Em Sundance, Ai Weiwei conta história de estudantes desaparecidos no México

De Redação Estadão | 2 de fevereiro de 2020 | 07:00

O artista dissidente chinês Ai Weiwei já construiu uma trajetória no cinema, usando documentários para explorar questões relacionadas aos direitos humanos, opressão e violência. No Festival de Cinema de Sundance, que termina neste domingo, 2, ele apresentou sua nova empreitada nas telas, Vivos, um filme com a cara da Mostra de Cinema de São Paulo.

O filme conta os efeitos que um episódio de violência causou em famílias mexicanas desde 2014. Em setembro daquele ano, 43 estudantes da escola rural Ayotzinapa, em Iguala (a 130 km da Cidade do México), desapareceram depois que policiais e criminosos abriram fogo contra ônibus em que os garotos estavam. Outros seis morreram na hora. Os 43 desaparecidos nunca foram encontrados. Apesar de uma investigação governamental ter entregue uma suposta “verdade histórica”, o caso se tornou uma marca da impunidade no México e força motriz de um movimento criado pelos familiares das vítimas, que se reúnem na capital do país com frequência, cobrando explicações. Muitos dos pais acreditam que seus filhos ainda estão vivos.

Para eles, a versão oficial do governo anterior não condiz com a verdade e foi criada para amenizar o envolvimento de autoridades e policiais no desaparecimento, bem como para encobrir crimes contra a humanidade. A investigação oficial, realizada no governo de Enrique Pena Nieto, dizia que membros de gangues locais confessaram queimar os 43 corpos em um lixão depois de serem instruídos pela polícia a assassinar os estudantes. Mas times de especialistas internacionais, alguns dos quais presentes em Vivos, contestaram a versão após identificar diversas irregularidades no caso, incluindo confissões obtidas sob tortura, prisões ilegais e ausência de provas físicas.

A maior parte de Vivos foi filmada antes de o novo presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, criar uma nova comissão especial e reabrir a investigação. Mesmo assim, 2019 viu pouco progresso no caso.

A primeira parte do documentário, filmado por uma equipe local de cinco fotógrafos, observa com empatia a vida de várias das famílias das vítimas. O cenário é sempre desolador, e muitos dos parentes falam com tristeza absurda sobre a falta de informações e a aparente ausência de vontade política para esclarecer os fatos. Moradores de uma área rural, eles compartilham como ficaram sabendo do ataque e o que mudou em suas vidas após o incidente.
Em seguida, o filme se abre para especialistas e jornalistas que trabalharam no caso, ampliando seu espectro e fornecendo informações num formato mais clássico de documentário.

Em Sundance para a estreia do filme, Ai Weiwei conversou com o jornal O Estado de S. Paulo na recepção de um hotel em Park City. De moletom, chinelo e meias, o artista elogiou um restaurante no centro de São Paulo, e disse saber da ressonância que o filme pode ter no Brasil por conta do histórico de violência policial do País. “Bom, eu cresci na China, né?”, disse.

“Tenho uma premissa antes de fazer filmes, que é minimamente entender a cultura do lugar em que vou filmar, o que não é fácil”, explica o artista. “Então, tento definir uma tarefa antes de pular nesse rio, que pode ser muito perigoso. Crimes e impunidade, isso também acontece na China. Mas mesmo a China não permitiria uma matança desse tamanho, seria muito raro. Mas no México existe uma tolerância enorme com casos de assassinato, e eu queria muito entender por quê.”

O diretor explica que procura trabalhar com pessoas envolvidas na história, o que foi muito importante para as entrevistas com as famílias. “Não me sinto no direito de apenas chegar lá e recolher essas histórias, então o fato de ter trabalhado com organizações que acompanham o caso foi primordial para fazer esse filme”, explica. Mas ele passou um tempo no México, se informando sobre o caso e sobre o país, bem como entrando em contato com os produtores que o ajudaram a fazer o filme.

Uma versão do que pode ter acontecido, segundo um jornalista mexicano entrevistado no filme, é que os estudantes pegaram um ônibus que tinha carregamentos ocultos de heroína, com destino aos EUA. Uma advogada americana, parte da comissão de investigação do caso, chama a atenção de que o problema humanitário criado com o incidente não pertence apenas ao México, mas que os próprios americanos deveriam se preocupar mais com ele. Há 20 dias, investigadores encontraram restos mortais na região de Iguala. O resultados dos exames deve sair em dois meses.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Guilherme Sobota
Estadao Conteudo
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