Maria Rita fala de sua rotina na quarentena e da volta aos palcos

De Redação Estadão | 4 de setembro de 2020 | 07:30

Mãe, dona de casa, cantora, produtora, empresária. Maria Rita, prestes a completar 43 anos, assume – como a maioria das mulheres – múltiplos papéis. Por isso, sabe que precisa se manter forte. Por ela, pelos filhos (Antonio, 16 anos, e Alice, 7) e também pelos músicos e pela equipe técnica. Por todos eles – e pelo amor à profissão -, ela aceitou os convites para se apresentar fora de casa em tempos em que a pandemia do novo coronavírus ainda é uma ameaça. Nesta sexta-feira, 4, ela mostra o show Samba da Maria no Arena Sessions do Allianz Parque, em esquema de drive-in.

Em agosto, ela já havia experimentado esse formato, em apresentação no Parque Burle Marx – depois de fazer lives patrocinadas da sala de sua casa. “Foi uma experiência muito louca!”, contou ao Estadão, por e-mail. Com projetos interrompidos – inclusive, de um novo álbum -, Maria Rita entendeu que não é tempo de ter tudo sob controle. “O que funcionou para mim foi lembrar que a minha frustração não iria me levar a nada. O que está acontecendo não é culpa minha.”

Você começou fazendo lives na sua casa. Depois, se apresentou em drive-in e em estúdio. Como foi a decisão de dar esse passo a mais, de aceitar convites para se apresentar fora de casa?
O principal fator, não vou mentir, foi a consideração para com aqueles que precisam trabalhar, inclusive eu. Não só por uma questão afetiva, emocional ou psicológica, mas também financeira.

A vida não está ganha. Meu cachê nunca foi R$ 200 mil ou R$ 300 mil. Nunca chegou a esse patamar. Então, sei que a minha equipe precisa trabalhar. Eu também preciso. Precisava sinalizar para as pessoas próximas – meus filhos e minha equipe – que estou trabalhando, que não estou acomodada. Conversei com os músicos e com a equipe técnica para ver até onde eles estavam confortáveis em trabalhar. Estamos respeitando as normas, mas, de fato, foi uma decisão bem difícil.

Sentiu-se segura nessa volta ao trabalho?

Não. Eu não me senti segura. E ainda não me sinto segura em avião, por exemplo. Nesse processo de ponderar o que vale e o que não vale, já neguei algumas apresentações fora do eixo Rio-São Paulo. Dependendo do lugar, a gente pega estradas perigosas, de noite, para evitar hotel. Tornou-se um quebra-cabeça não muito fácil. Isso abre uma margem para algumas exigências: não posso ficar doente, não posso parar em hospital por qualquer coisa. São cuidados exacerbados. Se antes eu tinha alguns, hoje tenho mais! Mas tenho encontrado pessoas muito compreensivas, muito profissionais, que respeitam minhas inseguranças e fazem com que haja um conforto para que o trabalho seja feito, porque a gente ama o que faz.

Recentemente, você fez um show em um formato drive-in e, agora, fará outro, em um local maior. Como foi essa experiência de cantar para o público dentro dos carros?

Foi uma experiência muito louca! Mas muito bacana, sabe por quê? Foi muito interessante ver a capacidade que a gente tem de se adaptar. No início, me senti como se estivesse no meu primeiro encontro (risos). Ninguém sabe muito o que falar, fica aquele silêncio constrangedor. Lá pela terceira ou quarta música, o público já tinha entendido a dinâmica e a gente começou a alimentar a energia um do outro. Lá pela quinta música, as pessoas estavam dançando dentro do carro. Ih, bicho! Lá pela décima música, a galera já estava com a janela aberta, braços para fora. Uns sentavam na janela e dançavam, batucavam no teto do carro. Foi muito maneiro! São modelos novos que eu acho que vão acabar fazendo parte da cultura da gente. A gente se adapta, cara! A gente não deixa a peteca cair, não! (risos)

Do lado pessoal, como você se comportou nesta quarentena? Como organizou sua rotina longe dos palcos?

