'Mostro que a natação está aberta a todos, brancos e negros', diz Alice Dearing

De Redação Estadão | 21 de dezembro de 2020 | 18:00

O que não falta são exemplos de grandes atletas negros do Reino Unido: Lewis Hamilton, na Fórmula 1; Tessa Sanderson, no lançamento de dardo; Nicola Adams e Anthony Joshua, no boxe; Mo Farah, nas corridas de 5.000 metros e 10.000 metros no atletismo. Contudo, há um esporte em que a presença de pessoas e cor preta é rara: a natação. A Grã-Bretanha nunca teve uma nadadora negra nas Olimpíadas, por exemplo. É essa realidade que Alice Dearing, de 23 anos, espera mudar nos Jogos de Tóquio.

A jovem compete na qualificatória em maio de 2021, dois meses após voltar a entrar no mar para disputar uma maratona aquática. Em entrevista exclusiva ao Estadão, Dearing conta sua história na natação, como tem buscado agir para diminuir as diferenças entre negros e brancos nas piscinas do Reino Unido e como concilia a vida de atleta com a de estudante, estando perto de completar mestrado pela Universidade Longborough, além da preparação para buscar a vaga olímpica.

O Reino Unido tem grandes atletas negros, mas nunca teve uma nadadora negra nas Olimpíadas. Por que você acha que isso ocorre?
Há alguns problemas e barreiras que impedem as pessoas negras de nadarem, de entrarem no esporte, infelizmente. Atualmente, espero ser a primeira mulher negra a nadar pela Grã-Bretanha nas Olimpíadas, e isso é porque na sociedade havia um racismo entre pessoas negras e a natação no passado, e eu mesma tive de lidar com isso, em um ou dois incidentes isolados. Felizmente, não afetou minha opinião sobre o esporte, ainda acho que natação é um grande esporte para fazer parte, para qualquer um fazer parte. Mas, esses casos ainda acontecem e as pessoas podem não levar da mesma forma que eu levei, afetando sua visão sobre o esporte e sua participação nele. Sei que isso acontece com muitas pessoas que enfrentaram o racismo, que ouviram que a natação não é para eles de alguma maneira. Financeiramente, também pode ser um esporte caro. Assim, é bem óbvio que não vai ser uma prioridade na sua vida. Viemos de um lugar onde as pessoas negras não nadam, não somos representados em grande escala. Então, quero mudar isso, mostrar que a natação é um ótimo esporte e que está, de fato, aberta a todos, brancos e negros.

Há outros problemas?
Também há uma barreira física, especialmente para mulheres negras, que é o cabelo. As toucas de natação geralmente vem em tamanho único, e pode ser bem difícil achar uma touca maior. Isso não é muito inclusivo para pessoas com cabelo crespo, penteados afro, dreadlocks, tranças, basicamente qualquer cabelo que não caiba dentro de uma touca padrão. Eu tive de lutar com isso no passado, e acho que muitos nadadores tiveram, não somente negros. Já ouvi muita gente definindo as toucas como pequenas, então, quando você tem um cabelo crespo em cima da cabeça, você chega a uma situação onde as toucas não se encaixam, não protegem o cabelo apropriadamente e é complicado somente manter o cabelo na touca. Mas há coisas sendo feitas para mudar isso. Por exemplo, sou parceira de uma marca chamada Soul Cap que vende toucas largas, para tornar possível que as pessoas possam nadar. É estranho que isso pareça algo revolucionário, o que é, mas não deveria ser. Deveria ser apenas uma coisa normal que as pessoas possam ter uma touca de natação em que caiba sua cabeça ou seu cabelo.

