Mariana Aydar desafia tabus em letras e sons e mostra forró que se desenvolve

De Redação Estadão | 23 de dezembro de 2019 | 08:02

Algumas portas são abertas por Mariana Aydar quando ela resolve voltar diferente a um lugar que sempre esteve lá. Seu novo álbum, Veia Nordestina, depois do mais denso Pedaço Duma Asa, uma visão das composições do artista visual Nuno Ramos, de 2015, atua pelo menos em três frentes que o tiram da região que poderia abrigá-lo com o conforto e a segurança da tradição para levá-lo um passo à frente no universo de um dos últimos gêneros de criação teimosamente formatada da música brasileira.

Veia Nordestina tem um dos pés de serra no peso eletrônico, uma das falas na contestação do preconceito do próprio meio e todo um significado geracional. A paulistana Mariana, tecnicamente fora de seu “lugar de fala” por não ser nordestina, pertence a uma era de autores e intérpretes aplicada em construir códigos desconstruindo estereótipos e que, em geral, não tem um olhar tão afetivo para o forró como tem para o samba. Seu nome ganha cada vez mais força para arrastar o forró para além das casas de reboco.

Mariana diz que faz do disco um agradecimento a um povo que deu sentido à sua vida muito cedo, dos tempos em que a mãe, a produtora Bia Aydar, trabalhava com o próprio rei do baião, Luiz Gonzaga. “Ele era para mim um misto de Papai Noel com Elvis Presley e eu sempre pensava: ‘Mas o que será que esse homem faz?’. Meus amigos foram feitos no forró, meu filho é filho do forró.” A sanfona de Mestrinho chora no baião com cheiro de saudade de Dominguinhos no final do disco. “Vira teu mato te cobre de festa, vem brincar / que todos os dias tem gente querendo domingar / mas quando anoitece o fole não abre pra falar / Sertão inundado não mata minha sede, saudade. Saudade, aquela que dói e que fere, saudade machuca e nem olha pra trás.”

Sobre ser paulistana, ela diz que jamais se sentiu desautorizada por qualquer ala tradicionalista, algo que não seria tão assustador nos dias de hoje. “Já fiquei receosa por isso, mas nunca ninguém me disse algo assim. Nós temos que tirar a regionalidade das coisas, o forró não tem mais território. O lugar de encontro do pé de serra mais procurado é em Itaúnas, no Espírito Santo, não no Nordeste.” O que se ouve em Veia Nordestina, música sua e de Isabela Moraes, carrega um pouco daquilo que Dominguinhos fazia. Ele não cantava para o homem que vivia no sertão, mas para o sertão que habitava todos os homens. E lá vem a sanfona de Mestrinho anunciar Mariana. “Na veia nordestina, eu tenho a minha visão / carrego emprestada a força do sertão…”

Existe uma embolada curiosa de samba com baião em Na Boca do Povo, de Fernando Procópio e Tinho Brito, e na letra está a maior “subversão” a alguns estados de pensamento. “Tem coisa que é ruim de engolir / Que não entra na caixola / Tipo homem que gosta de homem / O que que ele é? (Boiola) / É homem igual qualquer homem / Deixa de ter preconceito / É um ser humano / Por isso esclareço / Merece apreço, merece respeito.” E assim segue para falar das mulheres: “A mulher que pega todo mundo o que é que ela é? (Piranha) / Se engana na reflexão / Quem responde a questão logo assim de primeira / A menina que zoa um montão sem dar satisfação pra ninguém é solteira”. E para falar de uma política de Estado: “Outro papo que muito se fala / E marca escala mas é papo torto / Que o melhor é se encher de bala / Que bandido bom (é morto) / Não sou defensor de bandido / Mas pensa comigo isso não satisfaz / Pra gente bandido bom / É bandido que deixa essa vida pra trás”.

Mariana conta que sua relação com o forró sempre foi de subversão desde os anos de Caruá, de 2001 a 2003, seu primeiro grupo, que veio justamente com a proposta de tecer os baiões, xotes e xaxados com novas malhas criadas por instrumentos nem sempre convencionais. “Ali já queríamos mexer com o samba, fazer nosso forró, experimentar.” O galope Forró do ET tem Elba Ramalho. Condução radicaliza nos graves. Se Pendura vai ao funk. Espumas ao Vento, de Accyoli Neto, não sai de onde sempre deve estar. Maria Gadú aparece em Triste, Louca ou Má, para cantarem juntas o refrão “o homem não te define, sua casa não te define, sua carne não te define, você é seu próprio lar”.

Sua presença no forró, quase um ato de coragem em um meio que procura o cult como norte, aponta para uma visão ainda estereotipada do gênero. “Existe um grande preconceito em geral. É uma música muito marginal, todos têm uma memória afetiva com as músicas mas não há um interesse maior.”

Aos 40 anos, ela diz que o álbum é também um retrato de seu momento, separada depois de dez anos, faz uma certa volta à adolescência, quando descobriu a Bahia de todos os axés. Uma volta ao relaxamento depois de um disco mais tenso com Nuno Ramos. Algo que a faz lembrar da frase que Elba Ramalho lhe disse: “O forró me energiza e eu energizo o forró”.

Documentários

O álbum vem ao mesmo tempo que três episódios de um minidoc estão disponíveis no YouTube. Eles reforçam o nome de Mariana, que já dirigiu um sobre Dominguinhos, em 2014. Agora, ela aparece no vídeo, mas de forma sutil, como parte (que é) de uma história de retomada do forró a partir de meados dos anos 1990, quando São Paulo sediou a maior reestrutura de cenário do gênero no País. “Temos poucos documentos sobre o forró. Ninguém sabia, por exemplo, da história do KVA (uma das casas da retomada, em Pinheiros).”

O primeiro capítulo abre com um depoimento de Oswaldinho do Acordeon e as memórias de seu pai, Pedro Sertanejo, que sediava um dos forrós mais procurados antes mesmo da chegada dos chamados universitários. Um ponto de encontro dos nordestinos em São Paulo, que vinham à cidade trabalhar ou reencontrar familiares.

O produtor Magno de Souza e Paulinho Rosa, atuante desde o início, hoje responsável pelo Canto da Ema, em Pinheiros, conta como foram os dias de se “traficar” forró para festas que não eram de forró. “Se falássemos que era forró, não ia ninguém. Fazíamos festa de música brasileira e, no meio, colocávamos trios de forró.” Mil e 200 pessoas por noite no Projeto Equilíbrio chamaram a atenção dos jornais, que viram um público de jovens universitários tomando as pistas. E surgiu assim um dos últimos fenômenos espontâneos absorvidos logo pelas gravadoras, ainda fortes na época: o forró universitário.

O segundo episódio trata das mulheres no forró, um desbravar de terras brutas feitas no início por Marinês e Almira Castilho, seguidas por entrevistadas como Anastácia, Bernadete França e Elba Ramalho. Bernadete conta de como teve sua primeira grande apresentação só em Itaúnas, em um festival. “Ali eu não estava concorrendo, mas fazendo meu primeiro grande show.” Livi, filha de Dominguinhos, também aparece. Elba diz que, antes de falar de si, mulher guerreira que saiu do sertão, de uma família machista, teve Marinês, também apontada por ela como a grande dama, a “rainha do xaxado”.

O terceiro episódio fala da dança, um universo paralelo, que começa com uma dupla de homens dançando em Itaúnas. Mariana pode ajudar a escrever mesmo um novo capítulo. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Julio Maria
Estadao Conteudo
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