Mundo em ebulição

De Redação Estadão | 13 de fevereiro de 2020 | 07:05

Na descontraída entrevista por telefone com o animador francês Michel Ocelot, de Dilili em Paris – e na qual ele mistura digitalmente o 2D com o 3D, o repórter pergunta onde entra a terceira dimensão no filme? “Basicamente, as passagens, a maioria das cenas mais íntimas seguem em 2D.”

E o digital? “Um exemplo das múltiplas possibilidades técnicas da animação digitalizada é a cena em que a câmera atravessa a praça para chegar aos amigos do outro lado. Nossa equipe fez um trabalho prodigioso, embora ainda existam problemas, quanto a mostrar os pés das pessoas, caminhando”, reflete o diretor. O repórter insiste – o que o computador trouxe para a animação, qual é a sua grande contribuição? “É a perspectiva. Com o computador, é possível criar ambientes e espaços tridimensionais, que abarcam um campo visual mais amplo, como no cinema em geral. Nesse sentido, e embora já estejamos acostumados, ainda estamos vivendo uma revolução. Ela ocorreu também na pintura, mas isso foi há quase mil anos, quando artistas pioneiros começaram a descolar suas figuras do entorno”, explica Ocelot.

A pergunta que não quer calar – nos EUA, no Japão, existem grandes estúdios de animação. Disney, Pixar, Illumination, DreamWorks, Ghibli. Ocelot possui um estúdio próprio? Como realiza suas animações? “Para cada novo filme alugo um espaço em Paris e reúno os artistas e técnicos que são contratados para funções específicas. Terminamos às vezes formando um grande grupo e quando o trabalho termina nos despedimos. Obrigado e até uma próxima vez. Alguns voltam no filme seguinte, mas nem todos. Formo nova equipe. Alguns seguem o próprio caminho, vão trabalhar fora. Respeito muito os profissionais formados, cientes do seu ofício, mas é bom trabalhar com jovens, que têm mais facilidade e até parecem dominar instintivamente as novas ferramentas.”

Sobre o aspecto pedagógico de seu cinema, esclarece – “Não faço filmes para crianças, mesmo que meu trabalho seja acessível para elas. E me considero feliz porque tenho boas respostas de adultos, de idosos.” O curioso é que o trabalho começa solitário para Ocelot. Agora mesmo, ele escreve o próximo filme, uma fantasia desenrolada em três períodos diferentes, com um episódio intermediário na França medieval e por desfecho uma fábula turca. “São histórias que abordam as dificuldades de superação”, ele informa. E o repórter – Você pelo visto está fazendo o seu Intolerância?”, em referência ao clássico de David Wark Griffith, de 1916, que também viaja na grande História, por meio de três tramas que reproduzem momentos críticos de repressão da humanidade. Ocelot diverte-se. “Intolerância, o clássico? Só se for em menor medida, mas o tema não deixa de estar embutido nas histórias, só que nunca pensei dessa forma.” Como sempre faz, Ocelot escreve o roteiro e planeja o storyboard criando as cenas sozinho. “O storyboard é o meu momento de prazer, quando começo a levantar o visual do filme que ainda é uma ideia no meu imaginário. Depois é que chegam os artistas que vão me ajudar a construir minha visão. Sou muito aberto à contribuição, mas tenho de admitir que cada filme possui um conceito e uma diretriz dos quais não abro mão.” Chama-se isso de autoria. “Pois é.”

Outra pergunta necessária. Por que a Belle Époque, por que os personagens que pertencem à grande História, incluindo o brasileiro Santos Dumont? “Como eu já disse antes, gosto muito de mostrar lugares exóticos, culturas distantes, mas dessa vez me pareceu necessário trazer a personagem para a França, porque estamos vivendo num mundo de confronto e as migrações tornaram-se incontornáveis. O mundo todo parece estar em movimento. A trama criminal me permite fazer com que Dilili descubra as entranhas de um mundo estranho para ela. E que seja na Paris da Belle Époque é justamente para destacar a ebulição desse mundo. Tudo estava mudando. Monet estava abrindo novas possibilidades para a pintura, Santos Dumont estava fazendo o homem voar, Marie Curie, uma mulher, revolucionava a ciência, Erik Satie, um compositor que eu amo, inaugurava o minimalismo e o teatro do absurdo, e Jules Verne antecipava, de forma visionária, conquistas tecnológicas que ainda estavam por vir, e muita gente se pergunta de onde ele tirou aquelas ideias. Tudo isso num quadro muito preciso, o da luta entre o bem e o mal, que também está nos filmes precedentes. Sei que o mundo é complexo e o maniqueísmo não dá conta, em termos, dessa complexidade. Mas me pareceu interessante criar essa frente formada por Dilili, seu amigo entregador e os Mestres do Bem para enfrentar os Mestres do Mal. Que as vítimas preferenciais sejam meninas me permite abordar, mesmo que de forma fantasiosa, e por meio da fábula, temas como o abuso infantil e a questão da mulher na sociedade.”

Entre as personagens está também a cantora lírica Emma Calvé, um verdadeiro mito do bel canto, a maior cantora de ópera francesa da época. Se fosse em Hollywood, Emma seria protagonizada na voz de alguma grande diva pop. Ocelot recorre a dubladores cujos nomes talvez sejam mais secretos para o público brasileiro – Prunelle Charles-Ambron, Enzo Ratsito, Michel Elias, Natalie Dessert, Jérémy Lopez, Elisabeth Duda. O que nos leva a uma questão – no domingo à noite, na cerimônia do Oscar, Toy Story 4 venceu como melhor animação, repetindo o 3.

O que Michel Ocelot pensa das animações de Hollywood? “Elas dominam o mercado, mas não me entusiasmam muito. São filmes mais comerciais, consumistas, na contracorrente do que faço.” E o Oscar? “Cest une blague”, uma piada. Falou o mestre, e disse.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Luiz Carlos Merten
Estadao Conteudo
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