Na série 'Hightown', Jackie Quiñones usa sexo e álcool para fugir de traumas

De Redação Estadão | 17 de maio de 2020 | 07:07

Durante muitos anos, a televisão foi dominada pelos anti-heróis: mafiosos que iam ao psiquiatra, professores de química que fabricavam drogas, publicitários que colecionavam mulheres. Sempre homens e brancos. Pouco a pouco, as personagens femininas começam a ter direito a se comportar mal, sem serem vistas como loucas ou problemáticas. Como Jackie Quiñones (Monica Raymund), a personagem principal de Hightown, que poderia ser comparada a Don Draper, de Mad Men, usando o sexo e a bebida para afogar suas dores, mas se divertindo no caminho. “Normalmente, personagens femininas que são promíscuas são retratadas como viciadas em sexo e vistas como pessoas tristes”, disse ao Estadão a criadora da série, Rebecca Cutter. “Jackie está usando o sexo para preencher um buraco em sua vida, mas o sexo em si é uma celebração. Era importante para mim ter uma visão positiva, mesmo que não seja, no fim, só diversão, mesmo que haja complicações”, explicou.

A série Hightown entra no ar neste domingo, 17, no serviço de streaming Starzplay, com cada um dos oito episódios da primeira temporada estreando semanalmente.

Para a atriz Monica Raymund, de 33 anos, que também trabalhou nas séries The Good Wife e Lie to Me, é um tipo de papel denso e em ambiente inóspito que normalmente os homens podem explorar. “Mas mulheres podem passar por coisas complicadas e traumas também. É fascinante ver o espaço se abrindo criativamente para as mulheres como sempre foi para os homens. Ser parte de um movimento que está quebrando essas barreiras é muito bacana. Porque eu posso fazer o que os meninos fazem também”, afirmou a atriz ao Estadão, que deixou a série Chicago Fire após seis temporadas para poder fazer algo diferente. “Estava procurando algo mais adulto e profundo. Queria uma coisa diferente porque não sou a mesma mulher que era anos atrás.”

Jackie trabalha na fiscalização da pesca na área de Cape Cod, que ficou famosa como o balneário de verão da família Kennedy, mas não é apenas um lugar de ricos e famosos. Marrenta, usa seu charme para conquistar as turistas, mas tudo muda quando encontra um corpo, mais uma vítima da epidemia de opioides. “Quando você conhece alguém durão, provavelmente há inseguranças envolvidas. Ela usa sua jaqueta como armadura. É como lida com o mundo”, lembrou Monica. “Ela ainda está se encontrando. A jornada de transformação de uma menina em mulher é difícil para todas nós. Jackie emula o comportamento masculino porque acha que aquilo é ser durona. Mas explorar e abraçar nossas vulnerabilidades é nosso verdadeiro ato de coragem.”

Depois de encontrar uma jovem morta, Jackie passa por um acompanhamento psicológico que inclui reuniões dos Alcoólicos Anônimos para ficar sóbria – algo que Rebecca Cutter usou de sua própria experiência. “Estou sóbria há um bom tempo, mas adição e recuperação são temas caros a mim”, disse. “E eu quase sempre acho que esse tipo de vício é tratado de forma errada na televisão. Queria trazer honestidade e humor, mostrar pessoas de verdade.” Jackie também resolve investigar o caso por conta própria. “Ela está procurando um propósito na vida”, explicou a atriz. E a personagem acaba entrando em rota de colisão com o detetive Ray Abruzzo (James Badge Dale), que também lida com os próprios problemas. “Ray e Jackie têm mais coisas em comum do que imaginam”, disse Badge Dale em evento da Associação de Críticos de Televisão, em Los Angeles.

Cutter achou que acrescentar o crime elevaria o drama de Hightown – fora que ela sempre foi fã dos romances policiais de Dennis Lehane. “Eu adoro aquela linguagem de cara durão. Queria fazer de uma perspectiva feminina. E nunca vimos muitas mulheres habitando esse tipo de mundo.” Jackie Quiñones não apenas é mulher, mas também homossexual e latina. “Sou todas as minorias possíveis”, disse Monica Raymund, que se identifica com a personagem em todas essas frentes. “Mas eu aprendi a usar tudo isso como uma medalha de honra. A perspectiva de Jackie é: quem se importa com a cor da sua pele, com o fato de ser uma mulher, gay? Sua riqueza como personagem é seu trauma, suas dificuldades, seu vício. Quando alguém diz a ela que está se fazendo de vítima, é problema dele, não dela. Não é meu papel corrigi-lo, meu papel é viver minha vida, continuar adiante. Ela quer provar a si mesma, não a ninguém.” Sem pedir licença ou desculpa – como Don Draper e Tony Soprano.

Mariane Morisawa, especial para O Estado
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