Epopeia apaixonante

De Redação Estadão | 9 de março de 2020 | 10:05

Tudo começou com a canção Língua Brasileira, do álbum Imprensa Cantada (2003), de Tom Zé – versos como “Quando me sorris / Visigoda e celta / Dama culta e bela / Língua de Aviz” inspiraram o diretor Felipe Hirsch e o coletivo Ultralíricos a enfrentar um desafio: desbravar a epopeia dos povos que formaram a língua falada no Brasil, com seus mitos e cosmogonias, desde as remotas origens ibéricas, passando por romanos, bárbaros e árabes, pela África e América Nativa até chegar aos dias de hoje. “Tornou-se uma epopeia poética e a canção de Tom Zé teve uma influência decisiva”, comenta Hirsch, que finaliza a peça Língua Brasileira, um passeio pelo inconsciente do Português Brasileiro com suas graças e tragédias, e que estreia no dia 19, no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação.

O espetáculo terá trilha sonora criada por Arthur de Faria, mas também contará com duas canções especialmente compostas por Tom Zé. A primeira, Hy Brasil, foi recebida por Hirsch e o elenco (Amanda Lyra, Caco Ciocler, Danilo Grangheia, Fernando Catatau, Georgette Fadel, Laís Lacorte e Pascoal da Conceição) na semana passada, causando um impacto – em seu característico estilo experimental, Tom Zé partiu do mito irlandês sobre uma misteriosa ilha para criar uma canção que se quebra em diversos ritmos e que traz versos como “Uma ilha sem fuzil / Sem ba ba ba ba bala civil”.

Essa nova criação mantém a lógica da canção Língua Brasileira que, segundo o poeta e crítico Carlos Rennó, “é a culminância poética de toda uma obra” e traz “um olhar cheio de densidade e profundidade dirigido para o que somos e para o processo que nos levou a nos tornar o que somos, em versos elaborados com cuidado formal”.

“Tom Zé foi nosso ponto de partida para um espetáculo que mostre tanto a exuberância da origem da língua portuguesa como sua ação nociva, de contribuir para a extinção de outras – atualmente, no Brasil, cerca de 190 idiomas (a maioria indígenas) estão em vias de acabar. Algumas sobrevivem graças à existência de apenas uma pessoa que a domina. É o encontro do esplendor com a sepultura”, continua Hirsch que, em sua viagem linguística, contou com a colaboração de diversos pesquisadores para estruturar o espetáculo.

A começar pelo escritor e tradutor Caetano Galindo, com quem o encenador mantém conversas diárias sobre as diversas interferências que ajudaram a moldar a língua hoje falada no Brasil. “Uma das coisas que a gente está sondando são os substratos mais distantes da formação do português na Europa, desde bem antes do latim”, conta Galindo, em seu blog. Ele confessa seu fascínio, por exemplo, pelas palavras que resistiram a séculos de tentativas de modificação, mas que continuam da mesma forma nos dias atuais.

São as que ele chama de “palavras-guerreiras”, que sobreviveram às ondas de invasores na Península Ibérica e chegaram ao outro lado do oceano, no Brasil. “Algumas das palavras que empregamos todo dia dão demonstrações impressionantes de resiliência”, escreve Galindo, citando “sapo” e “barro”.

O espetáculo vai começar com um prólogo, Cosmogonia, que vai tratar de tudo o que existia em terras ibéricas e brasileiras antes do surgimento da ideia de nação – o momento será marcado pela execução de Nave Maria, canção que Tom Zé lançou em 1984 e que relata a experiência do nascimento como algo traumático. Começa, em seguida, o primeiro ato intitulado Península Ibérica, em que o latim vulgar dá indícios do que se tornará o idioma brasileiro.

“São três momentos, em que destaco o grafiteiro Kadu Ori”, conta o encenador, referindo-se ao rapaz que, em 2016, pichou um dos símbolos do Rio de Janeiro: o relógio da Central do Brasil. “Sem entrar na questão do crime, a frase que ele pichou, ‘Nossa pátria está onde somos amados’, se conecta com o pensamento do espetáculo.”

Outro momento expressivo e que foi incorporado à peça foi a ocupação que índios guaranis fizeram no Pico do Jaraguá, em 2017, em protesto pela revogação de uma portaria que dava a eles a posse de uma porção de terra. Foram três dias de tensão. “Os índios ocuparam as torres de transmissão de energia e ameaçaram desligar uma antena de comunicação de trens”, relembra Hirsch. “Novamente, uma ação de urgência para que os índios pudessem sobreviver independente do que acontece no momento atual.”

O segundo ato vem em seguida, privilegiando as navegações, centralizadas em um dos maiores textos em língua portuguesa, Os Lusíadas, de Camões. “É onde queremos sentir o mar, pois foram as viagens de navios que trouxeram o sotaque até o Brasil.”

Até a chegada do oitavo e último ato, Língua Brasileira passeia ainda por diversas línguas que interferiram diretamente na construção do português, como o tupi, africanas como o bantô e iorubá, até chegar aos dias atuais, quando predominam a polifonia e também a selvageria. “Será um contraponto à famosa frase de Fernando Pessoa, ‘Minha Pátria é minha língua'”, observa Hirsch, que abre espaço para as novas imigrações que carregam sua própria poética e que trouxeram, por exemplo, o rap.

A pesquisa para a peça reuniu a colaboração preciosa de especialistas como Ieda Maria Alves, Mamede Jarouche e Eduardo Viveiros de Castro, entre outros. E, o texto dramatúrgico, envolveu ainda Vinicius Calderoni.

Ubiratan Brasil
Estadao Conteudo
Copyright © 2020 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.

Deixe um comentário