Novo disco de Leila Pinheiro traz canções de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar

De Redação Estadão | 21 de abril de 2020 | 07:30

Era fácil ligar o rádio ou a TV no alvorecer dos anos 1970 e escutar uma música de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar. A dupla era fornecedora preferencial de repertório para vozes importantes e fazia canções sob encomenda para trilhas de novelas e filmes, com harmonias bem construídas e letras que tinham a ver com o espírito da época. Depois do sucesso de BR-3, lançada por Toni Tornado no 5.º Festival Internacional da Canção, a dupla foi perseguida pelo regime militar e se separou – Adolfo foi para os Estados Unidos e Tibério para o interior de Goiás.

Com apenas 9 anos, Leila Pinheiro acompanhou a repercussão da canção mais famosa de Adolfo e Gaspar, Sá Marina, gravada por Wilson Simonal. Em sua casa em Belém, ela viu pela TV o cantor interpretando a música com um coro de 30 mil pessoas, no Maracanãzinho. O mesmo ginásio em que ela despontaria em 1985, cantando Verde no Festival dos Festivais.

Todas essas histórias se entrelaçam no disco Vamos Partir pro Mundo – A Música de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, que reúne Leila e Adolfo. Ele e o parceiro, morto em 2017, sempre desejaram levar à frente a ideia de um songbook com músicas da dupla. No início do ano passado, o pianista convidou a cantora para integrar o projeto. “Isso é um presente para uma intérprete, com a sofisticação que tem o trabalho do Adolfo”, afirma Leila.

Das 54 músicas de Adolfo e Tibério, 15 estão no disco. Nenhuma é inédita, mas Leila não conhecia boa parte delas. Na seleção de repertório, a cantora quis destacar a atualidade das composições. Os clássicos Sá Marina – gravada até mesmo por Stevie Wonder – e Teletema não ficaram de fora. A letra desta última, feita para a trilha da novela Véu de Noiva (1969), foi uma homenagem de Tibério para uma namorada que morreu em acidente de carro.

Vamos Partir pro Mundo é um disco alegre e jazzístico, que abarca as duas fases da parceria de Adolfo e Tibério, que nos anos 2000 voltaram a compor juntos. Dono do Mundo e Domingo Azul são dessa safra mais recente e estão em álbum gravado por Adolfo em 2007 para uma gravadora inglesa.

A faixa que batiza o disco foi a última que Adolfo e Tibério fizeram na primeira fase da parceria, justamente quando partiram pro mundo. O pianista já estava fora do Brasil quando o letrista finalizou a música, inicialmente registrada por Doris Monteiro. Leila ainda incluiu no álbum canções conhecidas nas vozes de Elis Regina (Giro), Claudette Soares (Ao Redor) e Maysa (Tema Triste).

Amigo de Leila e Adolfo, Roberto Menescal participa de 14 das 15 faixas de Vamos Partir pro Mundo. Ao lado do pianista, ele fez parte do grupo que acompanhou Elis no fim dos anos 1960 e, como executivo de gravadora, contratou a intérprete após o êxito de Verde. Partiu dela o convite a Menescal para tocar violão e guitarra no disco. “Imaginei que Menescal ia sentir uma emoção especial por tudo aquilo que Adolfo representa”, diz Leila.

Quando o álbum foi finalizado, Leila, Adolfo e a equipe de produção se reuniram para ouvir o resultado. A cantora conta que todos ficaram com uma sensação de que aquelas músicas eram o retrato de um momento especial da música brasileira. “Essas canções trazem luz para as pessoas. Quando o disco sai dentro de um contexto inimaginável, elas ficam mais solares ainda”, aponta Leila.

Para Adolfo, o álbum é um sonho realizado. E não se esquece de Tibério. “Ele gostaria demais de estar acompanhando e sei que ele está em alguma parte curtindo toda essa história.”

Renato Vieira
Estadao Conteudo
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