Exposição reúne obras do húngaro Kazmer Fejer e do austríaco Lothar Charoux

De Redação Estadão | 7 de novembro de 2020 | 07:43

A arte concreta brasileira conseguiu um posto singular na história – tanto aqui como lá fora. Coleções particulares importantes (como a da venezuelana Patricia Cisneros) ou institucionais (o MoMa, por exemplo) não abrem mão de ter em seus acervos obras concretas aqui produzidas, tanto por brasileiros como por estrangeiros que fixaram residência no Brasil, caso do húngaro Kazmer Fejer (1923-1989) e do austríaco Lothar Charoux (1912-1987), ambos integrantes do grupo Ruptura (1952), embrião do movimento concreto brasileiro. Eles são homenageados agora com uma exposição aberta até o dia 27 na Galeria Berenice Arvani, Diálogo Concreto – Kazmer Fejer e Lothar Charoux: Virtualidades Ópticas.

O curador da mostra, João J. Spinelli, justifica o título, que une dois movimentos separados por algumas décadas, o concreto – cujas bases foram formuladas por Theo van Doesburg nos anos 1930 e popularizado no Brasil com a vinda do suíço Max Bill, em 1950 – e a arte op, que explora as ilusões óticas e atingiu o auge nos anos 1960. “Tanto Fejer como Charoux se aproximaram da op art acidentalmente”, argumenta Spinelli, que teve trabalho para reunir obras dos dois numa exposição certamente inscrita entre as melhores do ano.

Fejer, avesso à ditadura militar, voltou para a Europa nos anos 1970 e deixou poucos trabalhos aqui – sua produção, além disso, foi pequena. Charoux ficou, mas foi vítima de falsificadores. As obras autênticas são muito disputadas e chegam a custar o dobro (até R$ 400 mil) de uma peça de Fejer (preço médio de R$ 200 mil).

Todas as obras na mostra estão à venda. Algumas participaram de exposições lá fora, como a pintura Horizontais (óleo sobre madeira da década de 1960), de Charoux, que ilustra esta página e esteve na mostra Sensitive Geometries da Hauser & Wirth (Nova York) em 2013. Ou uma escultura em plexiglass da década de 1970 de Fejer, selecionada para a mostra Ruptura do NY Project (Nova York) em 2017.

‘É interessante como a trajetória dos dois é semelhante”, aponta o curador Spinelli, lembrando que Fejer, após uma breve passagem pela França, em 1946, chegou ao Brasil em 1949, fixando residência em São Paulo e trabalhando como químico. Charoux veio bem antes. Aportou aqui em 1928 com apenas 16 anos, trabalhando como vendedor. Em ambos os casos, a arte não garantia o sustento dos artistas. “Os colecionadores – e também alguns críticos – eram bastante conservadores e a arte concreta, em particular, encontrou resistência”, lembra Spinelli, citando dois nomes influentes no mundo das artes que ajudaram a mudar esse panorama, os críticos Mário Pedrosa e Walter Zanini.

Pedrosa elogiou a “precisão” do desenho de Charoux, chamando a atenção para o uso da Gestalt na arte do austríaco para produzir no espectador uma mudança de percepção fisiológica por meio de uma rigorosa sucessão de linhas e diferentes ritmos visuais. As formas geométricas de Fejer, a utilização de planos recortados e a construção artesanal de suas esculturas em plexiglass também impressionaram Zanini. “Tudo em Fejer era matematicamente pensado”, observa o curador, lembrando que, na época em que essas obras foram produzidas, “ele não contava com os recursos tecnológicos que hoje permitem fazer esculturas como as dele em minutos”.

Fejer, ao revelar seu processo criativo, disse que arranjava os elementos de suas obras tridimensionais em papelão ou cartolina, calculando de forma meticulosa a distância e as medidas das placas para forjar sequências rítmicas que hoje seriam facilmente projetadas por computadores – e diversas obras de arte contemporânea em 3D se parecem com essas peças em plexiglass do artista húngaro que, além de tudo, foi um inventor: em 1976, segundo Spinelli, ele tornou-se detentor de uma patente mundial de um sistema de coloração de plástico.

Lothar Charoux, a exemplo de Kazmer Fejer, começou sua carreira como pintor expressionista. Em ambos os casos, essa passagem pelo expressionismo foi rápida demais para deixar marcas. O abstracionismo era mais atraente – e, no caso de Charoux, teve um peso considerável após sua primeira exposição, em 1947, quando ainda apresentou telas figurativas. Um ano depois, a herança do construtivismo pesou mais que a expressionista, a ponto de participar, em 1952, da fundação do grupo Ruptura ao lado de Waldemar Cordeiro e Geraldo de Barros.

A exposição tem obras da época, como desenhos em nanquim sobre cartão que organizam o campo visual de maneira ortodoxa. Para Walter Zanini, seu papel na evolução do movimento concreto foi decisivo. Muito antes da máxima minimalista – “menos é mais” – Charoux já havia escolhido a limpeza formal e o contraste gráfico entre o branco e preto como seus guias, explorando fenômenos óticos como a refração luminosa e a vibração cromática.

“Embora algumas peças da exposição sejam da década de 1950, ou seja, da época do grupo Ruptura, é possível afirmar que, tanto no caso de Fejer como de Charoux, ambos produziram obras atemporais”, diz o curador. “Na verdade, são duas exposições individuais numa só mostra”, observa Spinelli, concluindo que o espectador desempenha um papel importante no jogo relacional entre a obra tridimensional de Fejer e a bidimensional de Charoux. Esse tênue fio que separa essas dimensões é superado pelo olho desse espectador: em busca do equilíbrio, ele encontra dois grandes artistas que ainda provocam o olho com a criação de espaços virtuais e uma poética desafiadora (e concreta) que resiste ao tempo.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Antonio Gonçalves Filho
Estadao Conteudo
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