Mestre do tempo

De Redação Estadão | 28 de fevereiro de 2020 | 07:05

Na quarta, 26, à noite, na apresentação oficial de Vento Seco, de Daniel Nolasco, no Zoo Palast, o curador da seção Panorama, Michael Stütz, disse que estava muito feliz de apresentar um filme tão ousado e corajoso. E enfatizou: “Vocês não vão ver outro filme como esse no festival”. Vento Seco é, desde logo, candidato à Palma Queer, o Teddy Bear, na Berlinale de 2020. Imaginário gay, fetichismo, sexo oral. A atriz trans do filme, Renata Carvalho, que fez o Cristo na peça O Evangelho Segundo Jesus, A Rainha do Céu, foi muito aplaudida – ovacionada – ao agradecer ao diretor. “Nossos corpos são quase sempre negados pelo cinema e é muito importante, um signo de democratismo, estar aqui esta noite.”

A frase ainda repercutia para o repórter quando ontem, pela manhã, o ator de Tsai Ming-liang, respondendo a uma pergunta sobre seu papel em Days/Dias, na competição, disse que o personagem era ele. Um jovem que cozinha em casa, vai à casa do cliente para uma massagem que termina em sexo. “Sou eu, é como vivo.”

O jornalista que fez a pergunta se referia a ele como prostituto. Tem havido uma mudança comportamental, e o cinema a está registrando. A seleção da Berlinale, as coletivas, tudo prova. Apesar do conservadorismo que avança no Brasil, no mundo, dos discursos racistas, homofóbicos, o direito à diferença está no ar. Trans, gays, prostitutos e prostitutas – trabalhadores do sexo -, foi-se o tempo do amor que não ousava dizer seu nome. Agora ousa, e alto.

O filme brasileiro Vento Seco deve ter circulação limitada no País. Vai a festivais, ao Mix Brasil, entrará em horários alternativos – como o belíssimo A Rosa Azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, no ano passado. No exterior, no mercado internacional, deve circular melhor. A produtora falou no interesse que Vento Seco/Dry Wind está despertando no mercado berlinense. Um parêntese – Vinagre está mostrando em Berlim o novo filme. Vil, Má é sobre uma dominatrix. Como Vento Seco, aborda o universo fetichista do sado-masô. Muito forte, segundo Daniel Nolasco, em São Paulo.

Há um mundo – proibido? – pulsando sob a superfície. Vale para o Brasil e para a Indonésia – Bangcoc -, onde Tsai filmou Dias. Ele é um autor de Taiwan, mas tem amigos na Indonésia. Foi lá, captou algumas imagens de um bairro central, e decadente, de que gosta muito. Descobriu o ator indonésio, que não era ator – Anong Houngheuangsy -, por meio de um vídeo, não de sexo, mas no qual ele cozinhava. A preparação de comida – a cozinha tradicional do país – ocupa parte considerável do tempo. Justamente, o tempo. Tsai é um diretor com um timing muito particular. O filme começa com um homem olhando a chuva através da janela. Sabemos que chove porque a água escorre pelo vidro. A câmera fica ali parada uns bons três minutos, e Lee Kang-sheng, o ator fetiche do diretor, olha fixo para… Onde? Talvez para o seu interior.

Corte e agora o mesmo ator está numa banheira, de olhos fechados. A água é sempre importante para Tsai. Ao repórter, ele disse certa vez que era um problema crucial em Taiwan, como a moradia. Corte, e agora o rapaz prepara os alimentos. Lava-os. Cada plano desses leva tempo. De volta a Kang-sheng, ele participa de sessão de acupuntura.

Na coletiva, o ator revelou que, anos atrás, teve um doloroso problema de escoliose e Tsai o acompanhou aos médicos, munido da câmera. Documentou o processo de seu tratamento. Em Days, há um lado documentário muito forte. Os problemas de saúde do homem mais velho, a dupla atividade do garoto, a maneira como Tsai filma as ruas de Bangcoc.

Não acontece muita coisa. Nada? Só se nada for tudo. Cada personagem é mostrado no seu cotidiano. Não se conhecem, nunca se cruzaram. E aí vem a cena da massagem, e do sexo. Despedem-se e cada um volta a sua vida. Mas algo ocorreu nessa breve troca, e tem a ver com uma caixa de música que toca Smile, o tema de Charles Chaplin para o clássico Tempos Modernos, de 1936. Smile/Sorria, quando seu coração está partido.

Tsai e a solidão, os sentimentos. Dependendo do olhar, o filme toca a profundidade. Tsai é um autor na linhagem de Carl Theodor Dreyer, Robert Bresson e Yasujiro Ozu, que Paul Schrader, o roteirista dos melhores filmes de Martin Scorsese, identifica como os mestres da transcendência.

O festival já vai chegando ao seu final. Hoje, passam os últimos da competição, e estão entre os mais aguardados – Irradiated, do cambojano Rithy Panh, e There Is No Evil, de Mohammad Rasoulof. No sábado à noite, ocorre a premiação e, no domingo, 1.º, último dia dessa Berlinale, os filmes da competição e os vencedores de todas as seções serão apresentados uma última vez.

Sobre o coronavírus, repercutiu muito a informação de que turistas alemães foram infectados numa praia de Tenerife, Espanha. Por via das dúvidas, tem jornalista italiano querendo prolongar a estada na Alemanha, com medo de voltar para casa. Até agora, a Itália é o país da Europa mais afetado pelo vírus.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten, enviado especial
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