Mudaram as estações

De Redação Estadão | 3 de maio de 2020 | 07:30

Por que lançamos coleções de inverno em pleno janeiro quando o calor brasileiro está no auge? O oposto é recíproco: tentar vender vestidos de verão com temperaturas baixas sempre foi um mistério que ninguém da moda conseguia resolver.

Questionar o motivo de ver, em pleno frio de agosto, casacos sendo vendidos pela metade do preço, é questionar todo o calendário de moda que há décadas parecia errado – mesmo assim, o setor não conseguia se unir para alterar. Pois a pandemia do novo coronavírus e sua crescente onda de transformação em vários setores chegou ao mercado da moda para modificar de maneira emergencial um calendário que merecia essa mudança.

“Há um mês, fechamos abruptamente, do dia para noite, no momento em que lançaríamos nossas de coleções de inverno”, afirma Roberto Davidowicz, vice-presidente da Associação Brasileira de Estilistas (Abest). “Durante as últimas quatro semanas, nos reunimos com marcas de todos os tamanhos, showrooms e multimarcas, ouvimos as dores de cada um e conseguimos, em um movimento de integração e forte união ao bem comum da moda nacional, resolver questões importantes do setor”, diz.

A associação, que representa 120 estilistas e marcas nacionais, apresentou uma carta-proposta com apoio de sete showrooms, o elo que une grifes para a venda em mais de 500 multimarcas de todo Brasil, e redefiniu o calendário de lançamentos e liquidação até 2022. “Poucas vezes presenciei na moda uma vontade tão forte do próprio mercado. Nosso manifesto é orientativo, quer dizer, serve para nortear marcas nesse momento desafiador”, explica.

Para o consumidor final, o que muda parece simples, mas terá impacto nacional em toda cadeia da moda. A próxima liquidação de inverno acontecerá em agosto, e não em julho, pleno inverno. Lançamentos da coleção Verão 2021 serão em setembro, e não em agosto, como costumava ser. Mais do que datas, o que altera é a valorização do produto que fica mais tempo nas araras das lojas – assim, começamos um processo de afastamento da tendência do fast fashion, que lança novas coleções a cada 15 dias. Um movimento que enaltece as criações nacionais e educa o consumidor que passa a ter um olhar mais cuidadoso com o design brasileiro.

Alice Ferraz, especial para o Estado
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