Entre risos e reflexão

De Redação Estadão | 31 de janeiro de 2020 | 07:00

A mistura de nazismo e Holocausto com comédia costuma ser indigesta para muitos. A Vida É Bela, de Roberto Benigni, sobre um pai que transforma o campo de concentração numa experiência lúdica para o filho, na tentativa de protegê-lo, recebeu muitas críticas, mesmo tendo ganhado três Oscars. Não foi diferente com Jojo Rabbit, de Taika Waititi, que estreia na quinta-feira, 6.

O ator e diretor neozelandês, famoso por fazer comédias como O Que Fazemos nas Sombras e, claro, Thor: Ragnarok, usou o mesmo princípio em seu novo filme, que ganhou o cobiçado prêmio do público no último Festival de Toronto e concorre a seis Oscars, incluindo o de melhor filme. “Sinto muito” é a resposta do cineasta a quem critica o uso do humor para falar de assunto tão trágico. “Não é meu estilo. Nunca vou fazer um drama puro”, disse Waititi em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em Londres. “Mas também não é uma ideia nova. Chaplin fez O Grande Ditador durante a guerra. Há uma tradição de satirizar ditadores e regimes que focam no ódio e na intolerância e espalham essas ideias vingativas.”

Jojo Rabbit é inspirado no livro de Christine Leunens O Céu Que nos Oprime, que chega agora ao Brasil, sobre um menino alemão, Johannes (interpretado no filme por Roman Griffin Davis), o Jojo, que integra a Juventude Hitlerista como se fosse um clube de escoteiros. Um dia, ele descobre que uma menina judia, Elsa (Thomasin McKenzie), está escondida em sua casa. No filme, sua mãe, Rosie (Scarlett Johansson, que concorre ao Oscar de atriz coadjuvante), membro da resistência aos nazistas e que cuida de Jojo sozinha, protege Elsa. “Ela teme por sua vida, pela vida de seu filho, nada faz sentido.

Perdeu muitos amigos, não sabe qual vai ser seu futuro e o do menino”, disse Johansson. Em geral, ela tenta manter alguma leveza em meio à guerra, sem fechar os olhos de Jojo para os horrores a sua volta. Mas não é fácil. “Às vezes ela olha para o filho e vê nele tudo o que odeia”, afirmou a atriz.

O pequeno Roman Griffin Davis, de 12 anos, tinha conhecimento do nazismo, do Holocausto e da 2ª Guerra, mas não da Juventude Hitlerista. “Foi chocante ver como eles sofriam uma lavagem cerebral e se viravam contra seus pais.”

Taika Waititi descobriu o livro cerca de oito anos atrás por meio de sua mãe, que, como Rosie, criou o filho sozinha. “Ela fez muitos sacrifícios, mas também era meio palhaça e tentava tornar meu mundo mais leve, meio na linha do Roberto Benigni.” Quando leu, lembrou da Guerra da Bósnia, que acompanhou quando era adolescente. “Lembrava da intensidade das atrocidades e também de que vizinhos estavam atacando vizinhos”, contou o diretor.

Mais ou menos na mesma época que o romance veio parar em suas mãos, ele se tornou pai pela primeira vez. “As crianças nos veem como guias, entidades em quem podem confiar. Somos responsáveis por alimentá-los, formá-los e ensiná-los a ser pessoas decentes. Mas, quando há uma guerra, tudo fica diferente. Todos agem como lunáticos, e nada mais faz sentido.” Por isso, acredita que a mensagem do filme é mais para adultos do que para crianças.

Uma das coisas que ele mudou foi incluir o próprio Adolf Hitler – ou, na verdade, a visão que Jojo tem dele. “É o papel que eu nasci para interpretar. Olhe bem para mim”, contou Waititi fazendo piada, em referência a sua ascendência judaico-russa por parte de mãe e maori do lado do pai.

“Não queria uma celebridade fazendo o papel para não tirar a atenção do que é importante, a relação de Jojo com sua mãe e com Elsa, que vira sua visão de mundo de cabeça para baixo. Mas foi embaraçoso interpretá-lo, me vestir daquela maneira – pior ainda ter de dirigir o filme metido naquela caracterização. Não fiz nenhuma pesquisa, porque acho que ele não merece. E também porque ele é fruto da imaginação de um menino de 10 anos, então resolvi fazê-lo como um menino de 10 anos.”

Os monitores da Juventude Hitlerista e os oficiais nazistas, interpretados por Sam Rockwell, Rebel Wilson, Stephen Merchant e Alfie Allen, oferecem momentos de pura comédia pastelão, uma tentativa de expor o absurdo daquelas ideias. Waititi sabia que o tom pendendo para a comédia poderia causar controvérsia. Por isso, se disse “aliviado” com a reação das plateias em Toronto e as indicações para o Oscar – e, certamente, com o endosso de um dos reis do gênero, Mel Brooks, que fez Primavera para Hitler. Mas Waititi não reclama do politicamente correto. “A comédia continua melhorando. Quando eu era criança, ria de coisas que hoje estão datadas. Então precisamos procurar novas formas, e a comédia sempre vai evoluir. Mas não sei se sou muito ‘woke'”, disse, usando a palavra que define alguém consciente das mudanças mais inclusivas da sociedade.

Ele sabe, porém, que desde que começou a pensar em fazer Jojo Rabbit, as coisas mudaram muito no mundo. “Não havia tantos nazistas naquele momento”, lembrou Waititi. “Existe uma ascensão de neonazistas e grupos de ódio e intolerância. Então é mais relevante do que nunca, mas essa não era a intenção inicial.”

Uma pesquisa recente revelou que 66% dos millennials não sabem o que foi o campo de extermínio de Auschwitz, que teve os 75 anos de sua libertação lembrados no dia 27. “Muita gente acha que já basta de tratar de nazismo e 2ª Guerra no cinema. Mas essas pesquisas obviamente são prova do contrário, de que não estamos fazendo o suficiente. Temos de continuar a falar disso. Mas fazer o mesmo filme toda hora deixa as pessoas amortecidas. Na minha opinião, se precisarmos colocar algumas piadas e um amigo imaginário para tentar trazer o assunto à tona e atrair alguns espectadores, que seja.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Mariane Morisawa, especial para o Estado
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