'Little America' trata, com sensibilidade, de histórias de imigrantes nos EUA

De Redação Estadão | 6 de maio de 2020 | 08:00

Kumail Nanjiani estava um pouco cansado das histórias de imigrantes que via na televisão e no cinema. E ele fala com conhecimento de causa: antes de ser Dinesh em Silicon Valley, concorrer ao Oscar com sua mulher, Emily V. Gordon, pelo roteiro de Doentes de Amor e virar super-herói da Marvel em Os Eternos, que estreia em fevereiro de 2021, ele foi do Paquistão para os Estados Unidos para cursar faculdade.

“Minha experiência como imigrante obviamente é muito diferente daquela de outras pessoas. Mas parece haver apenas um tipo de história com imigrantes em filmes e séries”, disse o ator em entrevista exclusiva ao jornal O Estado de S. Paulo, referindo-se àquelas de terrorismo, crime, preconceito, pobreza e abusos. “Elas têm valor e devem ser contadas, mas há outras também.” Por isso, os dois toparam na hora participar do projeto Little America, da Apple TV+. A primeira temporada da série, em oito episódios, está aberta mesmo para não-assinantes no aplicativo da Apple TV, junto com Servant, de M. Night Shyamalan, For All Mankind, que explora uma história alternativa em que a União Soviética chegou primeiro à Lua, e a moderninha Dickinson, inspirada na vida da poeta Emily Dickinson, entre outras.

Little America é perfeita para assistir nesses tempos de isolamento social. Sem ser superficial, a série traz episódios que deixam o coração quentinho. “Nós sempre procuramos esperança. Não queremos falar de terroristas, nem só de racismo – não que não exista”, disse para a reportagem o criador da série, Lee Eisenberg, também filho de imigrante – seu pai é israelense. “Na essência, todas são histórias universais, mas sobre alguém que vem de um lugar diferente e que não se parece com você. Não há doutrinação, mas é uma declaração política a existência de uma série com pessoas que não têm a mesma aparência, mas obviamente são tão humanas quanto você é, num momento em que nem sempre isso é reconhecido.”

Além de contatar Kumail Nanjiani e Emily V. Gordon, Eisenberg pediu ajuda ao jornalista Joshuah Bearman, autor da reportagem original que inspirou o filme Argo, de Ben Affleck. “Lee me ligou logo depois da posse do Trump. E me pediu para coletar histórias”, disse Bearman. Ao todo, sua equipe juntou mais de cem, de origens diversas. “Algumas foram contadas por membros do nosso próprio time. Também fizemos uma busca nas redes sociais, em grupos de imigrantes e jornais pequenos de cidades com grandes comunidades, como Pequena Camboja ou Pequena Mogadíscio”, disse Bearman. “E muitas vieram de motoristas de Uber, na sua maioria imigrantes.”

Algumas saíram na revista de Bearman, Epic, outras foram publicadas em um livro, e oito compuseram a primeira temporada. “A vida real é muito mais fascinante do que qualquer coisa que se possa inventar”, disse Emily V. Gordon. Os produtores fizeram um esforço para empregar pessoas do país retratado em cada episódio, tanto para escrever o roteiro quanto para atuar e dirigir. “Deu um pouco mais de trabalho, mas é possível, e a recompensa é enorme”, disse Gordon. Por causa da proibição da entrada de pessoas de certos países nos EUA, de acordo com medida estabelecida pelo atual presidente americano, o episódio The Son, sobre um homem perseguido em seu país por ser homossexual, foi rodado parcialmente no Canadá. Um dos atores principais, Adam Ali, nasceu na Líbia e não conseguiria visto para trabalhar nos Estados Unidos – ele também não pôde ir à pré-estreia em Los Angeles.

Se algumas histórias são mais dramáticas – embora quase sempre com esperança -, outras apostam mais na comédia. Em The Rock, um iraniano tenta eliminar uma enorme rocha em seu terreno. Em The Cowboy, um estudante nigeriano em Oklahoma quer ser um caubói americano como aqueles dos filmes amados por seu pai. Algumas falam de triunfos, de gente que “fez a América” de certa forma, como The Jaguar, sobre uma menina pobre que vira sensação do squash. Mas nem sempre – até porque, como Nanjiani diz, o tal sonho americano não é possível para muitas pessoas.

“Depende de acesso e privilégio. Então de certa forma é uma ilusão, pelo menos hoje em dia. Não é impossível, mas quase”, disse. Para Emily V. Gordon, o sonho americano ganhou uma definição mais simples: é tentar ser melhor a cada dia. “Nesse sentido, eu acho que é alcançável. Em todos os episódios, os personagens estão tentando atingir algum objetivo. Nem sempre conseguem, mas tentam. Agora, o sonho americano da casa de cerquinha branca é uma fantasia. Não queremos que ninguém se sinta mal de não conquistar algo que sempre foi uma fantasia.” A segunda temporada já está encomendada e pode incluir um episódio sobre uma brasileira, segundo Eisenberg.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Mariane Morisawa, especial para o Estado
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