Falta de água e racionamento de comida atingem AP após o apagão

De Redação Estadão | 6 de novembro de 2020 | 15:05

Há quase três dias sem energia elétrica no Amapá, moradores de Macapá têm relatado falta de água, de alimentos e até a impossibilidade de compra para itens básicos. Sem uma previsão concreta de quando a situação deve se normalizar, a população começa a se organizar para uma manifestação no próximo domingo, 8, para cobrar uma posição dos governantes, enquanto se vira para ter o básico.

A historiadora Marcella Viana, de 27 anos, conta que está recebendo amigos de todas as regiões de Macapá na quitinete de dois quartos que ela divide com a mãe, de 50 anos, e as irmãs, de 8 e 20. “A circulação de pessoas lá está alta porque tenho muitos amigos que moram sozinhos e estão sem ter como comer ou tomar banho e minha mãe ajuda eles”, relata.

Ela se refere a um restaurante no centro da cidade, que funciona por gerador e onde ela tem ido desde a última quarta-feira para carregar o celular e tentar divulgar a situação do Estado.

Além disso, Marcella explica que algumas pessoas têm recorrido a lagos, poços e ao Rio Amazonas, onde recolhem água tanto para o banho como para beber, mesmo que ela não seja potável.

Para quem mora nas comunidades mais afastadas, os baldes e litros de água fluvial podem custar até R$ 20 para o transporte. Nos supermercados, o galão com um litro da água mineral já chega a custar R$ 35, e mesmo assim não é suficiente para toda a população. Na noite de quinta-feira, a Prefeitura de Macapá começou a distribuir caminhões pipa para abastecer algumas regiões da capital.

“Eu só saio de casa atrás de sinal depois que já consegui água e comida pra minha família. Ontem ainda consegui comprar água, hoje consegui baldes que as pessoas recolheram com o que caiu da chuva na véspera”, conta ela.

Os poucos supermercados que ainda estão vendendo água, ela explica, já começaram a racionar a venda por pessoas. “Mas a compra está sendo diária porque não tem gelo na cidade também então as pessoas não têm onde armazenar.”

Morando no bairro de Novo Buritizal, a estudante Cássia Riane Amanajas Cordeiro, de 14 anos, conta que ainda não viu nenhum dos caminhões pipa disponibilizados pela Prefeitura na área onde reside com os pais. “Estamos sem água também, até para beber. Os caixas eletrônicos não estão funcionando, então está difícil até de comprar comida, pois nem todos os comércios aceitam cartão de crédito”, relata.

Desde que a energia elétrica caiu na cidade, a família tem conseguido o mínimo de água por meio dos parentes e vizinhos próximos que têm poços.

O advogado Hélio Castro, de 34 anos, está ajudando a organizar o “Reacende Amapá”, protesto marcado para as 16h do domingo,na Praça da Bandeira, em Macapá. O objetivo é reunir a população vestida de preto, para simbolizar a falta de energia que assola o Estado há três dias e, simultaneamente, impedir que o ato seja tomado por bandeiras políticas. “Nossa única bandeira é a do Amapá”, afirmaram os membros do grupo.

Castro e os pais, os funcionários públicos Gersuliano da Silva e Ana Célia Pinto, de 63 e 55 anos, estão conseguindo tomar banho com a água da chuva que ficou retida na piscina. “Não tem como salvar os alimentos porque a geladeira não funciona e não temos gerador. A água da torneira parou de cair no primeiro dia de apagão”, explica, contando que alguns amigos também conseguiram recolher a água que caía das calhas nos dias anteriores.

A reportagem tentou contato com a Secretaria de Saúde do Estado e de Macapá, assim como as assessorias do município e do Estado do Amapá, mas não obteve sucesso.

João Ker
Estadao Conteudo
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