Esperança de mais vacinação

De Redação Estadão | 21 de janeiro de 2021 | 07:51

Enquanto Joe Biden se preparava para fazer seu discurso de posse em Washington, o americano Kaushal Challa recebia sua segunda dose da vacina contra o coronavírus em Nova York. Challa sabe que é um privilegiado: está entre os 0,5% da população americana que já recebeu a imunização completa, mas está esperançoso de que, com o novo governo, essa realidade possa chegar mais rapidamente a todo o país.

“Estou muito otimista que essa nova administração possa nos ajudar nos esforços de vacinação. Essa é a coisa mais importante que podemos fazer agora”, diz Challa, que está na faixa dos 40 anos e entrou para o grupo prioritário porque trabalha como diretor no centro comunitário de saúde Charles B. Wang, em Chinatown.

Enquanto o ex-presidente Donald Trump desafiava os protocolos de saúde, resistindo ao uso de máscaras e tendo inicialmente recomendado tratamentos sem comprovação científica, como a hidroxicloroquina, Biden prometeu fazer do combate ao coronavírus uma bandeira nacional. Antes mesmo da posse, o presidente eleito anunciou um ambicioso plano para enfrentar a pandemia, prometendo investir US$ 1,9 trilhão (R$ 10,8 trilhões) num pacote emergencial para combater os efeitos sociais e econômicos da pandemia e vacinar 100 milhões de americanos nos primeiros cem dias de seu governo.

Até agora, os Estados americanos receberam 31 milhões de doses, mas apenas 39% foram efetivamente aplicadas. Questões de logística e regulações específicas de cada Estado são um dos entraves apontados por especialistas para a lentidão na distribuição, e existem dúvidas de quão realista é a nova meta de vacinação enquanto ainda há oferta restrita de doses pelos laboratórios fabricantes.

Challa sabe disso. Nas quatro unidades do centro de saúde onde trabalha, por exemplo, as 2 mil vacinas recebidas do Estado para distribuição entre os pacientes já acabaram e eles esperam uma nova remessa para a próxima semana. “Temos recebido milhares de ligações, a demanda até agora está centenas de vezes maior do que a oferta”, calcula.

Por causa disso, os corredores da clínica ontem estavam vazios, e um cartaz na portaria informava que não havia mais doses disponíveis – as últimas foram reservadas para os funcionários. Mesmo assim, é a mudança de tom do novo governo o que o enche de esperança. “É muito bom ver um governo se pautando pela ciência, pelos fatos”, comemora Challa, sorrindo com os olhos atrás da máscara.

Óbitos

Mais de 400 mil americanos já morreram em consequência da covid-19 e Nova York é o Estado americano que acumula mais perdas, com 41 mil mortes. A situação contribuiu para azedar ainda mais as relações do ex-presidente Trump com sua terra natal, em meio a embates com o governador Andrew Cuomo e com o prefeito Bill de Blasio, ambos democratas. Em meio à politização da pandemia, as campanhas de desinformação ganharam fôlego entre os americanos, e os mitos sobre a vacinação também. Challa observa que alguns pacientes ainda chegam desconfiados, temerosos de que a vacina poderia provocar a doença. “É impossível a vacina provocar a doença, mas eles chegam perguntando mesmo assim.”

Já na política da pandemia, os efeitos colaterais levarão tempo para serem sanados, como Biden reconheceu em seu discurso de posse. “Há muito a ser curado”, disse ele. As palavras de Biden foram transmitidas ao vivo no mundo inteiro, mas a imigrante mexicana Miriam Aguilar, 30 anos, não acompanhou o discurso. Em vez disso, saiu com o filho de nove meses no colo para fazer um teste de covid no hospital Bellevue, em Manhattan. “Meu marido testou positivo”, preocupava-se, diante da fachada envidraçada do hospital, decorada com cartazes vermelhos em homenagem aos profissionais da saúde: “Aqui trabalham heróis”.

Miriam mora nos Estados Unidos há 17 anos, mas ainda não sabe quando a vacina vai chegar até ela e seu filho, nascido nos EUA. Também se preocupa com seu status migratório, alvo de acalorados debates no país. Biden já anunciou um plano para facilitar a regularização de imigrantes sem documentos como ela. Mas Miriam aprendeu a desconfiar de políticos.

“Quero ver se ele vai cumprir tudo o que está prometendo”, disse. “O outro presidente também tinha prometido várias coisas, e não fez nada”, emendou antes de sair apressada para buscar a carona que a levaria para casa. “Mas quem sabe esse novo vai ajudar, né?”, torce.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Letícia Duarte, especial para o Estadão
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