Como você lidou com esses casos de racismo pelos quais passou?
Quando tive de lidar com o racismo, reagi de uma maneira madura, ou talvez imatura, dependendo de como você vê. Eu meio que ignorei. Discuti o assunto com a minha mãe uma vez ou duas, e realmente não demos nenhum peso, nenhum poder em nossas vidas. Nós avisamos ao meu clube, ao corpo governamental, e eles lidaram. Acho que aconteceu uma vez após isso, e tinha a possibilidade de levar à polícia, mas decidi não fazê-lo, porque só queria deixar para trás, e não queria fazer uma declaração, ou outras pessoas fazendo declarações em meu nome por causa disso. Então, somente decidi ignorar e não dar nenhum poder, porque eu realmente não poderia me deixar dominar. Eu realmente queria nadar, sabia que tinha de nadar, queria melhorar, e não queria que atitudes negativas de outras pessoas em direção a mim me impedissem de nadar. Eu só queria ignorar.

Em uma entrevista ao jornal The Guardian, você disse que não quer ser vista como a nadadora britânica negra. Como você quer ser vista?
Eu quero ser reconhecida pelas minhas conquistas, quaisquer que sejam elas. A razão pela qual não quero ser reconhecida como a nadadora negra britânica é que eu gostaria que minha raça realmente não importasse. Sei que importa, e procuro fazer uma declaração de que pessoas negras podem nadar, com a esperança de chegar um dia em que se torne um esporte em que vemos qualquer pessoa de qualquer raça participando e não sejam definidas pela cor da pele. Enquanto sei que provavelmente serei lembrada como a nadadora negra britânica, eu só não quero que qualquer outra pessoa pense que é apenas por causa da minha raça, quero ser lembrada pelo que alcançar no esporte.

Em 2020, vimos o movimento Black Lives Matter promover protestos após a morte de George Floyd nos EUA. O que você achou dos atos no Reino Unido? Chegou a participar de algum?
O Black Lives Matter foi poderoso e proeminente este ano, e é tão bom ver as pessoas se educando sobre os privilégios, sobre como podem ajudar os outros, e os problemas que as pessoas enfrentam diariamente por causa da cor da pele. Pessoalmente, não participei de nenhum dos protestos, não senti que era minha energia e também não tinha pessoas para irem comigo. Sei que isso não é realmente uma desculpa, mas dá para entender. Eu coloco a minha energia em ser uma porta-voz para a natação negra na Grã-Bretanha e ajudar as pessoas a chegarem nela, e ajudar a Black Swimming Association. Por mais que queira fazer parte de tudo, não posso estar fisicamente em todos os lugares, então foco em outras formas de ativismo em vez dos protestos.

Você é uma embaixadora para a Black Swimming Association, entidade que ajudou a fundar. Quais são os objetivos da organização e como tenta contribuir para ela?
O objetivo da organização é promover o bem-estar das pessoas negras na natação e promover a natação como um habilidade para a vida. Não é apenas uma atividade ou um esporte, é uma habilidade fundamental que pode salvar a vida de alguém um dia. Infelizmente, temos afogamentos acidentais frequentemente na Grã-Bretanha, e queremos fazer o que está em nosso poder para incentivar as pessoas a aprenderem a nadar, e, caso algum dia seja necessário, elas estarão aptas a se salvar ou salvar outras pessoas. Procuramos trabalhar em todos os níveis do espectro aquático, no sentido de ir desde a base até as salas de reuniões, provocando mudanças em todos eles. Não são coisas que estão acontecendo em um único lugar, (as medidas), vão se encontrar no meio e, espero que mudem o esporte para melhor. Tento contribuir usando minha voz em todos os espaços que posso e mostrando que as pessoas negras podem nadar. Também tento encorajar outros atletas a usar as vozes deles. Procuro mostrar que a natação está aberta e disponível a todos, e não deve haver um estigma sobre quem pode ou não nadar, e que a raça não importa, você pode nadar seja branco ou negro.

