Emoções felinas

De Redação Estadão | 25 de dezembro de 2019 | 07:30

Cats, que estreou no West End em 1981, foi o marco inaugural dos megamusicais, abrindo caminho para Les Misérables, Wicked e tantos outros. O espetáculo com música de Andrew Lloyd Webber ficou em cartaz por 21 anos consecutivos em Londres e 18 em Nova York. Mas sua premissa exige um esforço maior de suspensão da descrença, já que se trata de humanos vestidos de gatos que disputam um lugar no céu. Inspirado em poemas de T. S. Eliot, o musical tem um fiapo de história ligando os números. Por isso, apesar do sucesso no teatro, uma adaptação para o cinema sempre seria arriscada. Coube a Tom Hooper, vencedor do Oscar de direção por O Discurso do Rei (2010), a tarefa.

Hooper, que dirigiu também o musical Os Miseráveis (2012) e A Garota Dinamarquesa (2015), apostou em um elenco eclético. Há atores clássicos como Judi Dench, como Deuteronomy, a chefe do bando de gatos conhecido como Jellicles, e Ian McKellen, como Gus, o Theatre Cat. Idris Elba faz o papel de Macavity, o um gato criminoso, enquanto James Corden e Rebel Wilson, respectivamente Bustopher Jones e Jennyanydots, oferecem alívio cômico.

Os cantores Taylor Swift e Jason Derulo são Bombalurina e Rum Tum Tugger. Dois papéis importantes, Mr. Mistoffelees e Munkustrap, ficaram com os atores Laurie Davidson e Robbie Fairchild, que tem experiência na Broadway.

A Jennifer Hudson, coube o papel de Grizabella, a gata glamourosa que hoje vive à margem – e canta Memory, a música mais importante da obra. Bailarina principal do Royal Ballet, Francesca Hayward faz sua estreia no cinema como Victoria, uma jovem gata que se junta ao bando no início do filme e vira seu fio condutor.

Além de bailarinos clássicos como Hayward e Fairchild, há gente que veio do teatro musical e nomes como os irmãos franceses Les Twins, que têm origem na street dance e se apresentaram com Beyoncé. “Todos nos ajudamos uns aos outros”, disse Davidson em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em Londres. “Era como um caldeirão de culturas que criou algo único e empolgante.”

Os atores passaram pela “escola de gatos”, alguns por três meses. “Foi uma experiência que nunca mais vamos usar na nossa vida de novo, como álgebra”, disse Jason Derulo, em tom de brincadeira.

A preparação envolvia jogos em que os atores eram vendados, para confiar mais em seus outros sentidos, ou “estátua”. “Mas Tom Hooper não queria que imitássemos gatos. Somos humanos interpretando gatos, não estamos andando de quatro o tempo todo. Somos humanos felinos, dançando, cantando e atuando como gatos”, contou Francesca Hayward.

Rebel Wilson teve apenas duas semanas de treinamento. “Eu cheguei e pensei: ‘Ninguém está achando isso engraçado?'”, disse, rindo. “A gente tinha de cheirar e lamber o outro. Fiz algumas vezes com Sir Ian McKellen, e ele realmente estava envolvido. Chegava a rosnar para os gatos de que não gostava.”

Na hora de filmar, mais desafios: como a ideia era fazer captura de movimentos (como em O Rei Leão ou Avatar), porque o rosto e o corpo dos atores seria completado com orelhas, bigodes, pelos e rabo, tudo era feito numa roupa colante e aparatos no rosto que depois transferem os gestos e expressões faciais para um computador. “Era como estar nu na frente dos outros todo dia”, descreveu Derulo.

Rebel Wilson disse ter perdido mais de três quilos nos quatro dias que levou para filmar seu principal número (que envolve ratos e baratas numa cozinha) por causa do calor da roupa e do set. Fairchild contou que o aquecimento era feito com polichinelos e flexões de braço enquanto cantavam. “Assim ficávamos acostumados ao esforço físico sem que afetasse a voz.” A maior parte dos cenários foi construída em escala gigante para tentar se aproximar às proporções dos gatos. Todos os números musicais foram filmados ao vivo.

Para Jennifer Hudson, o maior desafio foi cantar Memory tomada após tomada, 35 vezes no total. “Vocalmente não foi problema para mim, mas a emoção era realmente exaustiva. Cheguei a tirar um cochilo em pleno set”, disse a atriz. Francesca Hayward, que nunca tinha cantado em público, ficou com a missão de defender a única canção original do filme, Beautiful Ghosts, composta por Taylor Swift e Lloyd Webber.

A escolha de fazer um misto de humanos e gatos com ajuda dos efeitos especiais foi o principal alvo das críticas quando saíram os trailers. “Teve um pequeno filme chamado Avatar que despertou o mesmo tipo de reação. Toda vez que algo é diferente, a resposta é extrema”, ironizou Rebel Wilson.

O filme estreou na sexta-feira, dia 20, nos Estados Unidos, sob uma chuva de críticas negativas, mas engraçadas. Nas sessões, as pessoas cantam, dançam e interagem com o longa. Depois que o filme já estava em cartaz, houve uma atualização dos efeitos especiais (que ainda não estavam finalizados na sessão de imprensa em Londres, menos de dez dias antes da estreia).

O longa parece que não vai ter o mesmo sucesso da peça, já que arrecadou apenas US$ 6,5 milhões no primeiro fim de semana americano, ficando em quarto lugar na lista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Mariane Morisawa – Especial para a AE
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