Filme cubano 'À Meia Voz' vence o Cine Ceará 2020

De Redação Estadão | 12 de dezembro de 2020 | 14:56

À Meia Voz, das cubanas residentes na Europa Patrícia Pérez Hernández e Heidi Hassan, venceu a 30ª edição do Cine Ceará. O longa recebeu também o Troféu Mucuripe de melhor montagem. Trata-se de um filme original e focado na subjetividade de duas mulheres cineastas. Subjetividade não quer dizer que não tragam o mundo real na textura da obra. Muito pelo contrário. O encontro entre o mundo real e o indivíduo que o experimenta (e sofre) está literalmente todo lá. Em especial, na decisão das duas amigas de saírem de Cuba e instalarem-se em países diferentes da Europa.

À Meia Voz narra a saga de todo imigrante sem papéis, impossibilitado de alugar um apartamento, abrir uma conta bancária e, sobretudo, trabalhar. Para conseguir um visto de permanência na União Europeia, é preciso provar que está trabalhando. Para trabalhar, exige-se o visto. E assim se fecha o círculo kafkiano que tolhe os movimentos do indivíduo e o joga numa clandestinidade inevitável. Todo o processo é familiar a quem um dia se aventurou pelo mundo na condição de emigrante e não de turista.

Mas a obsessão em continuar filmando, mesmo em condições as mais difíceis, fornece uma espécie de diário audiovisual da experiência europeia, que está na origem do filme. Sem dúvida bem montado para, desse material, tirar uma narrativa coerente. Prêmio de montagem, por isso, também merecido.

A sólida ficção chilena Branco no Branco recebeu quatro troféus, entre eles o importante prêmio de direção para Théo Court. História ambientada na virada do século 19 para o 20, com colonizadores dizimando indígenas para estabelecer propriedades na gélida região da Terra do Fogo chilena. O grande ator chileno Alfredo Castro interpreta o profissional enviado para a região com o fim de fotografar um estranho casamento entre um adulto e uma criança. Lá instalado, Pedro terá oportunidade de registrar fatos ainda mais estranhos, se o termo cabe na trágica história da colonização.

O documentário Era uma Vez na Venezuela ganhou os prêmios de roteiro e fotografia. Dirigido por Anabel Ríos, e indicado para representar seu país no Oscar, é testemunho da vida sacrificada dos habitantes de um povoado da parte sul do Lago Maracaibo. Há uma leitura política também, na medida em que os habitantes mostram-se, em sua maioria, devotos da imagem de Hugo Chávez, mas talvez mostrem o mesmo fervor pelo presidente atual, Nicolás Maduro.

O brasileiro A Morte Habita a Noite deu o troféu correspondente ao seu ator principal, Roney Villela, um veterano que recebeu o prêmio com grande emoção. Como ele lembrou no agradecimento (e também no debate), Roney já havia participado de dezenas de filmes, sempre coadjuvante. Em A Morte Habita a Noite é o protagonista, Raul, uma espécie de Bukowski tropical, errando pela noite do Recife.

OS PREMIADOS

LONGA IBERO-AMERICANO:

– “A Meia Voz”, de Patricia Pérez Hernández e Heidi Hassan (Cuba, Espanha) – melhor filme, montagem (Heidi Hassan, Patricia Pérez e Diana Toucedo)

– “Branco no Branco”, de Theo Court (Chile) – melhor direção, trilha sonora (Jonay Armas), direção de arte (Amparo Baeza) e som (Carlos García)

– “Era Uma Vez na Venezuela”, de Anabel Rodríguez Ríos – melhor roteiro (Anabel Rodríguez Ríos e Sepp Brudermann), fotografia (John Márquez), Prêmio da Crítica-Abraccine

– “As Boas Intenções”, de Ana García Blaya (Argentina) – melhor atriz (Amanda Minujín)

– “A Morte Habita à Noite”, de Eduardo Morotó (Brasil) – melhor ator Roney Villela

CURTA-METRAGEM BRASILEIRO:

– “Não Te Amo Mais”, de Yasmin Gomes (Ceará) – melhor filme

– “A Volta para Casa” (São Paulo): Diego Freitas (melhor direção)

– “A Beleza de Rose”, de Natal Portela – melhor roteiro, Troféu Samburá de melhor direção

– “O Barco e o Rio” (Amazonas” – Prêmio da Crítica-Abraccine, Prêmio Samburá de melhor curta-metragem

– “5 Estrelas”, de Fernando Sanches – Prêmio Aquisição Canal Brasil

MOSTRA OLHAR DO CEARÁ

– “Cabeça de Nêgo”, de Déo Cardoso – melhor filme

– “Noite de Seresta”, de Sávio Fernandes e Muniz Filho – melhor direção, Prêmio Unifor de Audiovisual

– “Terceiro Dia”, de Jéssica Queiroz – Prêmio Olhar Universitário

– “Rio de Vozes”, de Andrea Santana e Jean-Pierre Duret – Prêmio Enel de Sustentabilidade

– “Trajetória”, de José Walter Brilhante Júnior – Prêmio Cagece na Mostra Hábitos.

Luiz Zanin Oricchio
Estadao Conteudo
Copyright © 2020 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.