No começo, achei que ia voltar a ter aula de piano, que eu ia ler muito, sair desta quarentena muito culta, praticamente com um PH.D. nos assuntos de que eu gosto. Tenho uma filha de 7 anos de idade. E, sem o tempo gasto na escola, não só as aulas online, o dia a dia ficou tudo muito em cima de mim. Então, se resume a distração, aula online, almoço, jantar. Eu me voltei totalmente para ela, assim que entendi que a quarentena não ia ser de apenas 15 dias. Quando eu vi que a situação se prolongaria, falei: para! O bicho pegou. O meu grande foco é me manter saudável espiritualmente e mentalmente. Vou cuidar da minha saúde mental por ela (filha). Meu filho tem 16 anos, já entende muito melhor, mora com o pai em São Paulo. A gente ficou quatro meses sem se ver. Consegui ir a São Paulo de carro para buscá-lo. Ele ficou aqui comigo dez dias e o levei de volta assim que começaram as aulas. O que funcionou para mim foi lembrar que a minha frustração não iria me levar a nada. O que está acontecendo não é culpa minha. Não posso pirar, não posso me dar a esse luxo.

Além de seus grandes sucessos, músicas como O Bêbado e a Equilibrista e O Mestre-Sala dos Mares se tornaram importantes em suas apresentações. Ambas de João Bosco e Aldir Blanc, lançadas por sua mãe na década de 1970. Ao mesmo tempo que isso atesta a longevidade dessas composições, também mostra que nossos problemas ainda são os mesmos. Que significado elas têm para você?

Essas músicas ainda são reais, a gente vive isso. Acho que estávamos meio anestesiados ou disfarçados por algumas grandes conquistas da sociedade brasileira. Estamos falando de formas de pensar de cento e poucos anos atrás. Só que agora está escancarado porque, como num pêndulo, a história está indo para esse lado de novo e encontra representantes dessa forma de pensar, não só no Brasil, como em outros lugares no mundo. A indignação é: como as pessoas ainda pensam dessa forma? Como a sociedade não andou para frente? Como ainda tem gente que age desse jeito? Como ainda tem gente que usa palavras de sábios como Jesus para justificar um comportamento absolutamente retrógrado. Retrógrado é pouco. É absolutamente sombrio.

A música – e a arte em geral – foi um grande alento para as pessoas durante a quarentena. Isso traz mais responsabilidade para os artistas?

Para mim, essa responsabilidade existe desde sempre. De 2016 ou 2017 para cá, prestigiar arte nacional virou um ato de resistência, com mais intensidade de 2018 para cá. Fora essa questão política, o simples fato de uma pessoa escolher sair do conforto da sua casa para prestigiar o artista, para ser um agente incentivador de cultura, mesmo que sem perceber, mesmo que inconscientemente, é de uma força muito grande. Minha relação não é com a fama, é com a arte. Como meu pai me ensinou: é entretenimento para o outro, mas é o nosso ganha-pão. É o meu ofício, missão. É uma relação que eu prezo muito. Temos o microfone na mão. Somos megafone das sensações e experiências humanas.

De que maneira todas essas questões sociais e políticas pelas quais o Brasil e o mundo estão passando podem refletir em um futuro trabalho seu?

Em 2007, no (álbum) Samba Meu gravei uma música chamada Corpitcho, que poucas pessoas entenderam a mensagem. Quando entenderem falaram: “Caraca! Você já estava cantando isso em 2007?”. Eu respondia: “Eu não! Tinha um compositor pensando nisso e escreveu”. Dá uma olhada nessa letra para ver o que eu estou falando. A realidade do povo brasileiro, infelizmente, não muda. Vou seguir buscando cantar essas dores que reflitam a experiência humana.

Em uma das apresentações online, você disse que teve pelo menos três projetos paralisados por conta da pandemia. Entre eles, estava um novo disco?

Sim, um deles era o disco. Agora, eu tenho de esperar porque as dinâmicas mudaram. Era um trabalho em que eu estava contando com apoios, parceria comercial. Puxaram o freio de mão em tudo. Como eu disse, estou focada na minha filha, no bem-estar dos meus dois filhos. Não tenho como parar e fazer pesquisa de repertório de nove, dez horas por dia, durante por sei lá quanto tempo. Para ir para o estúdio gravar, mesmo que seja um EP, com três músicas, não tenho esse tempo agora. Minha cabeça não está funcionando para essa frequência. Mas isso não significa que eu não esteja pensando em absolutamente nada, não estou bloqueada. Só quer dizer que a relação com o tempo está um pouco diferente.

Samba da Maria
4 de setembro, às 21h, no Allianz Parque (Rua Padre Antonio Tomás, 72), Portão de Acesso: C2.
R$ 280 a R$ 500 por carro (até 4 pessoas por veículo)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Danilo Casaletti, especial para o Estado
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