Manifestantes pró-democracia tailandeses protestam durante visita real a Bangcoc

De Redação Estadão | 14 de outubro de 2020 | 16:37

Quase 10 mil ativistas pró-democracia protestaram novamente nesta quarta-feira, 14, em Bangcoc, na Tailândia, em meio a uma grande mobilização policial, um dia após a detenção de 21 militantes. No mesmo dia, monarquistas fizeram um contraprotesto em apoio ao rei Maha Vajiralongkorn, que visitou a capital Bangcoc.

Os manifestantes se reuniram diante do Monumento da Democracia, no centro da capital, e a intenção era prosseguir até a Casa de Governo, mas o principal acesso foi bloqueado com ônibus e alambrados. Além disso, o governo mobilizou 15.000 policiais.

O grupo quer a dissolução do Parlamento com a renúncia do primeiro-ministro Prayut Chan O Cha, que veio ao poder durante um golpe de estado em 2014, a revisão da Constituição de 2017, considerada muito favorável ao exército, e uma revisão do papel e do poder da monarquia, um tema tabu no país, com restrições aos poderes constitucionais do rei, que ele devolva o controle pessoal que tomou de algumas unidades do exército e uma fortuna do palácio avaliada em dezenas de bilhões de dólares.

Eles dizem que Prayuth manipulou as eleições no ano passado para garantir que o exército continuasse controlando o sistema. Ele diz que as eleições foram justas. “As coisas não deveriam ser assim”, disse uma estudante de 17 anos no protesto que deu seu nome apenas como Foil. “Temos que retomar nosso futuro.”

Na terça-feira, 13, dezenas de ativistas pró-democracia levantaram três dedos na passagem do veículo do monarca, gesto considerado um desafio à monarquia e sua autoridade e inspirado nos filmes da série Jogos Vorazes. “Tenha fé na democracia. Não podemos recuar”, disse o líder do protesto, Parit Chirawat, aos manifestantes na marcha para a Casa do Governo.

Líderes das manifestações disseram que foi o maior comício até então, atraindo dezenas de milhares de pessoas para uma marcha que se estendeu por mais de 1 km. Os policiais disseram que oito mil pessoas compareceram.

De acordo com analistas o número de ativistas caiu nas últimas manifestações.

“Os ativistas podem ter superestimado sua força. O movimento não tem um objetivo e uma agenda claros”, destaca Thitinan Pongsudhirak, cientista político da Universidade Chulalongkorn em Bangcoc.

A rota de protesto, ao longo da Avenida Ratchadamnoen, estava repleta de pessoas vestindo amarelo, o que é associado à devoção à monarquia e à política conservadora. De acordo com o jornal britânico The Guardian, aqueles que usavam amarelo pareciam ser uma mistura de policiais, funcionários do governo e apoiadores da monarquia.

Conflito com monarquistas

“Vão acontecer provocações, mas não queremos conflito com ninguém”, alertou Anon Numpa, um dos líderes do protesto. “Quando o cortejo real passar, não insultem”, pediu o ativista.

O rei Maha Vajiralongkorn assistiu a uma cerimônia durante a tarde e seu cortejo passou perto do local da manifestação. Centenas de defensores da monarquia estiveram nas ruas, na maior aparição desde que os protestos contra o governo começaram, há três meses.

As manifestações pró-monarquistas foram pequenas em comparação com as dezenas de milhares que se juntaram à maior manifestação antigovernamental em setembro, mas é um número muito maior.

Os milhares de apoiadores vestidos de amarelo do rei Maha Vajiralongkorn alinharam-se nas ruas para ter um raro vislumbre do monarca enquanto sua carreata passava por Bangcoc. Ele passa a maior parte do tempo na Alemanha.

Caminhões municipais trouxeram centenas de trabalhadores para se juntar à multidão. Um homem entre eles pareceu simpatizar com os manifestantes que passavam, fazendo a saudação de três dedos que se tornou o símbolo de resistência contra o establishment político. Os manifestantes correram para apertar sua mão.

A maioria dos monarquistas dispersou-se rapidamente após a passagem da carreata que transportava o rei, mas alguns manifestantes mais tarde desaceleraram um comboio que transportava a rainha Suthida, fizeram a saudação de três dedos e gritaram “saia” para a polícia que protegia o veículo.

Os dois acampamentos se encontraram no Monumento à Democracia em Bangcoc, que se tornou um ponto focal para os protestos e tiveram brigas breves. O impasse foi uma lembrança incômoda de uma década de violência nas ruas entre apoiadores e oponentes do sistema, que terminou em um golpe, há seis anos.

Em maior parte do tempo, os protestos foram pacíficos.

“O establishment na Tailândia joga um jogo muito perigoso, mobilizando as forças de segurança do estado e grupos monarquistas para enfrentar os manifestantes pró-democracia”, disse Prajak Kongkirati, professor da Universidade Thammasat.

Monarquia é um tema sensível

“A monarquia existe há mais de 700 anos. Querem derrubá-la. Viemos mostrar nosso amor ao nosso soberano”, declarou à AFP Siri Kasemsawat, guia turístico antes da pandemia.

Um líder monarquista, Buddha Issara, disse que os manifestantes podem exigir democracia, mas não devem exigir reformas da monarquia, como alguns fizeram.

“Eles não devem tocar na instituição”, disse ele aos repórteres.

Darunee Sudara, da província de Chon Buri, uma defensora da monarquia ouvida pelo The Guardian, disse que viajou de outra província para Bangcoc porque queria mostrar aos jovens manifestantes que muitas pessoas ainda permanecem leais à monarquia.

“Eles podem pensar que somos estúpidos, mas nós – pessoas estúpidas – somos aqueles que os mandamos para estudar e se tornarem muito inteligentes”, disse ela.

Ela disse que entendia que reformas e mudanças eram necessárias na política, mas acrescentou: “Não quero que toquem na instituição – no nosso amado monarca”.

O porta-voz do governo, Anucha Burapachaisri, disse que a polícia foi instruída a evitar confrontos desnecessários.

Um porta-voz da polícia, Kissana Phathanacharoen, disse que a presença de manifestantes a 50 metros da Casa do Governo é ilegal. Os manifestantes disseram que ficarão fora da sede do poder durante a noite.

O palácio real não respondeu aos pedidos de comentários sobre os protestos ou às demandas dos manifestantes. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

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