Heroísmo da vida real

De Redação Estadão | 18 de fevereiro de 2020 | 07:00

Com o sucesso de Pantera Negra e Creed – Nascido para Lutar, Michael B. Jordan conquistou uma certa posição em Hollywood. Pois ele decidiu usar seu cacife para contar, em Luta por Justiça, que estreia na quinta, 20, a história de Bryan Stevenson, um advogado que, formado em Harvard, decidiu ir para o Alabama, um dos Estados americanos mais pobres, para defender pessoas no corredor da morte. Em seus mais de 30 anos de atuação, Stevenson conseguiu libertar centenas de acusados injustamente ou diminuir suas penas, chamando a atenção para a assistência jurídica inadequada e preconceituosa a pessoas pobres no país, que prejudica principalmente homens jovens negros.

“Colocamos muito tempo, esforço, sangue, suor e lágrimas para contar sua história direito”, disse Michael B. Jordan em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em Nova York. “É muito importante ver um homem negro salvando outro homem negro”, afirmou o ator. Jamie Foxx, que também estrela o filme, disse que esse é seu trabalho mais importante. “Serei eternamente grato a Michael B. por me dar a oportunidade de reconquistar minha integridade artística.”

O filme, baseado no livro do próprio Stevenson e dirigido por Destin Daniel Cretton (Temporário 12, O Castelo de Vidro), mostra como o advogado apaixonou-se pela causa quando ainda era estagiário e tomou a decisão de defender pessoas que ninguém mais queria defender, mesmo tendo a possibilidade de conseguir um belo emprego depois de cursar a Faculdade de Direito de mais prestígio dos EUA. Decide se instalar em Montgomery, Alabama, palco de muitos marcos da luta pelos direitos civis nos anos 1960, como a ação de Rosa Parks contra a segregação racial nos ônibus, e com uma população mais de 50% negra. Brie Larson interpreta sua assistente, Eva Ansley.

Os principais casos mostrados no filme são os de Walter McMillian (Foxx), mandado para o corredor da morte pelo estupro de uma jovem branca, e Herbert Richardson (Rob Morgan), que matou uma menina ao plantar uma bomba na varanda da ex-namorada. Ao investigar os casos, Stevenson descobriu falhas graves. McMillian foi colocado no corredor da morte antes mesmo de seu julgamento, inúmeras testemunhas não foram ouvidas, e um outro preso, Ralph Myers (Tim Blake Nelson), foi pressionado a acusá-lo. Richardson de fato colocou uma bomba na varanda da ex-namorada, mas a morte da menina não estava em seus planos, e seus traumas por ter lutado no Vietnã não foram levados em conta. “Minha ideia é que, ao ver sua interpretação, cada espectador se pergunte se, naquelas circunstâncias, a pessoa realmente merecia tal punição”, disse Morgan. “Como Bryan diz, não podemos ser definidos apenas pelo nosso pior ato.”

O problema é que o sistema não é 100%. “Como Bryan diz, se a gente soubesse que, a cada dez maçãs de uma cesta, uma causa a morte, ninguém poderia vender maçãs neste país”, disse Michael B. Jordan. E, no entanto, os dados hoje mostram que, a cada dez condenados à morte, um é inocente. “Quando o sistema for 100%, podemos ter essa discussão. Até lá, a pergunta não é se eles merecem morrer, mas se nós temos o direito de matar.”

Como homens negros nos Estados Unidos, Michael B. Jordan, Jamie Foxx, Rob Morgan e Bryan Stevenson sabem que o sistema não os favorece. “Outro dia mesmo, fui pedir panquecas e a atendente me perguntou se eu poderia pagar”, contou Jamie Foxx. Pouco depois de defender um caso diante da Suprema Corte, Stevenson foi advertido num tribunal, confundido com o acusado. “Aconteceu muitas vezes. Daí tenho de me desculpar por não ter me apresentado ao juiz.”
Segundo dados de julho de 2019, 41,68% dos presos no corredor da morte eram negros, sendo que eles são 12,3% da população nos EUA. Por causa do preconceito racial evidente, o governador da Califórnia, Gavin Newson, anunciou a suspensão da pena de morte no Estado.

Stevenson deixa claro que não é contra a punição. “Mas meu argumento é de que devemos punir de forma justa, tendo em mente sempre a tentativa de misericórdia e redenção, dando a oportunidade para que aquela pessoa se recupere, ao mesmo tempo que promovemos a segurança pública.”

Mesmo tratando de um tema tão urgente e difícil quanto a pena de morte, Luta por Justiça não pesa a mão para fazer ninguém se emocionar. A ideia é provocar reflexão e também inspirar. “Queremos que as pessoas saiam do cinema pensando em como podem ajudar”, afirmou Michael B. Jordan. É o que Brie Larson tirou da experiência. “Bryan fala muito sobre esperança. E ela é a fundação desse longa, porque temos de acreditar num futuro melhor para trabalhar em direção a ele. O desespero e a desesperança não levam a nada.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Mariane Morisawa, especial para o Estado
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