Você está no Women’s Sports Trust. Novamente: Quais são os objetivos desta organização e como você procura ajudar?
Na Womens Sports Trust, eu estou no programa Unlocked, que visa promover o esporte feminino em uma grande escala. Na Grã-Bretanha, existe uma grande disparidade em muitos esportes na maneira como os homens são tratados e na maneira como as mulheres são tratadas. Felizmente, estou num esporte onde muitas mulheres são tratadas com igualdade, porque conseguimos competir igualmente, somos pagas igualmente, temos a mesma cobertura da mídia e esse não é o caso para esportes como futebol, rúgbi, críquete, basquete e muitos outros, onde a disparidade é enorme. Eu tinha alguma noção, mas não sabia o quanto isso era ruim até que comecei a trabalhar com o Women’s Sports Trust e participar do programa Unlocked. Eu tento fazer o mesmo, apoiar todas as mulheres buscando o espaço no esporte e, mais uma vez, mostrar às pessoas que o esporte é muito bom para você, e o seu gênero não define o que você pode e o que não pode fazer como uma atleta.

Como está sua preparação para a qualificatória e a Olimpíada?
Atualmente, estou treinando para a Olimpíada em agosto, e a qualificatória é em maio. Estou realmente ansiosa pela oportunidade de me qualificar, acho que estou em uma boa posição, as preparações estão indo muito bem, os treinos têm sido bons. Espero conseguir a vaga. Minha expectativa, honestamente, é ficar orgulhosa de mim mesma. Eu sei o que posso alcançar, o que é possível, quero ir e alcançar meu potencial.

Qual é o seu cronograma de treinamentos e competições antes de Tóquio?
No momento, estou fazendo nove sessões de natação na semana, com mais três de academia. São mais ou menos 60 quilômetros por semana em termos de distância que nado. Sobre as competições, a primeira que pretendo participar é em março, em Doha, então serão 13 meses desde a última vez que disputei uma. Vai ser uma corrida interessante, vai ser bom estar de volta. Serão dois meses antes da qualificatória olímpica, e será um período bastante cheio. Isso é o ponto na natação de águas abertas, as principais competições vêm todas de uma vez, mas estou acostumada com isso, estou ansiosa para voltar a nadar e espero ter uma boa temporada.

De que formas acha que pode melhorar como nadadora?
A maneira como acho que posso melhorar como nadadora é confiar na minha habilidade e em quão bem eu posso nadar. Algumas vezes, duvido de mim mesma, às vezes é bem fácil duvidar que não sou tão boa quanto sou, e que não mereço estar em certo lugar ou em certo nível, competindo contra tantas atletas incríveis. É algo com que venho trabalhando nos últimos anos, melhorar a autoconfiança. Quando estou na linha com todo mundo, preciso confiar que posso nadar tão bem quanto elas, estar na disputa e não só acompanhando. Essa é minha principal área para melhorar e acho que estou pronta para colocar essa confiança em prática na próxima competição em que estiver.

Como é sua rotina diária de treinamento?
Minha rotina é bem ocupada, já que tenho a universidade em tempo integral e sou atleta basicamente em tempo integral também. Felizmente, não tenho mais de acordar super cedo, não tenho de acordar 4h30 da manhã como fazia antes da pandemia, e tudo mudou por causa do distanciamento social. No momento, estou levantando às 7h ou 8h da manhã, vou nadar por volta das 9, volto para casa, como algo, faço os trabalhos da universidade, relaxo um pouco e então vou para lá à noite, às 15h ou às 18h, dependendo do dia. É um dia cheio, mas é divertido, gosto muito do time com quem treino, temos um relacionamento muito bom uns com os outros. Estou em um lugar feliz no momento.

Quem você vê como suas maiores competidoras no momento?
Minhas adversárias na maratona aquática são atletas incríveis. Ana Marcela Cunha, do Brasil, é uma das melhores maratonistas aquáticas do mundo, assim como Sharon van Rouwendaal. Há tantas mulheres incríveis, é um evento tão competitivo. E eu quero ter o meu nome incluído entre o delas, como uma grande nadadora, e espero que quando a corrida começar, eu consiga competir com elas como quero.

