapau Amarelo, se conecta com uma memória de infância – e ele se diverte contando em escritório.

Um dia perdido no passado, a tropa de burros da família trazia, da região de Mogi das Cruzes e Santa Isabel para São Paulo, ovos e mais ovos em cangalhas protegidos por palha de milho. No meio do caminho, eles se agitaram, corcovearam. No que pulavam, as cangalhas arrebentavam e os ovos se quebravam. “Tinha uma senhora onça esperando por eles. Foi prejuízo total.”

O garoto ouviu a história como se tivesse acontecido ali por aqueles dias.

“Fiquei assustado, querendo saber onde as onças viviam. Quando li Caçadas de Pedrinho, essa lembrança de pavor e terror voltou”, conta agora aos 84.
Fã de Lobato, ele lembra também que a caçada não o atraiu tanto quanto a prosa em si do autor, e que, naquela época, por influência da avó, ele “já era meio defensor de animais”.

“Há um esforço hoje de fazer uma adequação da obra, extirpando aqui e ali alguma coisa ligada a um tempo e aos costumes dos anos 1920, 1930”, comenta Mauricio de Sousa. Ele completa: “E foi nossa preocupação também que a gente colabore para que Lobato não seja esquecido ou encostado na parede por causa de uma ou outra parte do livro dele que falava de preconceito, racismo ou qualquer coisa assim”.

Esta é a terceira adaptação da coleção da Girassol, depois de Narizinho Arrebitado e O Sítio do Picapau Amarelo, e a mais complicada. Além da caçada, há a questão do racismo, expressa sobretudo pela personagem Emília.

“Este é um dos textos mais polêmicos. Lobato usa palavras que na época não ofendiam, mas que hoje ofendem. Não adianta colocar uma cortina de fumaça. Isso também precisava ser ajustado”, explica Regina Zilberman. Para ela, as mudanças feitas não comprometem a narrativa nem o conteúdo das ações dos personagens.

Em certo momento, no original (nas livrarias pela Globo, editora exclusiva de Lobato até o domínio público, em 2019), lemos um diálogo entre dona Benta e Tia Nastácia, narrado assim pelo autor: “Que nada, Sinhá! – insistiu a negra”. Agora, lemos: “Que nada! – insistiu a amiga”. Um pouco mais adiante: “Lá isso é – resmungou a preta pendurando o beiço”. E agora: “Lá isso é – resmungou ela”.

Emília também expressa seu racismo. “Isso não é muito legal e simpático da parte dela. Às vezes, ela fala demais”, comenta a pesquisadora. “Emília é uma criança desbocada. Precisamos dar uma matizada com relação a algumas expressões, o que também não compromete a obra.” Palavras como “pretura” e “carne negra”, usadas para se referir a Nastácia, não estão na nova edição. Vale lembrar que quando uma obra cai em domínio público, 70 anos depois da morte de seu autor, ela pode ser publicada por qualquer editora, adaptada ou no original.

Regina conta ainda que esta é uma das obras mais extensas de Lobato, um desafio na hora de adaptá-la, e lembra que as duas novelas – a da onça e a do rinoceronte – foram publicadas de forma independente e depois reunidas pelo autor.

“É um livro que conversa consigo mesmo. Na primeira parte as crianças matam a onça e se defendem do ataque das outras, apoiadas por outros animais, e acabam se salvando. Na segunda, tem uma reversão. Em vez de perseguir um animal, elas protegem o rinoceronte, que depois vai ter uma participação importante em outros volumes da obra do Lobato. O próprio Lobato deve ter se antenado que era preciso matizar aquela violência da primeira parte”, avalia.

Mea-culpa

Enquanto conversa sobre o desafio de trazer Lobato para os dias de hoje, Mauricio de Sousa diz que ele próprio se vê na mesma situação neste momento. Porém, nada que envolva racismo. “Não posso esquecer que até nas minhas histórias, e estou desenhando há 60 anos, também houve coisas que escrevi e desenhei e que hoje já estamos extirpando e mostrando para o leitor que houve mudança de hábito e costumes”, diz.

Ele dá alguns exemplos da evolução de alguns temas e comportamentos em seus quadrinhos. “Hoje eu me penitencio suavemente, porque estava inocente, com o Nhô Lau, que corria atrás do Chico Bento quando ele roubava suas goiabas com uma espingarda de sal. Na minha infância se falava isso, e se usava isso, embora ninguém tenha me dado tiro de sal. Mas nunca mais colocamos essa situação, como também nunca mais o Cebolinha pichou muro nas histórias.

Hoje, para não perder o costume, ele faz caricatura da Mônica e cola na parede. E nunca mais, nos últimos 10 anos, a Mônica apareceu batendo no Cebolinha. Ela só corre atrás dele.”

A discussão agora, na Mauricio de Sousa Produções, é se alguns desses originais serão reproduzidos ou não nas edições especiais que estão sendo preparadas pelos 60 anos. “A Disney está fazendo isso e colocando explicações sobre como era, por que era e por que não é mais. Vamos ver”, comenta o desenhista.

CAÇADAS DE PEDRINHO
Autor: Monteiro Lobato
Adaptação: Regina Zilberman
Ilustração: Mauricio de Sousa
Editora: Girassol (88 págs.; R$ 39,90)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Maria Fernanda Rodrigues
Estadao Conteudo
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