Moraes Moreira morre de enfarte, aos 72 anos

De Redação Estadão | 14 de abril de 2020 | 06:55

O cantor e compositor Moraes Moreira morreu na madrugada desta segunda-feira, 13, aos 72 anos. A causa da morte, segundo familiares, foi um enfarte. Ele estava dormindo e o corpo foi encontrado pela manhã em sua casa, no Rio.

Moraes estava em plena atividade. O último show dele ocorreu em 13 de março, no Manouche, no Rio. Ele apresentou o espetáculo Elogio à Inveja, com músicas de outros autores que reverenciava e considerava importantes em sua trajetória.

Nascido em 1947, em Ituaçu, no sertão da Bahia, ele se mudou para Salvador em meados dos anos 1960. Por meio de Tom Zé, com quem aprendeu violão na Universidade Federal da Bahia, conheceu o poeta Luiz Galvão. A dupla passou a compor e esse encontro foi o embrião dos Novos Baianos. Baby do Brasil, Pepeu Gomes e Paulinho Boca de Cantor também estavam integrados ao grupo de espírito hippie.

Depois de participar do festival da TV Record em São Paulo em 1969, a banda gravou o primeiro disco, É Ferro na Boneca (1970), bem ao espírito do rock da época. Mas um encontro com João Gilberto foi definitivo. Galvão, que conhecia o papa da bossa nova de Juazeiro, onde os dois nasceram, o convidou a visitar o apartamento que eles dividiam no bairro carioca de Botafogo.

Quando João chegou, de terno e gravata, todos pararam para tocar músicas de Assis Valente e outros autores do período pré-bossa nova. “Vocês precisam olhar mais para dentro de si mesmos”, disse o intérprete de Chega de Saudade. Era um recado para que os Novos Baianos buscassem referências na cultura do país.

Esta aproximação foi o estopim de um álbum clássico da música brasileira, Acabou Chorare (1972), que alcançou grande repercussão na época do lançamento. Preta Pretinha, Mistério do Planeta, e a faixa-título, escritas por Moraes e Galvão, revelavam a brasilidade do grupo, já radicado em um sítio em Jacarepaguá. Moraes ainda gravaria com os amigos os discos Novos Baianos F.C. (1973) e Novos Baianos (1974).

Já casado e com dois filhos, Moraes Moreira quis deixar o sítio em que vivia com os Novos Baianos, mas permanecendo no grupo. Os outros integrantes não permitiram. Segundo eles, para estar na banda era preciso morar junto. Em 1974, ele saiu da banda. “Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida”, disse o artista em uma entrevista para o programa O Som do Vinil, exibido pelo Canal Brasil.

Imediatamente contratado pela Som Livre, Moraes gravou o primeiro disco solo, levando apenas o nome dele. Uma releitura de Se Você Pensa, clássico de Roberto e Erasmo Carlos, foi registrada no álbum e entrou na trilha sonora da novela Pecado Capital (1975), de Janete Clair.

Ele ocupou as paradas de sucesso no fim dos anos 1970 com Pombo Correio (originalmente um tema instrumental dos reis do trio elétrico Dodô e Osmar chamado Double Morse, foi usado como abertura do Jornal Hoje), Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira e Chão da Praça.

A popularização do carnaval baiano na região Sudeste também se deve a Moraes. Em plena Praça Castro Alves, em Salvador, ele se uniu a Dodô e Osmar e sagrou-se como o primeiro cantor a se apresentar em um trio elétrico. Coisa Acesa, Festa do Interior e Bloco do Prazer estão entre as composições dele que animam folias há quase 40 anos.

Ao longo da carreira, que totaliza 27 discos solo e outros divididos com o amigo Pepeu Gomes e com o filho Davi Moraes, Moraes teve canções gravadas por Marisa Monte, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Gal Costa, entre outros.

Nos anos 1990, o cantor lançou álbuns celebrados pela crítica, caso de O Brasil Tem Conserto (1994), no qual misturou os sons da Bahia com a música erudita, e Acústico MTV (1995), em que fazia uma revisão dos sucessos da carreira.

Desde 2016, o artista estava de volta aos palcos com os Novos Baianos e havia a perspectiva de um álbum de inéditas do grupo. “Ele me falava que os Novos Baianos deviam um álbum novo à Som Livre. Só depois ele poderia conversar sobre uns shows dos NB da fase 70-74 que eu queria lançar”, explica o produtor Marcelo Fróes, do selo Discobertas, pelo qual Moraes lançou o disco Ser Tão (2018), último projeto solo do artista.

A última postagem de Moraes no Facebook foi um poema de sua própria autoria, intitulado Sombra. “Nem tudo aquilo que assombra/À escuridão nos reduz/Ouvi dizer que onde há sombra/É certo que haverá luz”. Palavras de alguém que deixou a alegria na canção brasileira.

Renato Vieira, colaborou Julio Maria
Estadao Conteudo
Copyright © 2020 Estadão Conteúdo. Todos os direitos reservados.

Deixe um comentário