Como a pandemia afetou seus treinos?
Foi muito complicado para começar, porque uma nadadora precisa nadar, é necessário ter algum corpo de água para nadar. As piscinas estavam fechadas e não era permitido nadar em águas abertas. Então, tentei correr e absolutamente odiei, não era para mim. Por sorte, tinha uma bicicleta ergonômica que poderia usar, e gostei bastante disso. Fiz exercícios de academia onde conseguia em terra, com treinos de resistência. Foi um período difícil, mas me adaptei rapidamente e, eventualmente, após três meses fora d’água, quando entrei de novo, estava muito grata.

Pode contar um pouco da sua história na natação?
Eu nadei competitivamente pela primeira vez quando tinha oito anos de idade, depois que minha mãe viu em um quadro de avisos sobre o clube de natação local. Na piscina em que estávamos aprendendo a nadar, ela inscreveu eu e meu irmão para sessões extras. Nós íamos duas ou três vezes na semana e amamos. Começamos a fazer mais sessões, progredimos naturalmente, até irmos para outro clube, que era um pouco maior. Eu fui para o nível de elite e meu irmão começou a ensinar natação e ser treinador.

Por que você trocou a piscina pelas águas abertas?
A primeira vez que nadei em águas abertas foi quando surgiu uma oportunidade de competir pela Grã-Bretanha em uma maratona, como classificatória para o europeu de juniores. Eu fui porque era uma viagem grátis para Portugal, nunca tinha nadado assim antes, não tinha nem mesmo treinado, quanto mais competido e completado dez quilômetros. Então, estava ingênua, e honestamente foi uma disputa bem difícil. Consegui terminar, o que me garantiu a vaga no europeu de juniores, que foi uma corrida de cinco quilômetros na Turquia. Era muito mais quente, com mais competidoras e metade da distância, e acabei ganhando. Após essa competição, eu pensei: ‘ok, sou boa nisso, vou continuar e ver até onde posso chegar’. Está indo bem e espero me qualificar para a Olimpíada em maio.

O que você estuda na universidade? E como consegue ter tempo para os estudos e para a vida de atleta?
Estou estudando para um mestrado em mídias sociais e comunicação política. Estou amando, realmente gosto bastante. Estou bem ocupada, no último ano, então tenho testes para fazer, e se eu me classificar para a Olimpíada, tudo vai acontecer ao mesmo tempo. Necessita de muita gestão de tempo, mas estou esperançosa de que conseguirei. Às vezes não sei como faço para ter tempo, mas sempre acabo gerenciando e encontrando, priorizando as coisas certas e tendo a certeza de que os prazos são cumpridos, e de que alcanço um certo nível nos trabalhos que faço. Eu consigo, mas no futuro vou olhar para esses dias e pensar ‘como consegui?’.

Você espera inspirar as pessoas a nadar? E já conheceu alguma história de que tenha ajudado nesse sentido?
Eu realmente espero inspirar qualquer pessoa a nadar. Espero que todos possam ouvir minha mensagem e pensar: ‘ok, vou ter algumas aulas, vou procurar um professor, vou começar a nadar’, porque é isso, e é tão importante. Nadar me deu tantas oportunidades, pelas quais sou tão grata. Odeio pensar que as pessoas perdem qualquer oportunidade porque não sabem nadar, mesmo coisas simples como a de se juntar com os amigos em uma piscina no fim de semana, ou de ir ao mar em um feriado. Realmente, espero que se sintam inspiradas por me ouvir falar e que nadar é algo que eles podem fazer. Algumas pessoas já me mandaram mensagens dizendo que foram inspiradas pela minha história e, basicamente, por eu dizer o que penso. É sempre bom ouvir essas histórias e saber que a minha voz está alcançando alguém.

Luis Filipe Santos
Estadao Conteudo
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